Até agora nunca engravidei, por isso obviamente que não falo por experiência própria, mas apesar da gravidez ser uma fase muito importante para as futuras mães, acredito que seja também uma altura de muito stress. A alteração que o corpo vai sofrendo, as alterações hormonais e todos aqueles maravilhosos sintomas de enjoos, náuseas e indisposição matinal irão resultar num final feliz. De facto, cerca de 60-80% das mulheres apresentam estes sintomas na primeira metade da gravidez (Sharifzadeh, et al., 2018). Alguns fatores de risco incluem idade jovem, primeira gravidez, ser-se não-fumador (por incrível que pareça) e obesidade (Sridharan & Sivaramakrishnan, 2018).

É interessante que apesar de estes sintomas não serem prazerosos e em 35% dos casos causarem grandes impactos negativos na vida diária, social e familiar,  estão associados a menores riscos de aborto. Apesar de não se saber exatamente o porquê destes sintomas, estes aparentam estar relacionados mais com a placenta do que com o feto em si (Sharifzadeh, et al., 2018).

Vários são os tratamentos farmacológicos e diatéticos propostos para controlo destes sintomas, tais como ingestão de camomila, óleo de limão ou menta, Vitamina B6, anti-histamínicos, corticóides, antieméticos (medicamentos para controlo de vómitos), medicamentos à base de plantas e gengibre. De facto, tanto este último como a vitamina B6 são efetivos e seguros para controlo de náuseas e vómitos associados à gravidez (NVG). Mas qual a melhor (Sharifzadeh, et al., 2018; Sridharan & Sivaramakrishnan, 2018)?.

Um estudo que incluiu 77 participantes com 6-16 semanas da gravidez, dividiu-as em 3 grupos, onde tiveram de ingerir durante 4 dias, 2 cápsulas compostas por (Sharifzadeh, et al., 2018):

  1. Gengibre: 500mg;
  2. Vitamina B6: 40mg;
  3. Placebo.

A intensidade das náuseas associadas à gravidez (NAG) foi avaliada através de um questionário que foi realizado 24 horas antes do início e após 4 dias de estudo. Tanto o grupo que tomou gengibre como o que tomou vitamina reduziram a severidade das NAG e, apesar de o primeiro ter sido mais efetivo na redução da intensidade destes sintomas, estas diferenças não foram estatisticamente significativas (Sharifzadeh, et al., 2018).

O gengibre e a vitamina B6, quando comparados com outros tipos de tratamento, tais como acupuntura, a ingestão de camomila, marmelos e alguns antieméticos, foram os que apresentaram melhores resultados no controlo dos vómitos e menores efeitos secundários. Contudo, os autores desta meta-análise verificaram que o gengibre poderá, de todos estes tratamentos, ser o mais eficaz (Sridharan & Sivaramakrishnan, 2018).

E se falarmos agora de outro tipo de náuseas?

Náuseas e vómitos pós- operatórios (NVPO) são efeitos secundários associados a anestesias gerais e acontecem após quase todas as cirurgias. De facto, muitas vezes os pacientes acham estes sintomas muito mais angustiantes que a própria dor pós-operatória. Podem surgir complicações secundárias associadas a NVPO tais como pneumonias, abertura dos pontos, hérnias gástricas, desidratação e fadiga, aumentando o tempo de recuperação e os custos dos cuidados de saúde. Podem ser utilizados vários medicamentos para controlo deste problema. Contudo, o seu uso é limitado devido aos seus efeitos secundários (Tótha, et al., 2018).

Crê-se que o gengibre pode mais uma vez ajudar (afinal, se ajuda na gravidez porque não haveria de ajudar após operações?). De facto, o gengibre poderá ser capaz de reduzir a severidade das NVPO quando administrado em doses superiores a 1g/dia. A sua eficácia depende da dose ingerida ou seja, quanto maiores quantidades forem ingeridas, melhores os resultados (Tótha, et al., 2018).

Contudo, um estudo realizado em 2018 demonstrou efeitos positivos em doses inferiores a 1g/dia. 150 participantes foram igualmente divididos em dois grupos: gengibre (2 cápsulas de 250 mg) e placebo (mesma quantidade de cápsulas mas sem conteúdo terapêutico). Tomaram esta medicação 1 hora antes de realizaram uma laparoscopia (remoção da vesícula biliar). A severidade das náuseas e o número de episódios por vómito foram controlados 2,4,6 e 12 horas após a cirurgia (Bameshki, et al., 2018).

A severidade das náuseas foi sempre inferior no grupo do gengibre, mas esta foi estatisticamente significativa nas 2-12 horas pós cirurgia. O mesmo se sucedeu face à quantidade de vómitos – figura 1 (Bameshki, et al., 2018).

Figura 1 Diferenças da severidade das náuseas após laparoscopia entre grupo do gengibre e controlo (Bameshki, et al., 2018).

Até mesmo náuseas e vómitos associados a quimioterapia (NVAQ), que são um dos piores efeitos secundários deste tipo de tratamento, podem ser atenuadas através do consumo desta especiaria. Para além do desconforto que provoca, as NVAQ, que ocorrem em 60-80% dos pacientes submetidos a este tratamento, podem causar fadiga, ansiedade, depressão, desnutrição, influenciar o sistema imunitário e levar à necessidade de se ter de reduzir a dose de tratamento, o que pode ter um impacto negativo nas taxas de sucesso e na qualidade de vida dos indivíduos (Crichton, Marshall, Marx, McCarthy, & Isenring, 2019; Totmaj, Emamat, Jarrahi, & Zarrati, 2019).

De facto, uma revisão sistemática e meta-análise que incluiu 18 artigos científicos demonstrou uma redução de 60% da probabilidade de vómitos aquando da toma de ≤1g/dia de gengibre durante 3 ou mais dias após início da quimioterapia e uma redução de 80% da probabilidade de fadiga aquando da toma de qualquer dose durante pelo menos 3 dias (Crichton, Marshall, Marx, McCarthy, & Isenring, 2019).

Considero fantástico o facto de uma especiaria pode ajudar em tantos problemas ao mesmo tempo! Ajuda na artrite (clica aqui), nas dores menstruais (clica aqui), nas náuseas e nos vómitos. Assim, acho que não há razão nenhuma para esta não ser utilizada no nosso dia-a-dia!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Bameshki, A., Namaiee, M. H., Jangjoo, A., Dadgarmoghaddam, M., Ghalibaf, M. H., & Sheybani, A. G. (February de 2018). Effect of oral ginger on prevention of nausea and vomiting after laparoscopic cholecystectomy: a double-blind, randomized, placebo-controlled trial. Electronic Physician, 10(2), 6354-6362.
  • Crichton, M., Marshall, S., Marx, W., McCarthy, A. L., & Isenring, E. (Dec de 2019). Efficacy of Ginger (Zingiber officinale) in Ameliorating Chemotherapy-Induced Nausea and Vomiting and Chemotherapy- Related Outcomes: A Systematic Review Update and Meta-Analysis. JOURNAL OF THE ACADEMY OF NUTRITION AND DIETETICS, 119(12), 2055-2068.
  • Sharifzadeh, F., Kashanian, M., Kouhpayehzadeh, J., Rezaian, F., Sheikhansari, N., & Eshraghi, N. (October de 2018). A comparison between the effects of ginger, pyridoxine (vitamin B6) and placebo for the treatment of the first trimester nausea and vomiting of pregnancy (NVP). The Journal of Maternal-Fetal & Neonatal Medicine, 31(19), 2509-2514.
  • Sridharan, K., & Sivaramakrishnan, G. (Nov de 2018). Interventions for treating nausea and vomiting in pregnancy: A network meta-analysis and trial sequential analysis of randomized clinical trials. Expert Review of Clinical Pharmacology, 11(11), 1143-1150.
  • Tótha, B., Lantos, T., Hegyi, P., Viola, R., Vasas, A., Benkő, R., . . . Szentesi, A. (2018). Ginger (Zingiber officinale): An alternative for the prevention of postoperative nausea and vomiting. A meta-analysis. Phytomedicine, 50, 8-18.
  • Totmaj, A. S., Emamat, H., Jarrahi, F., & Zarrati, M. (2019). The effect of ginger (Zingiber officinale) on chemotherapy- induced nausea and vomiting in breast cancer patients: A systematic literature review of randomized controlled trials. Phytotherapy Research, 1-9.

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