Confesso que muitas vezes fico frustrada… Não há dúvida que a informação sobre os benefícios de uma alimentação à base de plantas está muito mais avançada em Inglaterra, onde moro, comparativamente com Portugal. Eu diria que Portugal está 2-3 anos atrasado em relação ao Reino Unido. Foi exatamente por isso que abri esta página, de forma a fornecer informação atual sobre este tema.

Uma das coisas que recentemente me deixou frustrada foi a comparação da entre a Roda dos Alimentos Portuguesa e a Canadiana. Sabias que este último retirou das suas guidelines o consumo de laticínios e óleos? Ah pois! E Portugal? Vou-vos mostrar (Government of Canada, 2019; Serviço Nacional de Saúde, s.d.)…

Figura 1 Comparação entre a nova roda alimentar de Portugal (à esquerda) e a roda alimentar canadiana (à direita) (Government of Canada, 2019; Serviço Nacional de Saúde, s.d.).

Portugal continua a sugerir a ingestão de 2-3 porções de laticínios por dia (Serviço Nacional de Saúde, s.d.)! Isto frustra-me pois todos nós achamos que as recomendações dadas pelas diversas associações de saúde são as melhores o que, infelizmente, não é verdade.

Em relação ao leite ou laticínios já se verificou que:

  • Leite contém hormonas sexuais – clica aqui;
  • Leite e laticínios podem potenciar acne e obesidade – clica aqui;
  • O cálcio do leite não ajuda na prevenção da Osteoporose – clica aqui;
  • Laticínios estão fortemente associados ao cancro da próstata – clica aqui.

O artigo de hoje é sobre laticínios e cancros da mama e ovários!

No geral, ainda existe muita contradição no mundo científico sobre a possível relação entre cancro da mama e consumo de leite e derivados. Contudo, há algumas relações que não podem ser ignoradas (Thomssen, 2010). Tal como anteriormente referido, as vacas só produzem naturalmente leite após terem um bezerro e esse leite contém gorduras, nutrientes e hormonas de forma a promover o crescimento da cria. As vacas leiteiras geneticamente modificadas conseguem produzir leite durante toda a sua gravidez, conseguindo produzi-lo durante 305 dias por ano, o que altera a sua composição, apresentando enormes quantidades de estrogénio, testosterona e progesterona. De facto, o leite de uma destas vacas no final da gravidez contém cerca de 33 vezes mais estrogénios que o leite de uma vaca não grávida e o pior é que a maioria dos produtos comerciais à base de leite provêm de animais que se encontram nos últimos meses de gravidez. Note-se ainda que estes animais são artificialmente inseminados 3 meses pós-parto de forma a continuarem a produzir este alimento para consumo humano (Farlow, Xu, & Veenstra, 2009; Maruyama, Oshima, & Ohyama, 2010; Michels, Binder, Courant, Franke, & Osterhues1, 2019). É de notar que o leite orgânico é obtido através de vacas expostas a rações baixas em pesticidas. Contudo, estas continuam a ser submetidas às mesmas formas de reprodução por inseminação artificial suprarreferidas, o que indica que a quantidade de hormonas presentes no seu leite são idênticas às do leite convencional (Michels, Binder, Courant, Franke, & Osterhues1, 2019). Infelizmente, para além disto, o processo de pasteurização é incapaz de destruir estas hormonas sexuais antes deste produto ser vendido nos supermercados. Acrescenta-se ainda que o leite contém fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1) que é uma hormona promotora de células tumorais (Farlow, Xu, & Veenstra, 2009; Ganmaa & Sato, 2005).

Uma investigação analisou a quantidade de estrogénios presentes em 5 tipos de leite diferentes vendidos num supermercado e o único que não teve nenhum tipo de estrogénio foi o de soja (Farlow, Xu, & Veenstra, 2009).

E o que é que acontece se bebermos estes produtos?

109 mulheres pós-menopáusicas foram incluídas num estudo de 20 dias divididos em 4 intervalos (figura 2).

Figura 2 Protocolo de um estudo. As participantes receberam 1L de leite meio gordo (semi-skimmed) ou gordo (whole milk) que tinha de ser ingerido durante as intervenções 1 e 2. Análises de urina foram retiradas no início e final de cada intervenção (Michels, Binder, Courant, Franke, & Osterhues1, 2019).

Os resultados demonstraram um aumento significativo da concentração de estrogénios após ingestão de leite, não havendo grandes diferenças da quantidade de estrogénios totais entre leite gordo e meio-gordo. Apesar disto, o leite meio-gordo aumentou a quantidade de estradiol, estriol e 16ketoE2 (todos são metabolitos de estrogénio) libertados na urina a comparar com o gordo (Michels, Binder, Courant, Franke, & Osterhues1, 2019).

Um outro estudo avaliou os níveis de diferentes tipos de estrogénio no sangue antes e após o consumo de leite num grupo de 7 adultos e num grupo de crianças com idade média de 8 anos e também demonstrou um aumento da quantidade de estrogénios em ambos os grupos após ingestão de leite (Maruyama, Oshima, & Ohyama, 2010).

E qual a relação com o cancro?

A produção de leite e laticínios é a maior fonte de estrogénios provenientes de produtos animais, sendo responsável por 60-80% do consumo de alimentos ricos em estrogénios (Farlow, Xu, & Veenstra, 2009; Ganmaa & Sato, 2005).

Hoje em dia sabe-se que os estrogénios são considerados um fator de risco para o desenvolvimento de cancros da mama, ovários e próstata, pois estes são cancros sensíveis a hormonas (Farlow, Xu, & Veenstra, 2009; Michels, Binder, Courant, Franke, & Osterhues1, 2019). Estudos em animais têm demonstrado que os estrogénios causam tumores mamários em roedores. Contudo, aquando da remoção dos ovários ou da administração de drogas inibidores de estrogénio, os tumores deixaram de crescer. Apesar disto, muitos estudos em humanos não têm demonstrado uma associação entre consumo de leite e cancro da mama. Contudo, existem algumas exceções (Farlow, Xu, & Veenstra, 2009; Hjartaker, Thoresen, Engeset, & Lund, 2010; Parodi, 2005):

Um estudo analisou a prevalência de cancro da mama, ovário e colo do útero em 40 países diferentes. Em relação ao primeiro, os fatores alimentares que aumentaram a sua prevalência foram o consumo de carne, leite e queijo. Já o segundo teve uma grande associação com o consumo de leite e o último com o consumo de leite e queijo (Ganmaa & Sato, 2005).

Figura 3 Incidência de cancros do ovário e mama de acordo com o consumo de leite. Note-se os países onde o consumo deste produto é maior, apresentam maior incidência destas patologias (Ganmaa & Sato, 2005).

Um estudo publicado em 2020 também demonstrou um aumento do risco de cancro da mama aquando da ingestão de laticínios (especialmente leite) e uma redução do risco aquando da substituição deste produto por leite de soja (Fraser, Jaceldo-Siegl, Orlich, Sirirat, & Knutsen, 2020).

O vírus da leucose enzoótica bovina (VLEB) é um vírus que promove o aparecimento de cancros e está presente tanto no leite de vaca como na carne. Os resultados de um estudo que analisou amostras de células mamárias tumorais de mulheres retiradas durante cirurgias, demonstraram que 44% destas apresentaram o DNA deste tipo de vírus. Isto indica que estas mulheres, de algum modo, foram infetadas com ele. Os mesmos autores realizaram, em 2015, um outro estudo onde analisaram células mamárias de mulheres com e sem cancro da mama e observaram uma maior frequência do VLEB nas células cancerígenas (vírus presente em 59% das amostras) em comparação com as normais (vírus presente em 29% das amostras) – figura 4. Assim, eles concluíram que a presença deste vírus está significativamente associado ao aparecimento de cancro da mama  (Buehring, et al., 2014; Buehring, et al., 2015; USDA – APHIS – Veterinary Services, 2008).

Figura 4 Percentagem de VLBE (em inglês BLV significa Bovine Leukemia virus) em células mamárias de mulheres sem cancro da mama e com cancros pré-malignos e malignos. Note-se que quanto mais grave foi o cancro, maior foi a quantidade de vírus presente nas respetivas células mamárias.

Em relação ao cancro do ovário, os resultados de uma investigação demonstraram que as mulheres que ingeriam 4 ou mais porções de laticínios por dia tinham o dobro do risco de desenvolver cancro do ovário em comparação com as que ingeriam 2 porções, ou menos. As mulheres que ingeriam 2 ou mais porções de leite apresentaram o dobro do risco em comparação com as que bebiam menos de 2 porções, sendo este alimento o que apresentou maior relação no desenvolvimento desta patologia (Larsson, Bergkvist, & Wolk, 2004).

Um outro estudo realizado em participantes Africo-Americanas demonstrou um aumento do risco de cancro do ovário aquando da ingestão de lactose e leite gordo, mas a ingestão elevada de cálcio reduziu os riscos. Isto indica que a ingestão de outros alimentos não derivados do leite ricos em cálcio poderão ser protetores face a esta doença (Qin, et al., 2016). Uma possível explicação desta relação entre leite e cancro do ovário pode-se dever ao facto de a galactose (que é um açúcar presente naturalmente no leite) ser tóxica para os oócitos (óvulos imaturos que começam a maturar ao longo do ciclo menstrual). Para além disso, os estrogénios podem alterar as células epiteliais presentes nos ovários bem como o seu ambiente hormonal (Ganmaa & Sato, 2005).

Assim, as recomendações atuais sobre o consumo de leite devem ser analisadas com precaução (Qin, et al., 2016). Talvez seja melhor começarmos a seguir a roda dos alimentos canadiana em vez da portuguesa.

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Buehring, G. C., Shen, H. M., Jensen, H. M., Choi, K. Y., Sun, D., & Nuovo, G. (2014). Bovine Leukemia Virus DNA in Human Breast Tissue. Emerging Infectious Diseases, 20(5), 772-782.
  • Buehring, G. C., Shen, H. M., Jensen, H. M., Jin, D. L., Hudes, M., & Block, G. (2 de September de 2015). Exposure to Bovine Leukemia Virus Is Associated with Breast Cancer: A Case- Control Study. PLOS One, 1-13.
  • Farlow, D., Xu, X., & Veenstra, T. D. (2009). Quantitative measurement of endogenous estrogen metabolites, risk-factors for development of breast cancer, in commercial milk products by LC–MS/MS. Journal of Chromatography B, 887, 1327–1334.
  • Fraser, G. E., Jaceldo-Siegl, K., Orlich, M., Sirirat, A. M., & Knutsen, S. (2020). Dairy, soy, and risk of breast cancer: those confounded milks. International Journal of Epidemiology, 1-12.
  • Ganmaa, D., & Sato, A. (2005). The possible role of female sex hormones in milk from pregnant cows in the development of breast, ovarian and corpus uteri cancers. Medical Hypotheses, 1028-1037.
  • Government of Canada. (23 de June de 2019). Resumo do guia alimentar. Obtido de Government of Canada: https://www.canada.ca/en/health-canada/services/canada-food-guide/resources/snapshot/languages/portuguese-portugais.html
  • Hjartaker, A., Thoresen, M., Engeset, D., & Lund, E. (2010). Dairy consumption and calcium intake and risk of breast cancer in a prospective cohort: The Norwegian Women and Cancer study. Cancer Causes Control, 21, 1875–1885.
  • Larsson, S. C., Bergkvist, L., & Wolk, A. (2004). Milk and lactose intakes and ovarian cancer risk in the Swedish Mammography Cohort. Am J Clin Nutr, 80, 1353–7.
  • Maruyama, K., Oshima, T., & Ohyama, K. (2010). Exposure to exogenous estrogen through intake of commercial milk produced from pregnant cows. Pediatrics International, 52, 33-38.
  • Michels, K. B., Binder, N., Courant, F., Franke, A. A., & Osterhues1, A. (2019). Urinary excretion of sex steroid hormone metabolites after consumption of cow milk: a randomized crossover intervention trial. Am J Clin Nutr, 108, 1-9.
  • Parodi, P. W. (2005). Dairy Product Consumption and the Risk of Breast Cancer. Journal of the American College of Nutrition, 4(6), 556S–568S.
  • Qin, B., Moorman, P. G., Alberg, A. J., Barnholtz-Sloan, J. S., Bondy, M., Cote, M. L., . . . Bandera, E. V. (2016). Dairy, calcium, vitamin D and ovarian cancer risk in African–American women. British Journal of Cancer, 1122–1130.
  • Serviço Nacional de Saúde. (s.d.). A Nova Roda dos Alimentos – Um Guia para a Escolha Alimentar Diária. Obtido de https://www.dgs.pt/ficheiros-de-upload-1/alimentacao-roda-dos-alimentos-pdf.aspx
  • Thomssen, C. (25 de February de 2010). Consumption of Cow’s Milk and Possible Risk of Breast Cancer. Breast Care, 5, 44-46.
  • USDA – APHIS – Veterinary Services. (October de 2008). Bovine Leukosis Virus (BLV) on U.S. Dairy Operations, 2007.

 

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