A nível mundial as populações asiáticas são as que, historicamente, consomem maiores quantidades de soja. De facto, o consumo diário deste alimento em países como a China, Japão e Coreia varia entre 20-50mg, comparativamente com 1mg/dia nos países mais ocidentais. Contudo, na última década tem-se verificado um aumento do consumo deste alimento nas populações ocidentais, associado a um aumento do vegetarianismo e ao aumento da perceção dos seus benefícios para a saúde (Magee & Rowland, 2012; Rizzo & Baroni, 2018).

De facto, atualmente cada vez se vê mais gente a adotar uma alimentação mais à base de plantas e, devido a isto, uma grande variedade de produtos à base de soja têm aparecido cada vez mais nas prateleiras dos supermercados. Uma vantagem deste alimento é que ele pode ser facilmente alterado através da tecnologia e, devido a isto, hoje em dia é utilizado para a produção de substitutos de carne e laticínios que podem ser utilizados como alternativas, especialmente durante a transição para uma dieta mais vegetariana (Rizzo & Baroni, 2018).

A soja é uma boa fonte de proteína (cerca de 36.49g/100g), isoflavonas (fitoestrogénios naturais de origem vegetal), ácidos gordos insaturados, vitaminas, fibra e zinco. Contudo, o facto de apresentar grandes concentrações de fitoestrogénios e polifenóis com estrutura molecular semelhante aos estrogénios levantou, no mundo científico, muitas questões face à sua segurança especialmente aquando ingestão de altas doses. Devido a isto, pensa-se que o consumo deste alimento poderá estar relacionado com patologias associadas a alterações hormonais, tais como cancros da mama, próstata, endométrio e do cólon e reto, assim como cancro do pulmão, doenças cardiovasculares, osteoporose e sintomas comuns da menopausa (Rizzo & Baroni, 2018; Zamora-Ros, et al., 2012; Zhang, Kang, Li, & Zhang, 2012).

Apesar de apresentarem uma estrutura semelhante à dos estrogénios, as isoflavonas têm uma ação estrogénica baixa. Tanto podem ter uma ação estrogénica ou anti-estrogénica de acordo com o tecido corporal e com as concentrações de estrogénios naturais no corpo. Quando existem baixos níveis desta hormona, as isoflavonas vão ter uma ação estrogénica, verificando-se o oposto quando existem elevadas concentrações desta hormona no corpo  (Lei, et al., 2020).

O corpo apresenta dois tipos de recetores de estrogénio: os alfa (ERα) e os beta (ERβ). As isoflavonas ligam-se mais facilmente a estes últimos. Estes recetores estão distribuídos de forma diferente no nosso corpo. Por exemplo, o útero e as mamas apresentam mais recetores alfa e os ossos, o cérebro, a bexiga e a próstata apresentam mais recetores beta (Mahmoud, Yang, & Bosland, 2014; Roudsari, et al., 2005; Viggiani, Polimeno, Leo, & Barone, 2019).

Mas fará a soja assim tão mal? Hoje vou-me focar no cancro.

Vamos explorar…

Cancro da mama e consumo de soja:

Os tipos de cancro da mama dependem do seu recetor molecular que pode ser um recetor de estrogénio, de progesterona ou de receptor 2 do fator de crescimento da Epiderme Humana – HER2. Estas diferenças podem fazer com que os prognósticos e tratamentos sejam diferentes de mulher para mulher (Xie, et al., 2019).

Figura 1 Tipos de cancro da mama consoante recetor molecular, probabilidade de metastização e prognóstico (Xie, et al., 2019).

Tem sido demonstrada alguma preocupação de que os efeitos estrogénicos das isoflavonas possam estimular o crescimento de tumores da mama de recetor de estrogénio positivo existentes ou causar lesões pré-cancerosas, aumentando o risco de cancro em mulheres de alto risco. Note-se que estas preocupações se basearam maioritariamente em estudos realizados em animais (Magee & Rowland, 2012).

Contudo, e tal como suprarreferido, o consumo de soja é superior nos países asiáticos e interessante será dizer que nos países do sudeste da Ásia a prevalência de cancro da mama é cerca de 5 vezes inferior à dos países ocidentais (Magee & Rowland, 2012).

Assim, será a soja boa ou má?…

Uma revisão de estudos epidemiológicos demonstrou que o consumo de soja não aparenta ter efeitos adversos no prognóstico e na recorrência do cancro da mama, podendo mesmo reduzir o risco e a mortalidade associados a este problema de saúde. De facto, o consumo de soja (idêntico aos valores ingeridos pelos países asiáticos) está associado a uma redução do risco entre 10-20% (Magee & Rowland, 2012).

Segundo os resultados de uma meta-análise publicada em 2019, o consumo de soja reduz os riscos de mortalidade por cancro, mais especificamente cancros do estômago, pulmão, intestino e mama. De facto, em relação a este último, o consumo de 10 mg/dia de isoflavonas provenientes da soja reduz em 9% as probabilidades de se falecer de cancro da mama. Já o consumo de proteína (5g/dia) proveniente deste alimento reduz o risco de morte em 12% (Nachvak, et al., 2019).

Os fitoestrogénios presentes neste alimento vão competir com os estrogénios presentes no corpo para se ligaram aos recetores de estrogénio e, devido a isto, podem inibir a mutação e metástase das células e promover a sua destruição. Ou seja, se os fitoestrogénios se ligarem às células tumorais de recetores de estrogénio vão impedir que o estrogénio em si se ligue a estas células alteradas, impedindo a sua multiplicação. Para além disso, esses apresentam propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, o que indiretamente pode levar a uma ação anticancerígena (Lu, et al., 2017; Nachvak, et al., 2019; Viggiani, Polimeno, Leo, & Barone, 2019).

Uma investigação analisou através de um questionário o consumo de soja e alimentos à base de soja (ex: diversos tipos de tofu, produtos à base de soja processados, leite de soja) em pacientes do sexo feminino com cancro da mama e demonstrou que as que ingeriam quantidades acima dos 17.32 mg/dia apresentaram uma redução da mortalidade entre 36-38%. Os autores concluíram que consumo elevado destes produtos tanto pode reduzir o risco de morte como o reaparecimento desta patologia (Zhang, Kang, Li, & Zhang, 2012).

Aproximadamente 5-10% dos casos de cancro da mama provêm de causas hereditárias e são causadas devido a mutações em dois genes bastantes comuns nesta patologia: BRCA1 e BRCA2. Existem alguns fatores ambientais que podem causar alterações nestes genes, tais como o aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) e o consumo de carne. Interessante será dizer que, de acordo com os resultados de uma investigação científica, as participantes com e sem mutações nestes genes apresentaram um maior risco de desenvolver este cancro aquando do consumo de carnes e uma redução do risco aquando do consumo de soja e vegetais. De facto, o consumo de soja reduziu o risco de desenvolver cancro da mama em 73% nas portadores de mutação dos genes BRCA e em 27% nas não portadoras desta alteração genética (Ko, et al., 2013).

Cancro Gastrointestinal e consumo de soja:

Em relação ao consumo de alimentos à base de soja e a este tipo de patologia, meta-análises concluíram que existe uma relação inversa entre o consumo destes produtos e o risco de cancro gastrointestinal e do estômago. Ou seja, quanto mais alimentos à base de soja se consumir, menor são os riscos de desenvolver estas patologias (Li, et al., 2019; Lu, et al., 2017; Nachvak, et al., 2019).

Cancro da próstata e consumo de soja:

Tal como o tumor da mama, este tipo de cancro também é menos comum nos países asiáticos que nos países mais ocidentais. Contudo, asiáticos migrantes nos Estados Unidos apresentam um risco aumentado. Isto indica que mais que fatores genéticos, fatores ambientais, especialmente alimentares, podem ter um papel fundamental no desenvolvimento desta patologia que mata anualmente imensos homens (Mahmoud, Yang, & Bosland, 2014). Mais uma vez, meta-análises e outros estudos também demonstraram os efeitos positivos do consumo de soja e seus derivados na redução do risco de se desenvolver cancro da próstata (Applegate, Rowles, Ranard, Jeon, & Jr., 2018; Li, et al., 2019; Mahmoud, Yang, & Bosland, 2014). Os resultados de uma investigação publicada de 1998 demonstraram uma redução de 70% do risco de se desenvolver este problema de saúde aquando consumo frequente (mais de uma vez por dia) de leite de soja (Jacobsen, Knutsen, & Fraser, 1998).

Os tecidos da próstata apresentam elevadas quantidade de recetores de estrogénio beta (ERβ) e a genisteína (uma das isoflavonas mais presentes na soja) liga-se mais facilmente a estes recetores que aos ERα. Os ERβ, quando ativos, reduzem a proliferação das células tumorais. De facto, tem-se verificado uma redução da atividade destes recetores aquando da presença de cancro prostático. Assim, o facto da genisteína se ligar aos ERβ e ativá-los poderá ser o fator principal na inibição deste cancro aquando do consumo de soja (Applegate, Rowles, Ranard, Jeon, & Jr., 2018).

Para além disto, tem-se demonstrado que a genisteína inibe a formação de Fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1) que é uma proteína associada a diversas patologias entre as quais o cancro (Applegate, Rowles, Ranard, Jeon, & Jr., 2018). Devido a isto, é recomendado que indivíduos com cancro da próstata ingiram alimentos à base de soja tais como tofu, miso e tempeh (Patel, 2014).

Bem… afinal comer tofu faz bem… E se falarmos agora sobre outras patologias? Poderá a soja ajudar? Fiquem atentos ao artigo da próxima semana!

Nota: se gostaste do artigo podes avalia-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Applegate, C. C., Rowles, J. L., Ranard, K. M., Jeon, S., & Jr., J. W. (2018). Soy Consumption and the Risk of Prostate Cancer: An Updated Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients, 10(40).
  • Jacobsen, B. K., Knutsen, S. F., & Fraser, G. E. (1998). Does high soy milk intake reduce prostate cancer incidence? The Adventist Health Study (United States). Cancer Causes and Control, 9, 553-557.
  • Ko, K.-P., Kim, S.-W., Ma, S. H., Park, B., Ahn, Y., Lee, J. W., . . . Park, S. K. (2013). Dietary intake and breast cancer among carriers and noncarriers of mutations in the Korean Hereditary Breast Cancer Study. Am J Clin Nutr, 98, 1493–501.
  • Lei, Y.‑Y., Ho, S. C., Cheng, A., Kwok, C., Cheung, K. L., He, Y.‑Q., . . . Yeo, W. (2020). The association between soy isoflavone intake and menopausal symptoms after breast cancer diagnosis: a prospective longitudinal cohort study on Chinese breast cancer patients. Breast Cancer Research and Treatment.
  • Li, N., Wu, X., Zhuang, W., Xia, L., Chen, Y., Zhao, R., . . . Zhou, Y. (2019). Soy and Isoflavone Consumption and Multiple Health Outcomes: Umbrella Review of Systematic Reviews and Meta-Analyses of Observational Studies and Randomized Trials in Humans. Molecular Nutrition Foood Research.
  • Lu, D., Pan, C., Ye, C., Duan, H., Xu, F., Yin, L., . . . Zhang, S. (2017, June 22). Meta-analysis of Soy Consumption and Gastrointestinal Cancer Risk. Scientific Reports, 7(4048).
  • Magee, P. J., & Rowland, I. (2012, November). Soy products in the management of breast cancer. Curr Opin Clin Nutr Metab Care, 15(6), 586-591.
  • Mahmoud, A. M., Yang, W., & Bosland, M. C. (2014). Soy Isoflavones and Prostate Cancer: A Review of Molecular Mechanisms. J Steroid Biochem Mol Biol., 140, 116–132.
  • Nachvak, S. M., Moradi, S., Anjom-shoae, J., Rahmani, J., Nasiri, M., Maleki, V., & Sadeghi, O. (2019). Soy, Soy Isoflavones, and Protein Intake in Relation to Mortality from All Causes, Cancers, and Cardiovascular Diseases: A Systematic Review and Dose-Response Meta-Analysis of Prospective Cohort Studies. JOURNAL OF THE ACADEMY OF NUTRITION AND DIETETICS.
  • Patel, V. H. (2014). Nutrition and prostate cancer: an overview. Expert Rev. Anticancer Ther, 14(11), 1295–1304.
  • Rizzo, G., & Baroni, L. (2018). Soy, Soy Foods and Their Role in Vegetarian Diets. Nutrients, 10(43).
  • Roudsari, A. H., Tahbaz, F., Hossein-Nezhad, A., Arjmandi, B., Larijani, B., & Kimiagar, S. M. (2005, October 29). Assessment of soy phytoestrogens’ effects on bone turnover indicators in menopausal women with osteopenia in Iran: a before and after clinical trial. Nutrition Journal.
  • Viggiani, M. T., Polimeno, L., Leo, A. D., & Barone, M. (2019). Phytoestrogens: Dietary Intake, Bioavailability, and Protective Mechanisms against Colorectal Neoproliferative Lesions. Nutrients, 11(1709).
  • Xie, M., Liu, J., Tsao, R., Wang, Z., Sun, B., & Wang, J. (2019). Whole Grain Consumption for the Prevention and Treatment of Breast Cancer. Nutrients, 11(1769).
  • Zamora-Ros, R., Knaze, V., Luja´n-Barroso, L., Kuhnle, G., Mulligan, A., Touillaud, M., . . . Bueno-de-Mesquita, H. (2012). Dietary intakes and food sources of phytoestrogens in the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC) 24-hour dietary recall cohort. European Journal of Clinical Nutrition, 1-10.
  • Zhang, Y.-F., Kang, H.-B., Li, B.-L., & Zhang, R.-M. (2012). Positive Effects of Soy Isoflavone Food on Survival of Breast Cancer Patients in China. Asian Pacific J Cancer Prev, 13, 479-482.

Achas-te a informação útil?

Carrega na estrela para avaliares este artigo

Média de estrelas dadas 5 / 5. Avaliações 3

Sem avaliações. Sê o primeiro!

Ajuda a espalhar a informação desta página! 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *