A semana passada falou-se da relação entre o consumo de proteína animal e o aumento do risco de se desenvolver pedra nos rins. Assim o que podemos fazer para ajudar?

  1. Ingestão de fluídos

É de notar que a ingestão de fluidos é um dos fatores mais importantes na incidência deste problema renal. De facto para cada 200mL de fluídos bebidos por dia ocorre uma diminuição de 13% do risco de desenvolver esta patologia. Contudo, nem todos os líquidos ajudam (Ferraro, Bargagli, Trinchieri, & Gambaro, 2020). Refrigerantes gaseificados com adição de açúcar (normalmente frutose) não estão incluídos nesta categoria. De facto, a ingestão de frutose pode aumentar a excreção de cálcio, oxalato e ácido úrico. A ingestão de sumos de fruta (tais como uva e maçã) não aumenta o risco e a cafeína, assim como sumo de laranja e limonada, aparentam ser protetores (Ferraro, Bargagli, Trinchieri, & Gambaro, 2020).

  1. Ingestão de sódio

A ingestão de grandes quantidades de sódio (exemplo: sal) piora a tensão arterial e potencia problemas de coração. Tal como referido na tabela acima descrita, ingestões elevadas de sal estão associadas a um aumento da quantidade de cálcio expelida na urina (Ferraro, Bargagli, Trinchieri, & Gambaro, 2020).

A Organização Mundial de Saúde recomenda um consumo diário de 5g de sal (corresponde a 2g de sódio). Contudo, os portugueses consomem em média o dobro da quantidade recomendada (Seeger, et al., 2017; Sociedade Portuguesa de Hipertensão, s.d.).

250 participantes com pedras nos rins tiveram de adotar uma alimentação baixa em sódio e cálcio durante 7 dias. Desses, 169 apresentaram pedras de oxalato de cálcio mas só 131 foram incluídos nos resultados finais. No início e final do estudo foram recolhidas mostras de sangue e de urina. Verificou-se uma redução de 51% e 38% da quantidade de sódio e cálcio eliminados na urina no final do estudo (Seeger, et al., 2017).

250 participantes com pedras nos rins tiveram de adotar uma alimentação baixa em sódio e cálcio durante 7 dias. Desses, 169 apresentaram pedras de oxalato de cálcio mas só 131 foram incluídos nos resultados finais. No início e final do estudo foram recolhidas mostras de sangue e de urina. Verificou-se uma redução de 51% e 38% da quantidade de sódio e cálcio eliminados na urina no final do estudo (figura 1) (Seeger, et al., 2017).

Figura 1 Quantidade de sódio e cálcio eliminado pela urina antes e após alimentação baixa em sódio e cálcio (Seeger, et al., 2017)

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  1. Ingestão de cálcio

Durante muito tempo recomendou-se uma redução da ingestão de cálcio uma vez que a maioria das pedras eram compostas por este componente. Contudo, atualmente tem-se vindo a demonstrar que o consumo de alimentos ricos em cálcio reduz o risco de se desenvolver este problema de saúde (Hiatt, et al., 1996).

De facto, o consumo regular de alimentos ricos em cálcio, provenientes tanto de laticínios como de outros alimentos, aparenta ser protetor face a esta patologia. Contudo, o consumo de suplementos de cálcio não deve ser encorajado (Ticinesi, et al., 2020).

Apesar dos laticínios aparentarem ser protetores face a este problema renal, anteriormente já se verificou que o consumo de leite e derivados, por apresentar hormonas sexuais (clica aqui), pode contribuir para o aumento do acne (clica aqui), da osteoporose (clica aqui) e do risco de cancro da próstata (clica aqui). Assim, se calhar mais vale apostar em outros alimentos ricos em cálcio – clica aqui para alguns exemplos. Para mais informações sobre possíveis malefícios de suplementos de cálcio clica aqui.

  1. Outros alimentos para além da carne

A semana passada referiu-se que o aumento de proteína animal aumenta o risco de desenvolvimento de pedras nos rins (clica aqui).

Quando 14 voluntários saudáveis foram instruídos a ingerir durante 4 dias uma alimentação alta (92g/dia), normal (48g/dia) e baixa (1g/dia) em proteína animal e se analisou a quantidade de cálcio, oxalatos e ácido úrico expelido na urina, verificou-se uma maior quantidade destes compostos aquando ingestão de elevadas quantidades de proteína (figura 2) (ROBERTSON, et al., 1979).

Figura 2 Quantidade de cálcio, oxalato e ácido úrico eliminado na urina de 14 voluntários após alimentação alta (high), normal (N) e baixa (low) de proteína animal (ROBERTSON, et al., 1979).

Os resultados de um estudo piloto que incluiu 51.336 participantes demonstraram um aumento do risco de desenvolver cálculos renais aquando do consumo de carnes (vermelhas e de aves de capoeira) e aumento do consumo de zinco e uma redução deste aquando da ingestão de alimentos ricos em fibra proveniente de cereais integrais, magnésio e fruta (Turney, et al., 2014).

Uma outra investigação publicada em 2014 demonstrou que em mulheres sem história clínica de pedras nos rins o aumento do consumo de fibra (6-26% redução do risco), de fruta (12-25% redução do risco) e de vegetais (9-22% redução do risco), reduziu a incidência de formação de cálculos renais (Sorensen, et al., 2014).

Tal como referido na semana passada existem alimentos que promovem uma acidose renal (tais como as carnes) e outros que a reduzem (tais como frutas e vegetais). Isto pode ser medido pelo pH da urina que quanto mais ácida for, pior.

10 indivíduos saudáveis foram instruídos a ingerir 3 diferentes tipos de dieta, cada uma durante 5 dias: dieta típica do ocidente, dieta omnívora equilibrada e dieta vegetariana. Houve uma redução de 85% da probabilidade de cristalização do ácido úrico aquando da ingestão de uma dieta omnívora equilibrada, mas a dieta vegetariana apresentou melhores resultados pois houve uma redução de cristalização de 93% em comparação com a dieta típica do ocidente. O pH da urina dos participantes tornou-se mais básico quando uma dieta vegetariana foi adotada (Siener & Hesse, 2003).

Figura 3 Variação do pH da urina dos participantes aquando adoção de uma dieta típica do ocidente (WD -western diet) vs vegetariana (VD – vegetarian diet) (Siener & Hesse, 2003).

Assim, todos estes autores concluíram que os vegetarianos apresentam menor risco de desenvolver este problema renal em comparação com os indivíduos que comem carne (ROBERTSON, et al., 1979; Siener & Hesse, 2003; Sorensen, et al., 2014; Turney, et al., 2014).

De facto, nós conseguimos mesmo tratar as pedras nos rins com o que “metemos” à boca. Um senhor de 68 anos que apresentava pedras nos rins foi instruído a beber 2L de líquidos por dia, assim como a aumentar o consumo de frutas, vegetais e a cortar na proteína animal. Ao fim de 5 meses as pedras “foram-se” e o pH da urina passou de 5.0 para 7.0 (Chae, et al., 2013).

Figura 4 Tomografia computadorizada de indivíduo antes e após 5 meses de intervenção (Chae, et al., 2013).

Eu acho isto fantástico, honestamente. Muitas das vezes é sugerido às pessoas para removerem as pedras cirurgicamente. Contudo, se mantiveres os teus hábitos alimentares a probabilidade de desenvolveres este problema é grande. Assim, talvez a melhor alternativa de tratamento seja alterares o que pões no prato.

Contudo, existem alguns alimentos vegetais que necessitam de ser ingeridos com mais cuidado. Queres saber quais são? Fica atento ao artigo da próxima semana.

Nota: se gostaste to artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Chae, J. Y., Kim, J. W., Kim, J. W., Yoon, C. Y., Park, H. S., Moon, D. G., & Oh, M. M. (2013). Increased fluid intake and adequate dietary modification may be enough for the successful treatment of uric acid stone. Urolithiasis, 41, 179-182.
  • Ferraro, P. M., Bargagli, M., Trinchieri, A., & Gambaro, G. (2020). Risk of Kidney Stones: Influence of Dietary Factors, Dietary Patterns, and Vegetarian–Vegan Diets. Nutrients, 12(779).
  • Hiatt, R. A., Ettinger, B., Caan, B., Charles P. Quesenberry, J., Duncan, D., & Citron, J. T. (1996). Randomized Controlled Trial of a Low Animal Protein, High Fiber Diet in the Prevention of Recurrent Calcium Oxalate Kidney Stones. American Journal of Epidemiology, 144(1), 25-33.
  • ROBERTSON, W. G., PEACOCK, M., HEYBURN, P. J., HANES, F. A., RUTHERFORD, A., CLEMENTSON, E., . . . CLARK, P. B. (1979). Should Recurrent Calcium Oxalate Stone formers become Vegetarians? British Journal of Urology, 51, 427-431.
  • Seeger, H., Kaelin, A., Ferraro, P. M., Weber, D., Jaeger, P., Ambuehl, P., . . . Mohebbi, N. (2017). Changes in urinary risk profile after short-term low sodium and low calcium diet in recurrent Swiss kidney stone formers. BMC Nephrology, 18(349).
  • Siener, R., & Hesse, A. (2003). The effect of a vegetarian and different omnivorous diets on urinary risk factors for uric acid stone formation. Eur J Nutr, 42, 332-337.
  • Sociedade Portuguesa de Hipertensão. (s.d.). SAL E HIPERTENSÃO ARTERIAL. Obtido de https://www.sphta.org.pt/pt/base8_detail/25/105
  • Sorensen, M. D., Hsi, R. S., Chi, T., Shara, N., Wactawski-Wende, J., Kahn, A. J., . . . Stoller, M. L. (December de 2014). Dietary Intake of Fiber, Fruit, and Vegetables Decrease the Risk of Incident Kidney Stones in Women: A Women’s Health Initiative (WHI) Report. J Urol, 192(6), 1694–1699.
  • Ticinesi, A., Nouvenne, A., Chiussi, G., Castaldo, G., Guerra, A., & Meschi, T. (2020). Calcium Oxalate Nephrolithiasis and Gut Microbiota: Not just a Gut-Kidney Axis. A Nutritional Perspective. Nutrients, 12(548).
  • Turney, B. W., Appleby, P. N., Reynard, J. M., Noble, J. G., Key, T. J., & Allen, N. E. (2014). Diet and risk of kidney stones in the Oxford cohort of the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC). Eur J Epidemiol, 29, 363–369.

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