Na semana passada referiram-se os aspetos positivos do consumo de soja e alimentos derivados face a diversos tipos de cancro como o da mama, do intestino e da próstata (clica aqui). Mas… e se falarmos agora de outras patologias, entre as quais problemas cardiovasculares? Será que a soja também pode ajudar?

Segundo o relatório mais recente sobre as Estatísticas de Saúde portuguesas (correspondentes ao ano de 2018), apesar de ter havido uma redução de 0.4% da quantidade de óbitos por doenças do aparelho circulatório (inclui doenças cerebrovasculares como Acidentes Vasculares Cerebrais e Doença Isquémica do Coração) esta continuou a ser a maior causa de mortes no país, correspondendo a 29% do número total de falecimentos nesse ano (Instituto Nacional de Estatística, 2020).

De acordo com o chefe de redação da “American Journal of Cardiology”, o colesterol, especialmente o LDL é o único fator crítico na formação de placa aterosclerótica. Segundo o mesmo, “a única forma de produzir aterosclerose experimentalmente é alimentando herbívoros com uma dieta rica em colesterol e/ou gorduras saturadas”. Mais acrescenta que é possível ser-se obeso, diabético e fumador e não desenvolver esta placa, desde que os níveis de colesterol no sangue se mantenham baixos. De facto, a redução de 1 mmol/L da concentração de colesterol está associada a uma redução ≥ 21% do risco de doença cardíaca (Roberts, 2010). (Rosell, Appleby, Spencer, & Key, 2004).

As concentrações do colesterol são influenciadas pelo que comemos e a relação entre o aumento das suas concentrações aquando da ingestão de gorduras saturadas e colesterol está mais que documentado (John W. Erdman, 2000; Rosell, Appleby, Spencer, & Key, 2004).

Tal como muitos outros temas, já existem no mundo científico artigos bastante antigos a demonstrar os aspetos positivos do consumo de soja e, atualmente, muitos de nós não têm noção que esta informação existe. Vamos explorar…

Em 1995 uma meta-análise que incluiu 38 estudos científicos concluiu que o consumo de proteína de soja reduz o colesterol total, o LDL e os triglicerídeos (gorduras no sangue) sem alterar os níveis do colesterol-HDL quando comparada com a caseína que é uma proteína animal (bastante presente em alimentos tais como leite de vaca). De facto, estima-se que a ingestão diária de 25 ou 30g de proteína de soja reduz  as concentrações de colesterol em 8.9 ou 17.4mg/dl respetivamente e, indivíduos com elevados níveis de colesterol no sangue, devem apresentar maiores reduções quando há uma substituição de proteína animal pela de soja (Anderson, Johnstone, & Cook-Newell, 1995).

Figura 1 Exemplos de alimentos derivados de soja e quantidades de proteína (Anderson, Johnstone, & Cook-Newell, 1995).

Uma investigação teve como objetivo analisar a relação entre as concentrações de colesterol no sangue em participantes que ingeriam diversas quantidades de soja e derivados. Assim, a amostra foi composta por mulheres não-vegetarianas, vegetarianas e veganas. Foi realizado um questionário alimentar e recolhidas amostras de sangue. Segundo os resultados, as não-vegetarianas foram as que ingeriram menores quantidades e as que ingeriram mais de 6g/dia de proteína de soja apresentaram uma média menor de colesterol total e de LDL de respetivamente 7.5% e 12.4% comparativamente com as que ingeriram menos de 0.5g/dia (Rosell, Appleby, Spencer, & Key, 2004).

Estudos mais recentes continuam a chegar a conclusões idênticas: o consumo de soja teve efeitos positivos nos níveis de colesterol, sobretudo em indivíduos com valores elevados, podendo reduzir significativamente os riscos de AVC e ataques cardíacos (Li, et al., 2019; Pabich & Materska, 2019).

Um aspeto importante a referir é que o consumo de soja não aparenta reduzir o colesterol em indivíduos com valores normais. Assim não é preciso ter-se receio da ingestão de soja causar valores demasiado baixos (John W. Erdman, 2000).

De facto, desde 1999 que a “Food and Drug Administration” dos Estados Unidos autoriza que conste nos rótulos de alimentos com quantidades específicas de proteína de soja a informação que esta proteína pode reduzir os riscos de doenças cardíacas. Mais ainda, nesse ano esta organização autorizou a alegação de que o consumo de 25g de proteína de soja diárias, associado a uma alimentação baixa em gorduras saturadas, reduz o risco de doença cardiovascular (DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES, 2017; FDA, 1999).

Hoje em dia ainda não se sabe bem o porquê de a soja ser protetora. Pensa-se que se possa dever ao facto de as isoflavonas (fitoestrogénios presentes neste alimento), por terem uma ação antioxidante, reduzam a oxidação do colesterol LDL, assim como promovem uma redução da rigidez do endotélio (camada de células finas que reveste a superfície luminal de todo o sistema circulatório) através do aumento da produção de óxido nítrico que, consequentemente, reduz a tensão arterial e a inflamação (aconselho-te a leres o artigo que foi anteriormente publicado sobre endotélio onde se fala sobre esta relação entre rigidez arterial e acido nítrico para perceberes melhor este aspeto – clica aqui) (Pabich & Materska, 2019).

Assim, mais uma vez, alimentos à base de soja podem melhorar a nossa saúde. Já se falou sobre o cancro (clica aqui), hoje doenças cardiovasculares… E que tal se para a semana vermos se ajuda também em sintomas da menopausa?

Fica atento!…

 

Bibliografia

  • Anderson, J. W., Johnstone, B. M., & Cook-Newell, M. E. (3 de Aug de 1995). META-ANALYSIS OF THE EFFECTS OF SOY PROTEIN INTAKE ON SERUM LIPIDS. THE NEW ENGLAND JOURNAL OF MEDICINE, 333(5), 276-282.
  • DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES. (2017). Food Labeling: Health Claims; Soy Protein and Coronary Heart Disease. Obtido de FDA: https://www.fda.gov/media/108701/download
  • FDA. (26 de Oct de 1999). Food Labeling: Health Claims; Soy Protein and Coronary Heart Disease. Food and Drug Administration, HHS. Final Rule. Fed Regist, 64(206), 57700-33.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2020). Estatísticas de Saúde 2018. Lisboa: nstituto Nacional de Estatística.
  • John W. Erdman, J. (14 de November de 2000). Soy Protein and Cardiovascular Disease – A Statement for Healthcare Professionals From the Nutrition Committee of the AHA. Circulation, 102, 2555-2559.
  • Li, N., Wu, X., Zhuang, W., Xia, L., Chen, Y., Zhao, R., . . . Wan, Q. (2019). Soy and Isoflavone Consumption and Multiple Health Outcomes: Umbrella Review of Systematic Reviews and Meta-Analyses of Observational Studies and Randomized Trials in Humans. Mol. Nutr. Food Res.
  • Pabich, M., & Materska, M. (2019). Biological Effect of Soy Isofalvones in the Prevention of Civilization Diseases. Nutrients, 11.
  • Rosell, M. S., Appleby, P. N., Spencer, E. A., & Key, T. J. (2004). Soy intake and blood cholesterol concentrations: a cross-sectional study of 1033 pre- and postmenopausal women in the Oxford arm of the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition. Am J Clin Nutr, 80, 1391–6.

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