A Doença Renal Crónica (DRC) é uma patologia bastante comum no mundo ocidental que tem um tremendo impacto negativo a nível financeiro e na qualidade de vida dos indivíduos. Esta, de momento, não apresenta cura e afeta cerca de 10% da população mundial. Infelizmente, pacientes com doença renal avançada provavelmente irão apresentar falência renal e, as únicas opções de tratamento nesta fase, são a diálise ou o transplante renal (Kalantar-Zadeh, et al., 2020; Neto, Souza, Romão, & Chiarello, 2017).

Apesar do objetivo da diálise ser prolongar a vida dos pacientes, cerca de 10% morrem nos primeiros 90 dias após início desta terapia e mais de 20% falecem um ano após início do tratamento (Kalantar-Zadeh, et al., 2020). Bem… Isto não é nada promissor, daí que mais importante que tratar deve-se prevenir o aparecimento de problemas renais!

Na Europa, Portugal é, a par da Turquia, o país com maior incidência de DRC. Os únicos dados publicados na literatura são relativos ao ano de 2008 onde houve uma incidência de 6,1% no país (República Portuguesa, 2017).

Uma complicação desta patologia é a acidose metabólica. Esta ocorre quando o pH do corpo e do sangue está abaixo dos valores de referência (pH de referência – 7,40 ± 0,02) (Neto, Souza, Romão, & Chiarello, 2017).

Os rins apresentam um papel fundamental no equilíbrio ácido-base do corpo, pois eliminam as toxinas e ácidos e reabsorvem componente básicos, tais como o bicarbonato. Quando os valores de bicarbonato no corpo são baixos pode ocorrer um agravamento da função dos rins, assim como uma degradação dos ossos, inflamação e desnutrição (Neto, Souza, Romão, & Chiarello, 2017).

Qual a relação entre equilíbrio ácido-base e alimentação?

O que comemos é muito importante neste equilíbrio, pois existem alimentos mais ácidos e outros mais básicos.

O “Potencial Renal Acid Load- PRAL” é um método que foi desenvolvido de forma a avaliar quais os alimentos que são mais ou menos ácidos. Alimentos mais básicos apresentam uma pontuação negativa, os neutros apresentam uma pontuação de 0 e os ácidos apresentam valores acima de 0. Assim, como podes observar na tabela abaixo, dentro dos mais básicos temos as frutas e os vegetais e dentro dos mais ácidos temos os alimentos de origem animal, tais como queijo, gema de ovos, peixe e carne (Adair & Bowden, 2020; Neto, Souza, Romão, & Chiarello, 2017).

 

Um estudo recente concluiu que o consumo de carne vermelha, ao longo do tempo, pode aumentar o risco de DRC, enquanto que o consumo de frutas e vegetais aparenta ter o efeito oposto (Kalantar-Zadeh, et al., 2020; Kamper & Strandgaard, 2017).

Uma outra investigação que analisou 3348 mulheres concluiu que a ingestão diária de 2 ou mais porções de carnes vermelhas ou processadas, aumentou em 50% o risco de microalbuminúria (esta consiste num aumento da quantidade de albumina na urina, o que é indicador de problema renal). Já a ingestão de proteína vegetal levou a uma redução deste risco (Lin, Hu, & Curhan, 2010).

6 anos após o estudo supracitado, autores demonstraram que a ingestão de carnes vermelhas e processadas aumentou o risco de problemas renais, enquanto que o consumo de frutos secos, laticínios magros e leguminosas reduziu este risco (Haring, et al., 2016).

Tal como uma vez disse, tu podes ter uma alimentação vegana saudável ou não saudável e isso, muito provavelmente vai influenciar a tua saúde! Segundo um estudo que teve uma duração de 23 anos, os indivíduos que aderiram a uma alimentação vegana saudável (caracterizada pelo consumo de frutas, legumes, frutos secos, cereais integrais, leguminosas, café e chá) reduziram os riscos de desenvolverem doença renal em 14%, enquanto que uma alimentação vegana não tão saudável (incluiu sumos de fruta, cereais refinados e doces) aumentou esses riscos em 11% (Kim, et al., 2019)!

E a proteína?

Tem-se vindo a demonstrar que a população ingere mais proteína que a recomendada, especialmente a proveniente de produtos animais. Apesar de dietas altas em proteína serem recomendadas no combate à obesidade e diabetes, a sua elevada ingestão está associada a uma deterioração dos rins (Kalantar-Zadeh, et al., 2020).

Hoje em dia a dieta cetónica (“ketogenic diet”) é bastante popular. Esta consiste numa dieta alta em gorduras e proteínas e baixa em hidratos de carbono. Apesar de alguns efeitos positivos imediatos face ao combate da Diabetes Tipo 2, este tipo de dieta ainda não demonstrou ser efetiva no controlo da quantidade de açucares no sangue e pode trazer problemas de saúde, incluindo patologias renais a longo prazo por serem, mais uma vez, dietas altas em proteína, sobretudo animal. Assim, este tipo de dieta não deve ser recomendado a indivíduos com problemas renais ou com elevado risco os desenvolver (Kalantar-Zadeh & Moore, 2019; Kalantar-Zadeh, et al., 2020).

Investigadores recomendam a ingestão de dietas baixas em proteína (<0,6-0,8g/kg/dia, ou seja entre 14-32g/dia) e, preferencialmente proteínas de origem vegetal, para controlo de patologias renais (Kalantar-Zadeh, et al., 2020).

Agora… haverá diferença entre proteína animal e vegetal?

Tal como discutido num dos artigos sobre Osteoporose (clica aqui), a proteína animal (rica em fósforo) vai causar uma acidificação do sangue e dos tecidos corporais. O cálcio, de forma a compensar, sai dos ossos para reduzir esta acidose.  Isto, a longo prazo pode levar ao enfraquecimento do esqueleto e  consequentes problemas de ossos. O mesmo não acontece quando se ingere proteína vegetal. (Abelow, Holford, & Insogna, 1992; Campbell & Campbell, 2016; Frassetto, Todd, R. Curtis Morris, & Sebastian, 2000; Neto, Souza, Romão, & Chiarello, 2017). A maioria do fósforo ingerido provém de fontes proteicas, laticínios, assim como se encontra presente em aditivos e preservantes. Note-se que é comum a presença de um aumento da quantidade de fósforo em pacientes com problemas renais (Moe, et al., 2011).

O leite, apesar de também apresentar fósforo, tem um valor ácido-base quase neuro, devido à sua quantidade de cálcio. Já as proteínas de origem vegetal apresentam fósforo na forma de fitatos que, por serem menos absorvidos pelo corpo, reduzem a quantidade de ácidos e de fósforo presentes no corpo aquando da sua digestão (Kalantar-Zadeh, et al., 2020; Neto, Souza, Romão, & Chiarello, 2017; Scialla, et al., 2012).

8 participantes numa investigação foram divididos em dois grupos para, durante 7 dias, ingerirem uma dieta com quantidades similares de calorias, proteína (vegetal ou animal) e fósforo.  Análises sanguíneas e de urina foram recolhidas antes e após 7 dias. 2-4 semanas após término da intervenção os participantes trocaram de grupos e o mesmo processo foi repetido (figura abaixo). Os resultados indicaram que a quantidade de fósforo no sangue e na urina foi menor aquando da ingestão de uma alimentação vegetariana (Moe, et al., 2011)..

Um estudo observacional concluiu que os participantes (todos com problemas renais) que ingeriram maiores quantidade de proteína de origem vegetal apresentaram melhores valores metabólicos, assim como o aumento dos níveis de bicarbonato no corpo. Note-se que um aumento de bicarbonato no sangue pode reduzir o risco de progressão de doenças de rins e a mortalidade associada a este problema. Um outro estudo concluiu que o aumento da ingestão de proteína vegetal reduziu a mortalidade em indivíduos com problemas renais (Scialla, et al., 2012).

Já uma meta-análise que incluiu 9 estudos randomizados concluiu que o consumo de proteína de soja reduziu, de forma significativa, a quantidade de fosfatos (são compostos que apresentam moléculas de fósforo) presentes no sangue dos participantes em comparação com a ingestão de proteína animal (Zhang, J Liu, & Tian, 2014).

Um aspeto a ter em conta!

Claro que é preciso ter em conta que os alimentos não apresentam nutrientes isolados. Ou seja, alimentos ricos em proteína vegetal, tais como cereais integrais, leguminosas, frutas, legumes e sementes apresentam outros componentes que podem trazer benefícios para a saúde tais como fibra e outros micronutrientes. Para além disto, frutas e vegetais são ricos em antioxidantes e apresentam propriedades anti-inflamatórias, o que também traz benefícios para a saúde. Da mesma forma, alimentos de origem animal apresentam colesterol e gorduras. Assim, a única maneira de realmente sabermos qual a melhor seria estudar a proteína animal e a vegetal de forma isolada (Kalantar-Zadeh, et al., 2020; Scialla, et al., 2012).

Idealmente, indivíduos com problemas renais crónicos deveriam de ter acesso a um nutricionista especializado neste tipo de patologias antes do início da diálise. Contudo, e infelizmente, isto não acontece e a grande maioria destes pacientes não tem qualquer tipo de informação sobre como a alimentação pode ajudar a controlar a progressão desta doença (Kalantar-Zadeh, et al., 2020).

Assim, a melhor forma de protegermos os nossos rins é através da ingestão de alimentos mais básicos, tais como frutas e legumes, baixos em proteína e, de preferência, devemos optar por alimentos de origem vegetal e excluir os de origem animal!

Bibliografia

  • Abelow, B. J., Holford, T. R., & Insogna, K. L. (1992). Cross-Cultural Association Between Dietary Animal Protein and Hip Fracture: A Hypothesis. Calcif Tissue Int, 50, 14-18.
  • Adair, K. E., & Bowden, R. G. (2020). Ameliorating Chronic Kidney Disease Using a Whole Food Plant-Based Diet. Nutrients, 12.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Frassetto, L. A., Todd, K. M., R. Curtis Morris, J., & Sebastian, A. (2000). Worldwide Incidence of Hip Fracture in Elderly Women: Relation to Consumption of Animal and Vegetable Foods. Journal of Gerontology, 55A(10), M585–M592.
  • Haring, B., Selvin, E., Liang, M., Coresh, J., Grams, M. E., Petruski-Ivleva, N., . . . Rebholz, C. M. (2016). Dietary Protein Sources and Risk for Incident Chronic Kidney Disease: Results From the Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC) Study. Journal of Renal Nutrition, 1-10.
  • Kalantar-Zadeh, K., & Moore, L. W. (2019). Does Kidney Longevity Mean Healthy Vegan Food and Less Meat or Is Any Low-Protein Diet Good Enough? J. Ren. Nutr, 29, 79-81.
  • Kalantar-Zadeh, K., Joshi, S., Schlueter, R., Cooke, J., Brown-Tortorici, A., Donnelly, M., . . . Malik, S. (2020). Plant-Dominant Low-Protein Diet for Conservative Management of Chronic Kidney Disease. Nutrients, 12.
  • Kamper, A.-L., & Strandgaard, S. (2017). Long-Term Effects of High-Protein Diets on Renal Function. Annu. Rev. Nutr, 37, 14.1–14.23.
  • Kim, H., Caulfield, L. E., Garcia-Larsen, V., Steffen, L. M., Grams, M. E., Coresh, J., & Rebholz, C. M. (May de 2019). Plant-Based Diets and Incident CKD and Kidney Function. CJASN ePress, 14.
  • Lin, J., Hu, F. B., & Curhan, G. C. (2010). Associations of Diet with Albuminuria and Kidney Function Decline. Clin J Am Soc Nephrol, 5, 836–843.
  • Moe, S. M., Zidehsarai, M. P., Chambers, M. A., Jackman, L. A., Radcliffe, J. S., Trevino, L. L., . . . Asplin, J. R. (2011). Vegetarian Compared with Meat Dietary Protein Source and Phosphorus Homeostasis in Chronic Kidney Disease . Clinical Journal of the American Society of Nephrology, 257-264.
  • Neto, L. R., Souza, G. C., Romão, E. A., & Chiarello, P. G. (2017). Alkaline Diet and Metabolic Acidosis: Practical Approaches to the Nutritional Management of Chronic Kidney Disease. Journal of Renal Nutrition, 1-6.
  • República Portuguesa. (2017). Rede Nacional de Especialidade Hospitalar e de Referenciação – NEFROLOGIA. Obtido de Sistema Nacional de Saúde: https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2017/06/RNEHR-Nefrologia-Aprovada-19-06-2017.pdf
  • Scialla, J. J., Appel, L. J., Wolf, M., Yang, w., Zhang, X., Sozio, S. M., . . . Townsend, R. R. (July de 2012). Plant Protein Intake Is Associated with Fibroblast Growth Factor 23 and Serum Bicarbonate in Patients with CKD: The Chronic Renal Insufficiency Cohort Study. J Ren Nutr, 22(4), 379–388.
  • Zhang, J., J Liu, J. S., & Tian, F. (2014). The effects of soy protein on chronic kidney disease: a meta-analysis of randomized controlled trials. European Journal of Clinical Nutrition, 68, 987–993.

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