A osteoartrose é uma patologia articular caracterizada pela degeneração da cartilagem, dor e inflamação, restringindo a mobilidade dos indivíduos e aumentando a sua incapacidade. Afeta cerca de 5-10% da população total, sendo mais frequente em indivíduos com idades superiores a 60 anos e do sexo feminino (Mozaffari-Khosravia, Naderia, Dehghanc, Nadjarzadeha, & Huseini, 2016).

De todas as articulações a que é mais frequentemente afetada é o joelho (Mozaffari-Khosravia, Naderia, Dehghanc, Nadjarzadeha, & Huseini, 2016).

A osteoartrose dos joelhos é uma patologia crónica bastante frequente que muitas vezes causa dor ao andar, ao levantar e a subir/descer escadas, levando a limitações funcionais e incapacidade (Altman & Marcussen, 2001; Tosun, et al., 2017).

Alguns fatores de risco incluem a idade, o peso e IMC, a predisposição genética, atividades ocupacionais, traumas e atividades físicas, especialmente ajoelhar, agachar e praticar escalada (Mozaffari-Khosravia, Naderia, Dehghanc, Nadjarzadeha, & Huseini, 2016)

De momento o seu tratamento é mais direcionado aos sintomas que o paciente apresenta e inclui uma combinação de medicamentos para reduzir a dor (analgésicos) e a inflamação (anti-inflamatórios), programas intra-articulares e fisioterapia. Se estes não ajudarem, intervenções cirúrgicas, tais como colocação de uma prótese podem ser indicadas (Altman & Marcussen, 2001; Tosun, et al., 2017; Naderi, Mozaffari-Khosravi, Dehghan, Nadjarzadeh, & Huseini, 2015).

Dentro dos efeitos secundários presentes nos anti-inflamatórios não esteroides (AINE’s) como por exemplo iboprufeno e naproxeno podem surgir sintomas gastrointestinais tais como dor abdominal, náusea, azia e, em casos mais sérios, podem mesmo ocorrer sangramentos e perfurações como úlceras do sistema digestivo, que ocorrem sem aviso prévio e podem ser fatais. De facto, cerca de 10-12% dos pacientes que tomam este tipo de medicação apresentam indigestão. Toxicidade dos rins, aumento da tensão arterial e trombose (entupimento de veias por placa aterosclerótica) também pode surgir aquando da toma deste tipo de medicamentos (Altman & Marcussen, 2001; Haghighi, Khalvat, Toliat, & Jallaei, 2005; Mozaffari-Khosravia, Naderia, Dehghanc, Nadjarzadeha, & Huseini, 2016).

Acrescenta-se ainda que estudos “in vitro” têm demonstrado que o naproxeno e o iboprufeno que são os AINE´s mais prescritos, bloqueiam a formação de cartilagem, contribuindo para uma maior degeneração da articulação (Naderi, Mozaffari-Khosravi, Dehghan, Nadjarzadeh, & Huseini, 2015). Assim, é importante saber se existem outras formas de controlar os seus sintomas, que não sejam caras e tóxicas e que sejam naturais, de preferência sem efeitos secundários.

O gengibre é uma especiaria bastante popular a nível mundial, com cerca de 100.000 de toneladas produzidas por ano. Este é utilizado há mais de 2500 anos na medicina chinesa como um agente anti-inflamatório no tratamento de problemas músculo-esqueléticos, mas também noutras patologias como diabetes, náuseas e dores de cabeça fortes (Altman & Marcussen, 2001; Sahardi & Makpol, 2019).

Esta especiaria apresenta vários componentes bioativos sendo os principais o gingerol e shogaol. Contudo, é a combinação de todos eles que faz com que o gengibre apresente propriedades antibacterianas, anticancerígenas, anti-inflamatórias, antidiabéticas, antioxidantes, gastro e neuroprotetivas (Sahardi & Makpol, 2019).

(Engraçado que quando era mais nova nunca liguei à possibilidade dos alimentos poderem influenciar a nossa saúde. De facto, quando a minha avó sugeria chá de limão e gengibre para a garganta eu tomava-o só para lhe fazer o favor. O meu pensamento era “para quê tomar chá se existem medicamentos?”. Olhando para trás e após ler imensos artigos para escrever todos os já publicados é que me apercebo o quão ignorante era…Vivendo e aprendendo não é? Bem, mas voltando ao gengibre) …

Pode o gengibre ajudar na redução dos sintomas de artrite?

Um estudo de 6 semanas realizado em 2001 comparou os resultados da toma de 2 cápsulas diárias de extrato de gengibre e galanga vs cápsulas placebo compostas por óleo de coco na dor durante o levantar, em pacientes com artrite do joelho. No final do estudo, o primeiro grupo teve melhores resultados (houve uma redução da dor de 63% em comparação com o grupo controlo que foi de apenas 50%). Acrescenta-se ainda que ao fim de 6 semanas o efeito placebo foi perdendo eficácia, enquanto que o do gengibre continuou a melhorar (Altman & Marcussen, 2001)..

Figura 1 Dor no joelho ao levantar, avaliada através da 100-mm escala analógica visual após 2 e 6 semanas de estudo em pacientes com artrite de joelho (Altman & Marcussen, 2001).

Os resultados de uma meta-analise, onde 5 estudos científicos foram analisados, também foram a favor desta especiaria. De facto, a ingestão de gengibre ajudou bastante na redução da dor e incapacidade dos participantes em comparação com os grupos placebo. Quem ingeriu este alimento tinha o dobro da probabilidade de descontinuar o tratamento. Acrescenta-se ainda que este é um alimento seguro no tratamento da artrite de joelho (Bartels, et al., 2014).

Quando ocorre uma inflamação/infeção, existem certos mediadores químicos (citoquinas pró-inflamatórias) na nossa corrente sanguínea. É devido a isto que, por exemplo, análises sanguíneas podem confirmar a presença de uma doença reumática como artrite reumatóide. Alguns exemplos desses mediadores são a proteína C-reativa (PCR), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), interleucina 1 beta (IL-1β) e ácido nítrico (Mozaffari-Khosravia, Naderia, Dehghanc, Nadjarzadeha, & Huseini, 2016; Naderi, Mozaffari-Khosravi, Dehghan, Nadjarzadeh, & Huseini, 2015).

Participantes de uma investigação randomizada cega foram divididos em 2 grupos: 1 a receber suplemento de gengibre e outro como grupo placebo. Ambos tiveram de, durante 3 meses, tomar 1 cápsula de 500mg (1g/dia) de gengibre ou amido duas vezes ao dia. Nenhum dos participantes sabia que tipo de cápsula estava a ingerir. Ambos os grupos foram examinados tendo sido recolhidas amostras de sangue no início e no final do estudo (Mozaffari-Khosravia, Naderia, Dehghanc, Nadjarzadeha, & Huseini, 2016; Naderi, Mozaffari-Khosravi, Dehghan, Nadjarzadeh, & Huseini, 2015).

Ao fim de 3 meses houve uma redução mais acentuada dos mediadores TNF-α e IL-1β, PCR e ácido nítrico no grupo que consumiu gengibre o que indica que houve uma redução da inflamação (Mozaffari-Khosravia, Naderia, Dehghanc, Nadjarzadeha, & Huseini, 2016; Naderi, Mozaffari-Khosravi, Dehghan, Nadjarzadeh, & Huseini, 2015).

Gengibre contra iboprufeno: quem ganha?

Tal como discutido acima, os AINE´s, tais como o iboprufeno, causam efeitos secundários gastrointestinais. De facto, um estudo realizou endoscopias a 16 participantes com osteoartrose que estavam a tomar este medicamento e 75% deles apresentaram lesões intestinais, sendo que 7 apresentaram lesões graves das paredes deste órgão. Devido a isto, muitas vezes são prescritos outros medicamentos (exemplo: protetores gástricos) para bloquear a produção de ácidos do estômago, de forma a evitar estas lesões (Bello, Kent, Grahn, Rice, & Holt, 2015; Caunedo-Álvarez, et al., 2010).

Esta junção até parece ser boa ideia, mas… os protetores gástricos também apresentam efeitos secundários, tais como: aumento do risco de fraturas, infeções, pólipos no estômago, lúpus eritematoso cutâneo subagudo e insuficiência renal (Centro de Informação do medicamento e Produtos de Saúde, 2017; Clarrett & Hachem, 2018).

Já o gengibre, para além de não causar nenhum efeito gastrointestinal adverso, aparentemente protege a mucosa gastrointestinal, sendo por isso um alimento seguro (Drozdov, Kim, Tkachenko, & Varvanina, 2012)!

120 Participantes com artrite foram divididos em 3 grupos, cada um com 40 indivíduos (Haghighi, Khalvat, Toliat, & Jallaei, 2005):

  • Grupo a tomar gengibre: ingestão de 2 cápsulas de 500mg com 30mg de gengibre;
  • Grupo Placebo: ingestão de 2 cápsulas de 500mg sem efeito terapêutico;
  • Grupo a tomar Iboprufeno: ingestão de 3 cápsulas de 400 mg.

Ao fim de 1 mês, os primeiro e terceiro grupos tiveram melhorias a nível da dor em comparação com o segundo. Contudo, não houve diferenças significativas ente esses dois primeiros grupos, indicando que o gengibre foi tão eficaz como o anti-inflamatório. A melhor parte é que não causa os efeitos secundários bastante associados aos anti-inflamatórios (Haghighi, Khalvat, Toliat, & Jallaei, 2005).

Assim sendo, mais vale apostar no gengibre pois é mais seguro!

E se em vez de o ingerirmos, colocarmos uma pomada à base de gengibre, também resulta?

Aparentemente, massajar o joelho com óleo de gengibre durante pelo menos 5 semanas como técnica coadjuvante das recomendações e do tratamento típicos para esta patologia também ajuda na redução da dor, reduzindo a incapacidade dos indivíduos com osteoartrose do joelho (Tosun, et al., 2017).

Assim, de que estás à espera? Se sofres de osteoartrose, começa a utilizar gengibre nos teus cozinhados! Eu gosto de pôr um bocadinho de gengibre no café, utilizo-o em todas as minhas sopas e vegetais e adoro beber chá de limão e gengibre!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Altman, R. D., & Marcussen, K. C. (2001). Effects of a Ginger Extract on Knee Pain in Patients With Osteoarthritis. ARTHRITIS & RHEUMATISM, 44(11), 2531–2538.
  • Bartels, E., Folmer, V., Bliddal, H., Altman, R., Juhl, C., Tarp, S., & Zhang, W. (2014). Efficacy and safety of ginger in osteoarthritis patients: a meta-analysis of randomized placebo-controlled trials. Osteoarthritis and Cartilage, 1-9.
  • Bello, A. E., Kent, J. D., Grahn, A. Y., Rice, P., & Holt, R. J. (2015). Risk of Upper Gastrointestinal Ulcers in Patients With Osteoarthritis Receiving Single-Tablet Ibuprofen/Famotidine Versus Ibuprofen Alone: Pooled Efficacy and Safety Analyses of Two Randomized, Double-Blind, Comparison Trials. Postgraduate Medicine, 126(4), 82-91.
  • Caunedo-Álvarez, A., Gómez-Rodríguez, B. J., Romero-Vázquez, J., Argüelles-Arias, F., Romero-Castro, R., García-Montes, J. M., . . . Herrerías-Gutiérrez, J. M. (2010). Macroscopic small bowel mucosal injury caused by chronic nonsteroidal anti-inflammatory drugs (NSAID) use as assessed by capsule endoscopy. REV ESP ENFERM DIG, 102(2), pp. 80-85.
  • Centro de Informação do medicamento e Produtos de Saúde. (2017). Recomendações Terapêuticas: INIBIDORES DA BOMBA DE PROTÕES (IBP). Infarmed. Serviço Nacional de Saúde. Obtido em 25 de Novembro de 2019, de https://www.infarmed.pt/documents/15786/1909769/Inibidores+da+Bonba+de+Prot%C3%B5es/fe44c351-515c-4ab4-a437-689f2f8c1aae
  • Clarrett, D. M., & Hachem, C. n. (May/June de 2018). Gastroesophageal Refl ux Disease (GERD). Science of Medicine| Feature Series, 115(3), 214-218.
  • Drozdov, V. N., Kim, V. A., Tkachenko, E. V., & Varvanina, G. G. (2012). Influence of a Specific Ginger Combination on Gastropathy Conditions in Patients with Osteoarthritis of the Knee or Hip. THE JOURNAL OF ALTERNATIVE AND COMPLEMENTARY MEDICINE, 18(6), 583-588.
  • Haghighi, M., Khalvat, A., Toliat, T., & Jallaei, S. (2005). COMPARING THE EFFECTS OF GINGER (ZINGIBER OFFICINALE) EXTRACT AND IBUPROFEN ON PATIENTS WITH OSTEOARTHRITIS. Arch Iranian Med, 8(4), 267 – 271.
  • Mozaffari-Khosravia, H., Naderia, Z., Dehghanc, A., Nadjarzadeha, A., & Huseini, H. F. (2016). Effect of Ginger Supplementation on Proinflammatory Cytokines in Older Patients with Osteoarthritis: Outcomes of a Randomized Controlled Clinical Trial. JOURNAL OF NUTRITION IN GERONTOLOGY AND GERIATRICS, 35(3), 209-2018.
  • Naderi, Z., Mozaffari-Khosravi, H., Dehghan, A., Nadjarzadeh, A., & Huseini, H. F. (2015). Effect of ginger powder supplementation on nitric oxide and C-reactive protein in elderly knee osteoarthritis patients: A 12-week double-blind randomized placebo-controlled clinical trial. Journal of Traditional and Complementary Medicine, 1-5.
  • Sahardi, N. F., & Makpol, S. (2019). Ginger (Zingiber officinale Roscoe) in the Prevention of Ageing and Degenerative Diseases: Review of Current Evidence. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, 1-13.
  • Tosun, B., Unal, N., Yigit, D., Can, N., Aslan, O., & Tunay, S. (2017). Effects of Self-Knee Massage With Ginger Oil in Patients With Osteoarthritis: An Experimental Study. Research and Theory for Nursing Practice: An International Journal, 31(4), 379-392.

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2 Replies to “Pode o gengibre ajudar na osteoartrose?”

  1. Gostei deste assunto,super interessante….
    Queria fazer uma pergunta.. Além de pôr na comida em que mais se pôde deitar.(deitar no leite no chá etc)
    Obrigada

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