Considero-me uma mulher com muita sorte!

Lembro-me perfeitamente que quando andava no ensino básico e a maioria das minhas amigas já tinha o período e eu não. Naquela altura sentia-me triste, pois todas elas falavam dos pensos, das dores, etc e eu ali sem me poder manifestar ou pronunciar sobre o assunto. Lembro-me que quando tive a minha primeira menstruação  estava radiante! Até a minha irmã mais velha veio com a conversa de que “Agora já és uma mulher!”.

Sou uma mulher com sorte porque nunca sofri muito de dores menstruais. De vez em quando uma dorzita ou outra mas facilmente passa. Contudo, lembro-me perfeitamente de ter amigas da escola que tinham dores severas chegando mesmo a faltar às aulas devido a isso.

Haverá formas de reduzirmos estas dores horríveis que muitas de nós, mulheres, sofremos?

A dismenorreia (dores menstruais) é um dos problemas ginecológicos mais frequentes, afetando mais de metade das mulheres menstruadas. Cerca de 45-94.4% apresentam este problema, sendo que 10% apresentam dores menstruais severas, vendo-se obrigadas a restringir as suas atividades diárias nos primeiros 3-4 dias da menstruação. Os sintomas começam normalmente no início do período e permanecem por alguns dias (normalmente entre as primeiras 48-72 horas) e incluem dor que pode irradiar para a zona abdominal inferior, região lombar e entre as coxas (Daily, Zhang, Kim, & Sunmin Park, 2015; Jenabi, 2013; Ozgoli, Goli, & Moattar, 2009).

Ela é a causa de muitas visitas médicas e absentismo, afetando aspetos pessoais, sociais, desportivos e económicos na vida das mulheres. É estimado que dores menstruais fortes são a causa de cerca de 600 milhões de horas de trabalho perdidas e 2 biliões de dólares (aproximadamente 1.8 biliões de euros) perdidos anualmente por falta de produtibilidade (Jenabi, 2013; Ozgoli, Goli, & Moattar, 2009).

Apesar da sua causa não ser totalmente percebida, os sintomas estão geralmente associados ao aumento da produção de prostaglandinas (sinais químicos idênticos a hormonas que se encontram presentes nas células) no endométrio que promovem contrações uterinas excessivas originando dor. De facto, tem-se demonstrado que o sangue menstrual de mulheres que sofrem de dismenorreia apresenta maiores quantidades de prostaglandinas (Jenabi, 2013; Ozgoli, Goli, & Moattar, 2009).

Anti-inflamatórios não esteroides (AINE´s) como iboprufeno, naproxeno, aspirina e ácido mefenâmico são utilizados como primeira linha de tratamento, pois ajudam a inibir a produção de prostaglandinas. Contudo, tal como referido na semana passada, apresentam efeitos secundários particularment a nível do sistema digestivo que acho que ninguém vai querer experienciar – clica aqui para leres o artigo. Acrescenta-se ainda que a taxa de insucesso destas terapias varia entre 20-25% (Ozgoli, Goli, & Moattar, 2009; Rahnama, Montazeri, Huseini, Kianbakht, & Naseri4, 2012).

Assim, é necessário encontrar outras soluções para este problema!

O gengibre é uma especiaria que é utilizada há mais de 2500 anos na medicina chinesa. Apresenta várias propriedades entre as quais anti-inflamatórias. Acrescenta-se que é um produto seguro pois não causa efeitos secundários severos nem interage com outras medicações. Alguns dos seus componentes, como o gingerol e as gingerdiones potenciam a inibição das prostaglandinas. Assim, tem-se sugerido que a sua ingestão pode ajudar a controlar as dores menstruais (Ozgoli, Goli, & Moattar, 2009).

Uma investigação denominada “The effect of ginger for relieving of primary dysmenorrhoea” dividiu 69 mulheres em dois grupos (gengibre vs placebo) onde tiveram de ingerir 3 cápsulas diárias nos primeiros 3 dias de menstruação. A severidade da dor (quantificada através de uma escala de 0 a 10) foi analisada e no início e final da menstruação. Eis os resultados:

Figura 1 Diferenças da intensidade da dor antes e após tratamento com cápsulas de gengibre vs placebo (Jenabi, 2013).

A severidade da dor foi muito menor no grupo do gengibre. Neste, 29 participantes reportaram melhorias em comparação com 16 do grupo placebo (Jenabi, 2013).

De facto, uma meta-análise concluiu que a ingestão de 0.75-2g de gengibre em pó durante os primeiros 3-4 dias da menstruação ajuda a reduzir os sintomas de dismenorreia (Daily, Zhang, Kim, & Sunmin Park, 2015).

Será que o gengibre pode ajudar também na duração da dor?

Parece que sim!

Os resultados de uma investigação demonstraram que as participantes que ingeriram gengibre (1.5g/ dia – note-se que uma colher de chá corresponde a 4.2g) 2 dias antes da data prevista da menstruação e nos 3 primeiros dias do período menstrual, não só tiveram uma diminuição da intensidade da dor, como também da sua duração. Olhando para a figura 2, verifica-se que no início do estudo as participantes apresentaram cerca de 19horas de dores menstruais e esta duração foi reduzida para cerca de 15 horas no grupo do gengibre. Já o do placebo apresentou maior duração do período de dor (Rahnama, Montazeri, Huseini, Kianbakht, & Naseri4, 2012).

Figura 2 Variaçao da intensidade e duração das dores menstruais entre grupo gengibre vs placebo (Rahnama, Montazeri, Huseini, Kianbakht, & Naseri4, 2012).

Gengibre vs AINE’s:

Na semana passada o gengibre “ganhou” ao iboprufeno em relação a patologias como osteoartrose do joelho. Será que também ganha em relação à dismenorreia?

150 participantes foram divididas em 3 grupos e todas tiveram de ingerir cápsulas 4 vezes por dia durante os 3 primeiros dias da menstruação. As cápsulas, similares em cor e forma, eram compostas por (Ozgoli, Goli, & Moattar, 2009):

  • Grupo 1: 250 mg gengibre;
  • Grupo 2: 250 mg de ácido mefenâmico;
  • Grupo 3: 400mg iboprufeno.

A severidade da dor foi analisada no início e fim da menstruação. Não houve diferenças significativas entre medicamentos e gengibre, o que indica que este último foi tão eficaz na redução da dor como os AINE´s utilizados neste estudo (Ozgoli, Goli, & Moattar, 2009).

O Novalfem é um analgésico forte que também pode ser prescrito para controlo deste tipo de dores. Contudo, os resultados de um estudo também demonstraram que houve uma redução da intensidade da dor ligeiramente maior no grupo que ingeriu cápsulas de gengibre vs Novafem. Contudo, estes resultados não foram estatisticamente significativos (Rad, et al., 2018).

Apesar de outros componentes alimentares como Vitaminas D e E também ajudarem na redução destas dores horríveis, o gengibre, quando comparado com estas vitaminas continua a ser o que mais ajuda na redução da intensidade da dor – figura 3 (Pakniat, Chegini, Ranjkesh, & Hosseini3, 2019)!

Figura 3 Diferenças da intensidade da dor durante 3 ciclos menstruais em participantes a ingerir vitaminas D e E, gengibre e grupo placebo (Pakniat, Chegini, Ranjkesh, & Hosseini3, 2019).

Assim sendo, se sofres de dores menstruais, toca a ingerir gengibre uns diazitos antes e nos 3 primeiros dias da menstruação!

NotaÇ se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Daily, J. W., Zhang, X., Kim, D. S., & Sunmin Park. (2015). Efficacy of Ginger for Alleviating the Symptoms of Primary Dysmenorrhea: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Clinical Trials. Pain Medicine, 16, 2243–2255.
  • Jenabi, E. (January de 2013). The effect of ginger for relieving of primary dysmenorrhoea. J Pak Med Assoc, 63(1), 8-10.
  • Ozgoli, G., Goli, M., & Moattar, F. (2009). Comparison of Effects of Ginger, Mefenamic Acid, and Ibuprofen on Pain in Women with Primary Dysmenorrhea. THE JOURNAL OF ALTERNATIVE AND COMPLEMENTARY MEDICINE, 15(2), 129-132.
  • Pakniat, H., Chegini, V., Ranjkesh, F., & Hosseini3, M. A. (2019). Comparison of the effect of vitamin E, vitamin D and ginger on the severity of primary dysmenorrhea: a single-blind clinical trial. Obstet Gynecol Sci, 62(6), 462-468.
  • Rad, H. A., Basirat, Z., Bakouei, F., Moghadamnia, A. A., Khafri, S., Kotenaei, Z. F., . . . Kazemi, S. (2018). Effect of Ginger and Novafen on menstrual pain: A cross-over trial. Taiwanese Journal of Obstetrics & Gynecology(57), 806-809.
  • Rahnama, P., Montazeri, A., Huseini, H. F., Kianbakht, S., & Naseri4, M. (2012). Effect of Zingiber officinale R. rhizomes (ginger) on pain relief in primary dysmenorrhea: a placebo randomized trial. BMC Complementary and Alternative Medicine, 12(92).

 

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