Confesso que quando leio ”pedra do rim” me arrepio toda. Dizem que é das piores dores que podes sentir na tua vida! Assim, o que causa estas pedras e o que podemos fazer em relação a isto?

Os rins têm um papel fundamental na regulação do equilíbrio ácido-base do nosso organismo. Em relação ao desenvolvimento de pedras, acredita-se que este problema renal apresenta uma incidência global de 2-3%, sendo esta a terceira patologia mais frequente do sistema geniturinário (apenas é ultrapassada pelas infeções urinarias e patologias da próstata) (Gomes, et al., 2005; Siener, 2018).

Segundo a informação presente no site da Associação Portuguesa de Urologia (APU), estas pedras resultam da aglomeração de cristais e formam-se devido a uma alteração metabólica crónica no organismo que leva ao aumento da excreção urinária de substâncias como cálcio, ácido úrico, oxalato e fosfato. A composição química destes cristais vai determinar o tipo de pedra formada. Estas podem ser pedras de oxalato de cálcio (são as mais frequentes, representando 60%), de oxalato de cálcio fosfato (20%), ácido úrico (8%), entre outros (Ramos, 2010).

Os sintomas incluem (Campbell & Campbell, 2016):

  • Náuseas e vómitos;
  • Incapacidade de encontrar uma posição que reduza a dor;
  • Dor intermitente na região lombar ou abdominal;
  • Urgência urinária;
  • Aumento da frequência urinária;
  • Urina com sangue;
  • Febre (que pode ser acompanhada de infeção).

Este problema renal apresenta uma taxa de recorrência elevada, sendo que cerca de 50% dos pacientes não tratados podem desenvolver novamente cálculos renais num período de 5 anos (Gomes, et al., 2005).

Está mais do que determinado que a alimentação adotada pelas pessoas é possivelmente um dos fatores cruciais no desenvolvimento desta patologia dolorosa, sendo o fator individual mais importante que afeta o equilíbrio ácido-base do organismo. Contudo, a predisposição genética também deve ser considerada (Ferraro, Bargagli, Trinchieri, & Gambaro, 2020; Siener, 2018).

Dentro dos pontos para prevenção presentes no site da APU quero destacar especialmente o seguinte (passo a citar) (Ramos, 2010):

  • Devem ingerir carnes (que deve ser magras) em quantidades moderadas, para reduzir a ingestão de proteínas;

Para mim, mais que ingerir em quantidades moderadas, a recomendação deveria de ser: “parar de ingerir carnes”.

Eis o porquê:

Proteína animal:

Não sei se leste o meu artigo sobre osteoporose (clica aqui). Neste ficámos a perceber que não é só o cálcio que é importante no desenvolvimento desta patologia. De facto, verificou-se que a proteína animal tem um papel fundamental no seu desenvolvimento (Abelow, Holford, & Insogna, 1992; Campbell & Campbell, 2016).

Mais se acrescenta que o aumento da ingestão de proteína animal promove uma acidose renal aumentando também a quantidade de cálcio presente na urina, sendo isto um fator de risco para a formação de cálculos nos rins (Campbell & Campbell, 2016; Hegsted, Schuette, Zemel, & Links, 1981; ROBERTSON, PEACOCK, & HODGKINSON, 1979; Sellmeyer, Stone, Sebastian, & R, 2001; Siener, 2018).

Eis alguns exemplos de alimentos que influenciam a acidose renal (Siener, 2018):

Números negativos indicam menor acidose renal, enquanto que os positivos indicam o oposto. Assim, verifica-se que alimentos de origem animal acidificam mais o organismo, enquanto que alimentos como frutas e vegetais, o melhoram.

O facto da proteína animal e do consumo de carne promoverem pedras nos rins não é novidade no mundo científico. Na verdade, uma publicação lançada em 1979 demonstrou que no Reino Unido houve um aumento da incidência de pedras nos rins aquando do aumento do consumo de carne, peixe e aves de capoeira entre 1958 e 1976 (ROBERTSON, PEACOCK, & HODGKINSON, 1979).

Figura 1
FIgura 2

Nessa altura, os mesmos autores realizaram um estudo com 6 participantes saudáveis e com uma duração de 12 dias. Nos primeiros 3 dias, os participantes tiveram que ingerir cerca de 50g/dia de proteína animal e a partir do quarto até ao último dia de estudo foram instruídos a acrescentar uma lata de atum à sua dieta, de forma a aumentar a ingestão de proteína em 34g. Foram-lhes retiradas todos os dias amostras de urina de forma a analisar o risco de formação de pedra no rim (ROBERTSON, HEYBURN, PEACOCK, HANES, & SWAMINATHAN, 1979)

Nos dias em que houve um aumento da ingestão de proteína animal verificou-se um aumento da quantidade de cálcio (23%), oxalato (24%) e ácido úrico (48%) libertados na urina dos participantes e o risco de formação de pedras aumentou drasticamente em 250% em apenas um par de dias (figura 2) (ROBERTSON, HEYBURN, PEACOCK, HANES, & SWAMINATHAN, 1979).

Este aumento de 34g/dia de proteína fez com que os indivíduos ingerissem entre 45-50g/dia de proteína. Como o consumo médio dos americanos é de 75-80g/dia, se esta pequena quantidade foi suficiente para aumentar o risco de desenvolver este problema renal, imagine-se o risco dos indivíduos que ingerem as mesmas quantidades que os americanos (ROBERTSON, HEYBURN, PEACOCK, HANES, & SWAMINATHAN, 1979)!

Que tipo de carnes faz pior?

A recomendação da APU acima referida reforça o consumo de carnes brancas (peixe incluído) face às vermelhas. Contudo, será que estas fazem bem?

15 Indivíduos saudáveis participaram num estudo composto por 3 fases, cada uma com duração de 1 semana (figura 3) (Tracy, et al., 2014).

Figura 3

Em cada fase todos eles tiveram de comer refeições com a mesma quantidade de calorias, sendo que a fonte de proteína variou em cada uma delas (bife, frango, peixe -salmão e bacalhau) e beber 3 litros de líquidos por dia. Foram realizadas análises urinárias no final de cada fase. Apesar de não ter havido diferenças no pH, sulfatos, cálcio, oxalatos e sódio nas 3 fases, na fase onde o peixe foi ingerido  verificou-se um aumentou nas quantidades de ácido úrico expelido na urina, muito mais do que na fase onde ingeriram bife e frango. Assim, os autores recomendam a redução do consumo de carnes bem como de peixe (Tracy, et al., 2014).

Assim, se a proteína animal aumenta o risco de pedra nos rins, o que é que pode ajudar? Isto será tratado para a semana!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Abelow, B. J., Holford, T. R., & Insogna, K. L. (1992). Cross-Cultural Association Between Dietary Animal Protein and Hip Fracture: A Hypothesis. Calcif Tissue Int, 50, 14-18.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Ferraro, P. M., Bargagli, M., Trinchieri, A., & Gambaro, G. (2020). Risk of Kidney Stones: Influence of Dietary Factors, Dietary Patterns, and Vegetarian–Vegan Diets. Nutrients, 12(779).
  • Gomes, P. N., Cabrita, M., Rodrigues, M., Vega, P., Coutinho, A., Rosa, G., & Neves, J. (2005). Profilaxia da litíase renal. Acta Urológica, 22(3), 47-56.
  • Hegsted, M., Schuette, S. A., Zemel, M. B., & Links, H. M. (1981). Urinary Calcium and Calcium Balance in Young Men as Affected by Level of Protein and Phosphorus Intake. J. Nutr, 111, 553-562.
  • Ramos, J. M. (Janeiro de 2010). Litíase Urinária – Prevenção e Tratamento. Obtido de Associação Portuguesa de Urologia: https://www.apurologia.pt/publico/frameset.htm?https://www.apurologia.pt/publico/litiase_urinaria_prevencao_tratamento.htm
  • ROBERTSON, W. G., HEYBURN, P. J., PEACOCK, M., HANES, F. A., & SWAMINATHAN, R. (1979). The effect of high animal protein intake on the risk of calcium stone-formation in the urinary tract. Clinical Science, 57, 285-288.
  • ROBERTSON, W. G., PEACOCK, M. .., & HODGKINSON, A. (1979). DIETARY CHANGES AND THE INCIDENCE OF URINARY CALCULI IN THE U.K. BETWEEN 1958 AND 1976. J Chron Dis, 32, 469-476.
  • Sellmeyer, D. E., Stone, K. L., Sebastian, A., & R, S. (2001). A high ratio of dietary animal to vegetable protein increases the rate of bone loss and the risk of fracture in postmenopausal women. Am J Clin Nutr, 73, 118-22.
  • Siener, R. (2018). Dietary Treatment of Metabolic Acidosis in Chronic Kidney Disease. Nutrients, 10(512).
  • Tracy, C. R., Best, S., Bagrodia, A., Poindexter, J. R., Adams-Huet, B., Sakhaee, K., . . . Pearle, M. S. (2014). Animal Protein and the Risk of Kidney Stones: A Comparative Metabolic Study of Animal Protein Sources. The Journal of Urology, 192, 137-141.

 

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