Nas últimas duas semanas os artigos foram referentes a um grande problema renal: pedras nos rins. Assim, já se verificou que a proteína animal não ajuda (clica aqui) e que, alimentos à base de plantas, como frutas e vegetais, são protetores (clica aqui). Contudo, dentro do mundo vegetal, existem alguns alimentos que podem estar mais a teu favor que outros…. Vamos explorar!

Aproximadamente 80% das pedras dos rins apresentam cálcio e a maioria delas consiste em oxalatos de cálcio. Quantidades elevadas de oxalatos a serem eliminados na urina podem ter um papel importante no desenvolvimento destes cálculos renais. Assim, é importante saber de onde vêm os oxalatos e que alimentos devem ser ingeridos com maior precaução (Taylor & Curhan, 2007).

Uma das considerações mais importantes em providenciar aconselhamento diatético eficaz para prevenção deste problema é, primeiramente, perceber qual o conhecimento dos pacientes em relação à ligação entre hábitos alimentares e formação destas pedras (Marsh, et al., 2019). De forma a perceber qual o conhecimento do público face a este tema, foram entregues questionários a 753 indivíduos, sendo que 35% apresentaram história de pedras renais e desses 13.1% foram submetidos a procedimentos para as retirar. Engraçado que os resultados indicaram que os participantes com história de cálculos renais, quando comparados com os que não apresentaram este problema, eram os que menos acreditaram que este problema pode ser prevenido . Os autores deste estudo explicam que esta perceção pode-se dever à frustração desses indivíduos devido a possíveis taxa de recorrência e a um aconselhamento inadequado sobre medidas de prevenção. Para além disso, houve uma falta de conhecimento sobre que alimentos podem contribuir para o aparecimento deste problema (Marsh, et al., 2019).

Os oxalatos encontram-se em vários alimentos à base de plantas. Eles são produzidos pelo nosso corpo através da interação de aminoácidos e vitamina C e podemos ainda obtê-los através da ingestão de alimentos ricos neste composto. Este é eliminado exclusivamente pelos rins (ou seja através da urina) e quando existe em grandes quantidades neste órgão ou quando se associa ao cálcio pode originar cristais de oxalato de cálcio que, consequentemente, podem originar diversos problemas renais, podendo mesmo ocorrer falência renal (Getting, Gregoire, Phul, & Kasten, 2013; Makkapati, D’Agati, & Balsam, 2018).

Eis alguns exemplos de alimentos ricos em oxalatos (Oxalate.org, s.d.; St Joseph´s Healthcare Hamilton, 2016):

 

Nota: se quiseres ver outros exemplos de comidas altas/baixas em oxalatos clica nos seguintes links (estão em inglês):

https://oxalate.org/

https://www.stjoes.ca/patients-visitors/patient-education/patient-education-k-o/pd-9447-oxalate-in-food.pdf

De facto, uma mulher de 65 anos apresentou nefropatia aguda por oxalato após ingestão de um “smoothie” verde composto por 2 “cups” de espinafres (cerca de 1.3g de oxalatos/dia) durante 10 dias. Apesar de apresentar outras patologias como diabetes mellitus tipo 2, dislipidemia (aumento de gorduras no sangue) e ter feito um bypass gástrico em 2013 devido a excesso de peso, não tinha história clínica de problemas renais. Devido a esta situação teve de fazer diálise por mais de um ano (Makkapati, D’Agati, & Balsam, 2018).

Um outro caso de um indivíduo com 81 anos também a ingerir um “smoothie” composto por frutas e vegetais ricos em oxalatos a todas as refeições, apresentou falência renal induzida por excesso destes compostos. Em média ele estava a consumir cerca de 1260 mg/dia de oxalatos. Para além disso, estava a tomar 2g de suplementos de vitamina C há pelo menos 3 anos até ter este problema renal. Note-se que, tal como referido num artigo que publiquei anteriormente sobre a dose ideal de vitamina C, esta em excesso pode provocar pedras nos rins (clica aqui para saberes qual a dose ideal desta vitamina) (Getting, Gregoire, Phul, & Kasten, 2013).

Um estudo observacional demonstrou que mais de 40% dos oxalatos ingeridos pela população estudada era proveniente de espinafres. O consumo de espinafres aumentou ligeiramente o risco de desenvolver pedras nos rins, sobretudo em homens que ingeriam baixas quantidades de cálcio (Taylor & Curhan, 2007).

Também existem estudos de caso de indivíduos que apresentaram doença ou mesmo falência renal após ingestões elevadas de ruibarbo, amêndoas e cajus (Albersmeyer, et al., 2012; Bernardino & Parmar, 2017; Haaskjold, Drotningsvik, Leh, Marti, & Svarstad, 2015). Acrescenta-se ainda que o corpo absorve mais facilmente oxalatos presentes em água/sumos do que em alimentos sólidos (Makkapati, D’Agati, & Balsam, 2018).

Pode a forma como preparamos os alimentos influenciar a quantidade de oxalatos neles presentes?

Aparentemente, cozer vegetais ajuda a reduzir a quantidade de oxalatos, pois estes vão ser transferidos para a água de cozedura (Chai & Liebman, 2005).

Uma investigação analisou qual o impacto de diferentes métodos de cozedura na quantidade de oxalatos. Assim, beterrabas, brócolos, couve de bruxelas, cenouras, batatas, ruibarbo, talos, espinafres e acelgas vermelhas ou verdes foram cozidos tanto em ebulição como a vapor. Aquando da cozedura por ebulição, houve uma redução da quantidade de oxalatos entre 30-87%, sendo que os vegetais com maior perda foram os espinafres (87%) e acelgas vermelha (85%) e verde (84%). No geral, a cozedura a vapor não foi eficaz a eliminar a quantidade de oxalatos presentes nestes vegetais, com exceção das cenouras (42%) e acelgas verdes (36%) (Chai & Liebman, 2005).

Apesar dos espinafres, ruibarbos e acelgas terem sido os que mais oxalatos perderam, continuaram a apresentam quantidades elevadas destes compostos (podem ver os valores na tabela acima). Assim, os autores concluiram que indivíduos que apresentem pedras nos rins devem evitar a ingestão de estes alimentos mesmo se estes forem cozidos em ebulição (Chai & Liebman, 2005).

E o problema dos espinafres não são só os oxalatos!

A ingestão de cálcio e magnésio podem influenciar a absorção de oxalatos provenientes dos alimentos. De facto, o cálcio aparenta ser protetor face a esta doença renal e os oxalatos inibem a sua absorção (Taylor & Curhan, 2007; Weaver, Heaney, Nickel, & Pakard, 1997).

Contudo, apesar dos espinafres apresentarem grandes quantidades de cálcio (muito mais que um copo de leite), o facto de também serem grandes fontes de oxalatos vai diminuir a quantidade de cálcio absorvida pelo organismo. Apesar disto, existem outras fontes de cálcio que são absorvidas muito mais que o leite. Eis alguns exemplos: (Buzinaro, Almeida, & Mazeto, 2006).

Assim, é importante ter noção que, mesmo no mundo vegetal, tens alimentos que deves ingerir em quantidades moderadas e, tal como referido acima, se sofres de problemas renais é melhor evitares a ingestão de alimentos ricos em oxalatos!

Bibliografia

  • Albersmeyer, M., Hilge, R., Schröttle, A., Weiss, M., Sitter, T., & Vielhauer, V. (2012). Acute kidney injury after ingestion of rhubarb: secondary oxalate nephropathy in a patient with type 1 diabetes. BMC Nephrology, 13(141).
  • Bernardino, M., & Parmar, M. S. (13 de March de 2017). Oxalate nephropathy from cashew nut intake. CMAJ, 189(10), e405-e408.
  • Buzinaro, E. F., Almeida, R. N., & Mazeto, G. M. (2006). Biodisponibilidade do Cálcio Dietético. Arq Bras Endocrinol Metab, 50(5), 852-861.
  • Chai, W., & Liebman, M. (2005). Effect of Different Cooking Methods on Vegetable Oxalate Content. J. Agric. Food Chem., 53, 3027-3030.
  • Getting, J. E., Gregoire, J. R., Phul, A., & Kasten, M. J. (2013). Oxalate Nephropathy Due to ‘Juicing’: Case Report and Review. The American Journal of Medicine, 126, 768-772.
  • Haaskjold, Y. L., Drotningsvik, A., Leh, S., Marti, H.-P., & Svarstad, E. (2015). Renal Failure due to Excessive Intake of Almonds in the Absence of Oxalobacter formigenes. The American Journal of Medicine, 128(12), e29-e30.
  • Makkapati, S., D’Agati, V. D., & Balsam, L. (2018). “Green Smoothie Cleanse” Causing Acute Oxalate Nephropathy. AJKD, 71(2), 281-286.
  • Marsh, B. M., Sathianathen, N., Tejpaul, R., Albersheim-Carter, J., Bearrick, E., & Borofsky, M. S. (May de 2019). Public Perceptions on the Influence of Diet and Kidney Stone Formation. Journal of Endourology, 33(5), 423-429.
  • Oxalate.org. (s.d.). Oxalate (oxalic acid) content of 750+ foods, with numbers from university and government sources. Obtido de Oxalate.org: https://oxalate.org/
  • St Joseph´s Healthcare Hamilton. (May de 2016). Oxalate in Food. Obtido de https://www.stjoes.ca/patients-visitors/patient-education/patient-education-k-o/pd-9447-oxalate-in-food.pdf
  • Taylor, E. N., & Curhan, G. C. (2007). Oxalate Intake and the Risk for Nephrolithiasis. J Am Soc Nephrol, 18, 2198–2204.
  • Weaver, C., Heaney, R., Nickel, K., & Pakard, P. (1997). Calcium Bioavailability from High Oxalate Vegetables: Chinese Vegetables, Sweet Potatoes and Rhubarb. Journal of Food and Science, 62(3), 524-525.

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