Anteriormente este tipo cancro já foi ligeiramente abordado. Já se verificou como o leite de vaca pode contribuir para esta patologia (clica aqui) e que alterar os estilos de vida, incluindo os hábitos alimentares pode ajudar tanto em tumores em fases iniciais (clica aqui) ou mesmo avançadas (clica aqui).

Contudo, hoje vou falar sobre uma bebida em particular: o chá verde.

O cancro da próstata é o mais comum a nível mundial entre os homens. Contudo, a sua frequência e mortalidade variam de região para região, havendo menor incidência na Ásia em comparação com zonas mais ocidentais (exemplos: Estados Unidos, Oeste da Europa e Austrália), o que se pode dever a fatores ambientais, aos estilos de vida e ao tipo de alimentação adotado pelos indivíduos. Muitos estudos epidemiológicos têm verificado que o consumo de chá verde pode ajudar a reduzir o risco de se desenvolver esta patologia (Bettuzzi, et al., 2006; Beynon, et al., 2019; Kurahashi, Sasazuki, Iwasaki, Inoue, & Tsugane, 2008; Miyata, Shida, Hakariya, & Sakai, 2019).

Uma alteração que precede este tipo de tumor é a neoplasia intraepitelial da próstata (NIP) que consiste numa alteração das células epiteliais presentes neste órgão. De facto, cerca de 30% dos homens que apresentam esta alteração em fase avançada podem vir a desenvolver cancro da próstata em apenas 1 ano. Contudo, nenhum tipo de tratamento é oferecido aos indivíduos com esta alteração até eles apresentaram um diagnóstico formal de cancro prostático (Bettuzzi, et al., 2006; MARZO, et al., 2003).

Tal como anteriormente referido, o Antígeno Prostático Específico (PSA) é uma proteína produzida pela próstata. Quando os seus níveis sanguíneos estão aumentados pode indicar presença ou mesmo progressão do cancro. Contudo, as lesões NIP não aumentam os níveis de PSA no sangue de forma significativa. Assim, apenas se realizam biópsias a este órgão masculino de forma a ver a progressão das NIP (Bettuzzi, et al., 2006; D, et al., 2005).

As catequinas são componentes presentes no chá e encontram-se em grandes quantidades no chá verde. Facilmente as conseguimos identificar pois são elas que dão aquele sabor amargo, característico desta bebida. Dentro das catequinas presentes, existem diversos tipos sendo o Epigalocatequina-3 Galato (EGCG) o mais abundante e o mais importante face a esta patologia (Ahmed, et al., 2019; Miyata, Shida, Hakariya, & Sakai, 2019).

Dentro dos tratamentos utilizados, destacam-se a remoção da próstata, a radioterapia, a braquiterapia, a quimioterapia e a terapia hormonal, incluindo a terapia de privação de androgénios. Estes são hormonas esteroides responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção das características masculinas, sendo a testosterona o tipo de androgénio mais comum. O crescimento de células prostáticas cancerígenas é bastante inibido pela supressão dos androgénios. Contudo, todas estas terapias têm efeitos secundários e, infelizmente, muitos pacientes vão ter um reaparecimento desta patologia (Miyata, Shida, Hakariya, & Sakai, 2019; Patrício, 2010).

Muitas vezes, em estádios iniciais, os pacientes antes de serem submetidos a qualquer tipo de tratamento, são submetidos a uma vigilância do crescimento do cancro. Assim, pode ser nesta fase ou na presença de lesões NIP, que o chá verde possa ajudar, de forma a prevenir a progressão da doença e a diminuir a necessidade de outro tipo de tratamentos.

O que diz a ciência sobre isto?

Muitos investigadores verificaram que “in vitro”, a EGCG consegue suprimir o crescimento tumoral de células prostáticas cancerígenas, promover a apoptose  (morte celular) e inibir ainda a expressão da metaloproteinase-2 matriz que é uma enzima que se encontra bastante ativa no cancro da próstata e promove a sua metastização (Kurahashi, Sasazuki, Iwasaki, Inoue, & Tsugane, 2008; Miyata, Shida, Hakariya, & Sakai, 2019; Yang, et al., 2018).

Um estudo observacional realizado no Japão concluiu que o consumo de chá verde reduz o risco de cancro da próstata avançado e, mais uma vez, quanto mais se beber menor é o risco. Contudo, este tipo de estudos não prova causa-efeito. Assim, é necessário haver investigações randomizadas com grupo placebo, de forma a provar esta ligação entre cancro e chá (Kurahashi, Sasazuki, Iwasaki, Inoue, & Tsugane, 2008).

Apesar de ter sido realizado em 2006, um estudo com duração de 1 ano, dividiu 60 participantes, todos eles com NIP em fase avançado em dois grupos (Bettuzzi, et al., 2006):

  • Grupo de Intervenção: tinham de ingerir 3 cápsulas contendo 200 mg de catequinas provenientes de chá verde;
  • Grupo de Controlo: tinham de ingerir 3 cápsulas sem efeito terapêutico.

Foram realizadas biópsias prostáticas ao fim de 6 e 12 meses de estudo e eis os resultados:

Ao fim de 6 meses, 6 participantes do grupo placebo desenvolveram cancro vs 0 participantes do grupo de intervenção e ao fim de 1 ano, apenas 1 participante deste último grupo apresentou cancro prostático. Assim, a incidência desta patologia foi de 30% vs 3.3% entre grupo placebo e de intervenção, respetivamente (Bettuzzi, et al., 2006).

Dois anos após o término deste estudo, estes autores decidiram realizar outra biópsia aos participantes. Apesar de nesta fase apenas 9 do grupo placebo e 13 do de intervenção terem sido analisados, 2 indivíduos do primeiro grupo apresentaram cancro vs 1 do grupo que ingeriu as cápsulas de chá verde (Brausi, Rizzi, & Bettuzzi, 2008).

Os autores concluíram, assim,  que a ingestão de chá verde pode ser uma opção bastante útil em indivíduos que apresentem lesões NIP de forma a evitar o aparecimento de tumor na próstata (Bettuzzi, et al., 2006).

E em indivíduos que já apresentem cancro? Pode o chá ajudar?

Uma investigação realizada em 2009 teve como participantes 26 homens com cancro da próstata em lista de espera para a removerem cirurgicamente. Estes receberam cápsulas contendo 1.3g de polifenóis e catequinas provenientes de chá verde até à data da cirurgia. Foram realizadas análises sanguíneas antes do estudo e no dia da cirurgia. Os resultados indicaram a presença de uma redução de vários componentes sanguíneos associados a esta patologia, incluindo a PSA, indicando que houve melhorias a nível tumoral (McLarty, Bigelow, Smith, Elmajian, & Ankem5, 2009).

Apesar destes resultados, este estudo não apresentou um grupo de controlo. Assim, 3 anos depois, outros investigadores decidiram, também, verificar se o consumo de 4 cápsulas contendo polifenóis provenientes do chá verde (800mg) vs cápsulas placebo durante 3 a 6 semanas antes da cirurgia poderia ajudar indivíduos em lista de espera para remoção total da próstata. Foram também realizadas análises sanguíneas e, apesar de haver melhorias em alguns componentes presentes no sangue dos participantes que ingeriram as cápsulas de chá verde, estas não foram estatisticamente significativas (Nguyen, et al., 2012)

Assim, os autores concluem que este pode ter um papel mais importante na prevenção de tumor prostático que no seu tratamento. Este não foi o único estudo a chegar a estas conclusões (Jatoi, et al., 2003; Nguyen, et al., 2012).

A maioria de estudos randomizados utiliza cápsulas de chá verde de forma a que nenhum participante saiba se está no grupo de controlo ou no de placebo, e a maioria deles utiliza grandes quantidades de componentes deste chá. Daí que muitos verifiquem os níveis de toxicidade do fígado dos participantes (Jatoi, et al., 2003; Nguyen, et al., 2012).

De facto, no estudo de Jatoi, et al., 2003, os participantes do grupo de intervenção tiveram de tomar 6g de chá verde por dia divididas em 6 doses e cerca de 69% deles apresentou sintomas de toxicidade de grau 1 e 2 que incluíram náusea, insónia, fadiga, dor abdominal, diarreia, vómitos e confusão (Jatoi, et al., 2003).

Os extratos de ervas concentrados são suplementos alimentares que têm aumentado a sua popularidade e são consumidos de forma a prevenir uma grande quantidade de patologias. Infelizmente ainda existe uma falta de vigilância por parte da União Europeia face a possíveis efeitos secundários. Um estudo de caso relatou a história de uma mulher de 63 anos que teve uma hepatite aguda severa devido ao consumo de suplementos de chá verde. Jim McCants também foi um outro caso que apresentou hepatite e necessitou de transplante de fígado devido à ingestão suplementos de chá verde. Vê a notícia sobre este caso aqui (https://noticias.r7.com/saude/como-um-suplemento-alimentar-me-colocou-na-fila-do-transplante-de-figado-26102018) (Pillukat, et al., 2014).

Assim, mais uma vez o meu conselho é: esquece os suplementos e bebe o chá!

Bibliografia

  • Ahmed, R. S., Soave, C., Edbauer, T. G., Patel, K. R., Elghoul, Y., Oliveira, A. V., . . . Dou, Q. P. (2019). Medicinal Plants: Chapter 14 – Discovery of Green Tea Polyphenol-Based Antitumor Drugs: Mechanisms of Action and Clinical Implications. 313-332: Springer Nature Switzerland.
  • Bettuzzi, S., Brausi, M., Rizzi, F., Castagnetti, G., Peracchia, G., & Corti, A. (15 de January de 2006). Chemoprevention of Human Prostate Cancer by Oral Administration of Green Tea Catechins in Volunteers with High-Grade Prostate Intraepithelial Neoplasia: A Preliminary Report from a One-Year Proof-of-Principle Study. Cancer Res, 66(2), 1234-1240.
  • Beynon, R. A., Richmond, R. C., Ferreira, D. L., Ness, A. R., May, M., Smith, G. D., . . . Lane, A. J. (2019). Investigating the effects of lycopene and green tea on the metabolome of men at risk of prostate cancer: The ProDiet randomised controlled trial. International Journal of Cancer, 144, 1918–1928.
  • Brausi, M., Rizzi, F., & Bettuzzi, S. (2008). Chemoprevention of Human Prostate Cancer by Green Tea Catechins: Two Years Later. A Follow-up Update. European Urology, 54, 472-473.
  • D, O., G, W., WR, F., R, M., EB, P., CJ, R., . . . PR, C. (September de 2005). INTENSIVE LIFESTYLE CHANGES MAY AFFECT THE PROGRESSION OF PROSTATE CANCER. J Urol., 174(3), 1065-9.
  • Jatoi, A., Ellison, N., Burch, p. A., Sloan, J. A., Dakhil, S. R., Novotny, P., . . . Flynn, P. J. (2003). A Phase II Trial of Green Tea in the Treatment of Patients with Androgen Independent Metastatic Prostate Carcinoma. Cancer, 97(6), 1442-6.
  • Kurahashi, N., Sasazuki, S., Iwasaki, M., Inoue, M., & Tsugane, S. (2008). Green Tea Consumption and Prostate Cancer Risk in Japanese Men: A Prospective Study. American Journal of Epidemiology, 167(1), 71-77.
  • MARZO, A. M., MEEKER, A. K., ZHA, S., LUO, J., NAKAYAMA, M., PLATZ, E. A., . . . NELSON, W. G. (November de 2003). HUMAN PROSTATE CANCER PRECURSORS AND PATHOBIOLOGY. Urology, 62, 55-62.
  • McLarty, J., Bigelow, R. L., Smith, M., Elmajian, D., & Ankem5, M. (July de 2009). Tea Polyphenols Decrease Serum Levels of Prostate-Specific Antigen, Hepatocyte Growth Factor, and Vascular Endothelial Growth Factor in Prostate Cancer Patients and Inhibit Production of Hepatocyte Growth Factor and Vascular Endothelial Growth Factor In V. Cancer Prevention Research, 2(7), 673-682.
  • Miyata, Y., Shida, Y., Hakariya, T., & Sakai, H. (2019). Anti-Cancer Effects of Green Tea Polyphenols Against Prostate Cancer. Molecules, 24(193).
  • Nguyen, M. M., Ahmann, F. R., Nagle, R. B., Hsu, C.-H., Tangrea, J. A., Parnes, H. L., . . . Chow, H.-H. S. (February de 2012). Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Trial of Polyphenon E in Prostate Cancer Patients before Prostatectomy: Evaluation of Potential Chemopreventive Activities. Cancer Prev Res, 5(2), 290-298.
  • Patrício, A. A. (Abril de 2010). Cancro da Próstata. Obtido de Associação Portuguesa de Urologia: https://www.apurologia.pt/publico/frameset.htm?https://www.apurologia.pt/publico/cancro_da_prostata.htm
  • Pillukat, M. H., Bester, C., Hensel, A., Lechtenberg, M., Petereit, F., Beckebaum, S., . . . Schmidt, H. H. (2014). Concentrated green tea extract induces severeacut ehepatitis in a 63-year-old woman – A case report with pharmaceutical analysis. Journal of Ethnopharmacology.
  • Yang, K., Gao, Z.-Y., Li, T.-Q., Song, W., Xiao, W., Jue Zheng, H. C., . . . Zou, H.-Y. (2018). Anti-tumor activity and the mechanism of a green tea (Camellia sinensis) polysaccharide on prostate cancer. Intrnational Journal of Biological Macromulecules, 122, 95-103.

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