O microbioma tem sido o foco dos últimos artigos e hoje, mais uma vez, não vai ser exceção.

Honestamente, este tema fascina-me! Já verificámos qual a importância da amamentação e do tipo de parto na formação do microbioma (mais infos aqui) e como o transplante fecal pode ajudar a combater certos tipos de infeções (mais infos aqui).

O microbioma é muito importante na digestão de alimentos e na regulação do sistema imunitário pela modulação da permeabilidade da barreira intestinal. Esta é uma barreira composta por células epiteliais, muco e imunoglobinas (anticorpos), que bloqueia a entrada de diversos microrganismos na corrente sanguínea durante o processo de absorção de nutrientes. Se esta for comprometida, microrganismos entram para a corrente sanguínea do hospedeiro, o que pode criar respostas imunitárias locais ou sistémicas (Mohanty, 2020; Mu, Kirby, Reilly, & Luo, 2017; Rishi, et al., 2020).

Tal como referido anteriormente, a disbiose dá-se quando existe uma diminuição da diversidade do microbioma e um desequilíbrio entre microrganismos patológicos e benéficos. Esta pode ocorrer através do tipo de alimentação que temos, bem como devido à toma de antibiótico, a infeções do intestino ou a outas patologias (Tamburini, Shen, Wu, & Clemente, 2016; Walker, 2017; Yang, Corwin, Jordan, Murphy, & Dunlop, 2016).

Relação entre intestinos e pulmões:

Da mesma forma que existe um microbioma nos intestinos, evidências científicas têm sugerido que também existe um outro a nível dos pulmões estando os microrganismos destes dois órgãos em constante comunicação. Isto indica que quando há uma infeção a nível dos pulmões irá ocorrer uma alteração a nível intestinal. De facto, existe evidência a demonstrar que infeções respiratórias estão associadas a uma alteração da composição do microbioma intestinal (Groves, Higham, Moffatt, Cox, & Tregoninga, 2020; Mohanty, 2020).

Será que existe alguma relação entre o microbioma e o Covid-19?

Tal como já sabemos, o Covid-19 (SARS-CoV-2) é um vírus que afeta o sistema respiratório e alguns dos seus sintomas são febre, tosse seca, falta de ar, dores musculares e de cabeça. Outros sintomas podem incluir alterações gastrointestinais originando dor abdominal, náuseas, vómitos e diarreia (KAŹMIERCZAK-SIEDLECKA, VITALE, & MAKAREWICZ, 2020).

Estudos detetaram o vírus do covid-19 em amostras de fezes em quase 50% dos participantes com coronavírus, sugerindo que o sistema digestivo pode ser um outro local onde este vírus se pode multiplicar. O SARS-CoV-2 liga-se a um recetor presente no nosso corpo, designado por enzima conversora da angiotensina 2 de forma a “entrar” no nosso organismo. Este recetor está muito presente no fígado, nos intestinos e nos pulmões (Agondi, Aun, & Giavina-Bianchi, 2020; Conte & Toraldo, 2020; Zuo, et al., 2020).

Uma investigação realizada na China, analisou amostras de fezes de 15 pacientes com sintomas moderados/severos associados ao coronavírus desde o momento que entraram no hospital até terem alta. Todos os pacientes sintomáticos apresentaram problemas respiratórios e apenas 1 problemas gastrointestinais. Estas amostras foram comparadas com outras 15 provenientes de indivíduos saudáveis. Verificou-se uma diferença na composição do microbioma entre os pacientes com Covid-19 e os saudáveis, mesmo após os indivíduos sintomáticos terem tido alta e teste negativo a este vírus (Zuo, et al., 2020).

Acrescenta-se ainda que, pelas análises das fezes dos pacientes sintomáticos, 23 tipos de bactérias foram associadas a um aumento da severidade dos sintomas associados ao coronavírus.  Enquanto que as bactérias “Clostridium ramosum” e “C. hathewayi” foram as que mais contribuíram para a severidade desta patologia, “Alistipes onderdonkii” e “Faecalibacterium prausnitzii” foram os tipos de bactérias que demonstraram um efeito oposto. Assim, este estudo revelou que pacientes com Covid-19 apresentam uma alteração da flora intestinal e que a composição do microbioma de cada indivíduo pode contribuir para a suscetibilidade e resposta do corpo face a infeções por SARS-Cov-2 (Zuo, et al., 2020).

Para além desta alteração da flora intestinal devido ao vírus em si, tratamentos farmacológicos para tratamento do Covid-19, incluindo antibióticos, podem alterar a diversidade do microbioma, podendo originar patologias associadas a disbiose, mesmo após recuperação dos sintomas associados ao coronavírus. De facto, este vírus pode permanecer nas nossas fezes até 35 dias após termino da infeção respiratória. Assim, alguns autores sugerem a importância de se realizarem analises às fezes após este período de forma a verificar uma possível disbiose (KAŹMIERCZAK-SIEDLECKA, VITALE, & MAKAREWICZ, 2020).

O que podemos fazer em relação a isto?

De forma a combaterem-se respostas inflamatórias provenientes de vírus tais como o Covid-19, é importante ter-se um bom microbioma para que este ajude o sistema imunitário a prevenir reações imunitárias excessivas que podem, eventualmente, ser prejudiciais para os órgãos vitais incluindo os pulmões (Mohanty, 2020).

Tem-se sugerido que as inflamações dos intestinos dependem da composição do microbioma e este pode ser alterado de acordo com o que comemos. Por exemplo, uma alimentação à base de plantas aumenta as bactérias boas nos intestinos enquanto que alimentos como trigo, álcool e carnes vermelhas promovem uma disbiose e consequente inflamação intestinal. Bactérias do tipo “Bacteriodetes” encontram-se em grandes quantidades em indivíduos que seguem uma dieta vegetariana enquanto as do tipo “Firmicutis” encontram-se mais presentem em indivíduos que  ingerem produtos de origem animal (Rishi, et al., 2020).

Assim, recomenda-se aos indivíduos com covid-19 ligeiro ou que se encontrem em quarentena e que possam confecionar as suas próprias refeições que incluam cereais integrais, leguminosas, frutas e vegetais na sua alimentação. Isto porque estes alimentos são ricos em fibra e esta apresenta propriedades anti-inflamatórias, pela formação de ácidos gordos de cadeia curta aquando da sua degradação no intestino, que irão ajudar a combater a inflamação causada pelo SARS-CoV-2. Dietas ricas em fibra alteram não só a flora intestinal como também o microbioma presente nos pulmões. Daí a importância da alimentação na saúde deste órgão (esta relação também poderá explicar o porquê de certos alimentos ajudarem a combater a asma – mais infos sobre isto aqui). Já alimentos ricos em gorduras saturadas, produtos refinados, álcool, carnes vermelhas e refrigerantes devem ser evitados (Conte & Toraldo, 2020; Mohanty, 2020).

Figura 1 Possível relação entre alimentação e suscetibilidade de desenvolver Covid-19 (Rishi, et al., 2020)

Todos os dias fazemos diversas escolhas sobre a nossa alimentação e é importante sabermos quais os alimentos que nos podem ajudar a combater diversas patologias e quais os que vão aumentar a nossa suscetibilidade a essas mesmas. Assim, se ainda não o fazes, tenta adicionar a maior quantidade de alimentos vegetais na tua alimentação e reduzir a quantidade de alimentos de origem animal!

Faz com que cada refeição conte!

Para mais informações sobre fibra clica aqui e sobre microbioma aqui.

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia:

  • Agondi, R. C., Aun, M. V., & Giavina-Bianchi, P. (2020). COVID-19, enzima conversora da angiotensina 2 e hidroxicloroquina. Arq Asma Alerg Imunol., 4(1), 138-40.
  • Conte, L., & Toraldo, D. M. (2020). Targeting the gut–lung microbiota axis by means of a high-fibre diet and probiotics may have anti-inflammatory effects in COVID-19 infection. Therapeutic Advances in Respiratory Disease, 14, 1-5.
  • Glick-Bauer, M., & Yeh, M.-C. (2014). The Health Advantage of a Vegan Diet: Exploring the Gut Microbiota Connection. Nutrients, 6, 4822-4838.
  • Groves, H. T., Higham, S. L., Moffatt, M. F., Cox, M. J., & Tregoninga, J. S. (2020). Respiratory Viral Infection Alters the Gut Microbiota by Inducing Inappetence. mBio, 11(1).
  • KAŹMIERCZAK-SIEDLECKA, K., VITALE, E., & MAKAREWICZ, W. (2020). COVID-19 – gastrointestinal and gut microbiota-related aspects. European Review for Medical and Pharmacological Sciences, 24, 10853-10859.
  • Mohanty, D. D. (2020). Gut microbiota and Covid-19- possible link and implications. Virus Research, 285.
  • Mu, Q., Kirby, J., Reilly, C. M., & Luo, X. M. (2017, May 23). Leaky Gut As a Danger Signal for Autoimmune Diseases. Frontiers in Immunology, 8, 1-10.
  • Rishi, P., Thakur, K., Vij, S., Rishi, L., Singh, A., Kaur, I. P., . . . Kalia, V. C. (2020, (Oct–Dec). Diet, Gut Microbiota and COVID-19. Indian J Microbiol, 60(4), 420-439.
  • Singh, R. K., Chang, H.‑W., Yan, D., Lee, K. M., Ucmak, D., Wong, K., . . . Liao, W. (2017). Influence of diet on the gut microbiome and implications for human health. Journal of Translational Medicine, 15(73), 2-17.
  • Tamburini, S., Shen, N., Wu, H. C., & Clemente, J. C. (2016, July). The microbiome in early life: implications for health outcomes. Nature Medicine, 22(7), 713-722.
  • Walker, W. A. (2017, September). The importance of appropriate initial bacterial colonization of the intestine in newborn, child and adult health. Pediatr Res., 82(3), 387–395.
  • Yang, I., Corwin, E. J., Jordan, P. A., Murphy, J. R., & Dunlop, A. (2016). The Infant Microbiome: Implications for Infant Health and Neurocognitive Development. Nurs Res, 65(1), 76–88.
  • Zuo, T., Zhang, F., Lui, G. C., Yeoh, Y. K., Li, 5. A., Zhan, H., . . . Joynt, G. (2020). Alterations in Gut Microbiota of Patients With COVID-19 During Time of Hospitalization. Gastroenterology, 159, :944–955.

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