O chá verde é, sem dúvida, o que mais bebo. O artigo da semana passada foi referente às propriedades desta bebida no combate a infeções virais, como infeções respiratórias, orais e mesmo ano genitais (clica aqui para mais informações).

Tal como referido a semana passada, o chá é uma das bebidas mais populares a nível mundial e apresenta elevados benefícios para a saúde por apresentar polifenóis, incluindo catequinas que são antioxidantes bastante fortes. De facto, este tipo de chá apresenta cerca 30-40% de catequinas, enquanto que o chá preto apenas contém 3-10%. Estima-se que 250ml de chá verde contém 300-400mg de polifenóis (Ahmed, et al., 2019; Ehiri, 2020).

Os antioxidantes têm a capacidade de inibir o stress oxidativo que é responsável pelo dano do ADN das células e está associado ao aumento do risco de se desenvolver cancro (clica aqui para mais informações sobre antioxidantes e stress oxidativo). Um facto interessante é que a quantidade de oxidantes após se beber chá aumenta bastante na nossa corrente sanguínea horas após o seu consumo. Isto foi demonstrado numa investigação onde os participantes tiveram de beber cerca de 400ml de chá verde. Amostras de sangue foram recolhidas 20, 40, 60 e 120 minutos após a ingestão desta bebida. Os níveis sanguíneos de antioxidantes aumentaram sobretudo 20-40 minutos após consumo do chá (Benzie, Szeto, & Tomlinson, 1999).

FIGURA 1 QUANTIDADE DE ANTIOXIDANTES NO SANGUE APÓS INGESTÃO DE CHÁ VERDE (BENZIE, SZETO, & TOMLINSON, 1999)

Acrescenta-se ainda que se beberes chá verde e o mantiveres por 2-5 minutos na boca antes de o deitares fora e lavares 10 vezes boca com água durante 2 minutos, os níveis de catequinas e outros compostos desta bebida permanecem na tua saliva até uma hora (Lee, et al., 2004)!

Existem diversos tipos catequinas presentes nesta bebida, sendo o Epigalocatequina-3 Galato (EGCG) o mais abundante. Tem sido documentado que este último tem a capacidade de inibir mecanismos que contribuem para a formação do cancro por apresentar propriedades anti-inflamatórias e anti tumorais (Ahmed, et al., 2019).

O cancro consiste num grupo de patologias que apresentam uma desregulação anormal da proliferação das células e é a segunda doença mais fatal a nível mundial. Tal como referido anteriormente, este apresenta 3 fases: iniciação, promoção e progressão (clica aqui para veres em que consiste cada uma destas). Assume-se que o EGCG tem a capacidade de proteger o ADN das células e promover a apoptose (morte) das mesmas, evitando a iniciação, promoção e progressão do cancro (Ahmed, et al., 2019).

Outros possíveis mecanismos do chá verde no combate ao cancro podem dever-se à modulação do sistema imunitário, à inibição da transcrição de genes promotores de cancro e a alterações epigenéticas (Shirakami & Shimizu, 2018).

Alterações quê??

Lembras-te do artigo que lancei no início do ano 2020 sobre como T. Colin Campbel conseguiu “ligar e desligar” o cancro em ratos (clica aqui)? Sim, os seus estudos já têm bastantes anos e não foram feitos em humanos, mas demonstraram exatamente o que a epigenética é: a alteração da expressão dos genes, que ocorre sem alteração do ADN. Num dos artigos que escrevi sobre o cancro da próstata, houve um estudo que também demonstrou como a epigenética funciona. Nesse, os indivíduos que alteraram os seus estilos de vida tiveram uma alteração da expressão dos seus genes e verificou-se uma inibição da expressão de 453 genes promotores de tumor da próstata aquando uma mudança dos estilos de vida (clica aqui para veres esse estudo) (Ornish, et al., 2008; Shirakami & Shimizu, 2018).

Chá verde e cancros do sistema digestivo:

  • Cavidade oral

Viu-se a semana passada que esta bebida ajuda a reduzir infeções da cavidade oral, como inflamações da gengiva ou mesmo cáries. Mas será que ajuda em cancros orais? Este é o oitavo tipo de cancro mais comum a nível mundial e inclui cancros da língua, mucosa oral, gengivas, céu da boca e palato. Apesar de nas últimas décadas novas terapias terem sido implementadas, esta patologia está associada a morbilidades elevadas e a taxa de sobrevivência após 5 anos é de apenas 50% (Li, Sun, Han, & Chen, 1999; Ramos, et al., 2017; Tsao, et al., 2009; Zhou, Wu, Wang, Qi, & Cheng, 2018).

As leucoplasias orais são lesões da mucosa oral que podem evoluir para um tumor. Indivíduos que apresentam este problema têm um risco aumentado de 15-40% de desenvolver este tipo de cancro (Li, Sun, Han, & Chen, 1999; Ramos, et al., 2017).

De forma a verificar os efeitos do chá verde em leucoplasias orais, uma investigação dividiu os participantes em dois grupos: um onde tiveram de tomar cápsulas de chá verde tendo-lhes sido “pintadas” as lesões orais com extratos de chá verde, preparadas em laboratório vs grupo placebo. Após 6 meses, 37.9% dos participantes do grupo de intervenção apresentaram regressão parcial destas lesões orais vs 10% do grupo placebo. Os autores concluíram que a ingestão de chá verde pode ajudar a prevenir o aparecimento de cancro oral

 

De facto, uma meta-análise realizada em 2018, analisou 14 estudos e verificou que o aumento do consumo desta bebida reduziu os riscos de cancro oral. Por cada 250 ml de chá ingerido houve uma redução de 6.2% do risco de desenvolver este tumor e quanto mais se beber, melhor (Zhou, Wu, Wang, Qi, & Cheng, 2018)!

  • Esófago:

O cancro do esófago é um dos mais frequentes do sistema digestivo, é altamente agressivo e apresenta mau prognóstico. Uma vez que os seus sintomas iniciais são muito subtis, normalmente só é diagnosticado em fases médias ou mesmo avançadas. As taxas de sobrevivência após 5 anos de diagnóstico são apenas de 20%. Este mata cerca de 400.000 indivíduos anualmente e a sua incidência tem vindo a aumentar (Yi, et al., 2019)

Após análise de 20 estudos, os resultados de uma meta-análise indicaram que o consumo de chá verde pode ser protetor na redução do risco de cancro de esófago. Contudo, não bebas o teu chá muito quente, pois este pode irritar as paredes do esófago uma vez que se tem demonstrado que comidas/bebidas quentes são um fator de risco para o desenvolvimento do cancro neste órgão (Chen, et al., 2015; Yi, et al., 2019).

  • Estômago:

De acordo com os dados de 2010, o cancro gástrico foi o quarto mais frequentes entre os portugueses. Em 2012 este foi considerado o quinto tumor mais frequente a nível mundial, sendo que 70% dos casos ocorreram nos países desenvolvidos. Normalmente a remoção total deste órgão é o tratamento mais efetivo. Contudo, esta patologia apresenta um prognóstico pouco animador (Direção Geral de Saúde, 2016; Huang, et al., 2017).

Este órgão é um dos mais importantes do sistema digestivo. Após chegar ao estômago, a comida pode permanecer lá durante algum tempo, estando, assim em constante contacto com as suas paredes. Químicos provenientes da comida vão alterar o microambiente e mesmo as células gástricas. Devido a isto, o cancro do estômago está bastante relacionado com os estilos de vida adotados pelos indivíduos, especialmente hábitos alimentares tais como bebidas ingeridas, dietas altas em sal e baixas em frutas e vegetais (Huang, et al., 2017).

Os resultados de uma meta-análise onde 13 estudos foram incluídos, concluiu mais uma vez que esta bebida também reduz o risco de cancro gástrico e quanto maior quantidade e maior o consumo a longo prazo, menor o risco (Huang, et al., 2017).

  • Cólon e reto

Já se referiu em artigos anteriores que o consumo de proteína animal e carnes pode contribuir para esta patologia que é o terceiro cancro mais frequente a nível mundial (clica aqui para veres esse artigo). Muitas vezes esta desenvolve-se devido à presença de pólipos intestinais que muitas vezes são removidos de forma a prevenir o aparecimento de tumores (Shimizu, Fukutomi, & Mitsuo Ninomiya, 2008; Yang, et al., 2011).

Num estudo, participantes com pólipos colorretais tiveram de ingerir 3 comprimidos à base de chá verde (cada medicamento correspondeu aproximadamente a 500ml de chá verde) por dia durante 12 meses vs grupo de controlo que não recebeu nenhum comprimido. É de referir que todos os indivíduos já bebiam chá mesmo antes do início do estudo. Foram realizadas colonoscopias no início e no final da investigação de forma a ver a progressão dos pólipos. Apesar de ambos os grupos estarem a ingerir chá verde diariamente, o grupo que tomou os comprimidos extra apresentou, ao fim de 1 ano, uma incidência de aparecimento de pólipos de 15% em comparação com o grupo controlo que apresentou uma percentagem de 31% sendo o tamanho dos pólipos que surgiram ao longo do estudo foram menor no grupo que tomou os comprimidos (Shimizu, Fukutomi, & Mitsuo Ninomiya, 2008).

Um estudo realizado 3 anos depois demonstrou que o consumo regular de chá verde reduziu os riscos de cancro do colon e reto em não fumadores (Yang, et al., 2011).

Após esta informação toda, acho que temos imensos motivos para beber chá verde! Toca a beber!

Bibliografia

  • Ahmed, R. S., Soave, C., Edbauer, T. G., Patel, K. R., Elghoul, Y., Oliveira, A. V., . . . Dou, Q. P. (2019). Medicinal Plants: Chapter 14 – Discovery of Green Tea Polyphenol-Based Antitumor Drugs: Mechanisms of Action and Clinical Implications. 313-332: Springer Nature Switzerland.
  • Benzie, I. F., Szeto, Y. T., & Tomlinson, J. J. (1999). Consumption of Green Tea Causes Rapid Increase in Plasma Antioxidant Power in Humans. Nutrition and Cancer, 34(1), 83-87.
  • Chen, Y., Tong, Y., Yang, C., Gan, Y., Sun, H., Bi, H., . . . Lu, Z. (2015). Consumption of hot beverages and foods and the risk of esophageal cancer: a meta-analysis of observational studies. BMC Cancer, 15(449).
  • Direção Geral de Saúde. (2016). PORTUGAL- Doenças Oncológicas em Números -2015. Lisboa: Direção Geral de Saúde.
  • Ehiri, J. C. (2020). Chapter 26 – The Role of Tea in Sleep Improvement and Cancer Prevention. Elsevier.
  • Huang, Y., Chen, H., Zhou, L., Li, G., Yi, D., Zhang, Y., . . . Yi, D. (2017). Association between green tea intake and risk of gastric cancer: a systematic review and dose–response meta-analysis of observational studies. Public Health Nutrition, 1-10.
  • Lee, M.-J., Lambert, J. D., Prabhu, S., Meng, X., Lu, H., Maliakal, P., . . . Yang1, C. S. (2004). Delivery of Tea Polyphenols to the Oral Cavity by Green Tea Leaves and Black Tea Extract. Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, 13, 132-137.
  • Li, N., Sun, Z., Han, C., & Chen, J. (April de 1999). The Chemopreventive Effects od Tea on Human Oral Precancerous Mucosa Lesions. Proc Soc Exp Biol Med, 220(4), 218-224.
  • Ornish, D., Magbanua, M. J., Weidner, G., Weinberg, V., Kemp, C., Green, C., . . . Carroll, P. R. (17 de June de 2008). Changes in prostate gene expression in men undergoing an intensive nutrition and lifestyle intervention. PNAS, 105(24), 8369-8374.
  • Ramos, R. T., Paiva, C. R., Filgueiras, A. M., Silva-Junior, G. O., Cantisano, M. H., Ferreira, D. d., & Ribeiro, M. (2017). Leucoplasia Oral: conceitos e repercussões clínicas. Rev. Bras. Odonto, 74(1), 51-5.
  • Shimizu, M., Fukutomi, Y., & Mitsuo Ninomiya. (November de 2008). Green Tea Extracts for the Prevention of Metachronous Colorectal Adenomas: A Pilot Study. Cancer Epidemiology,Biomarkers & Prevention, 17(11), 3020-3025.
  • Shirakami, Y., & Shimizu, M. (2018). Possible Mechanisms of Green Tea and Its Constituents against Cancer. Molecules, 23(2284).
  • Tsao, A. S., Liu, D., Martin, J., Tang, X.-m., Lee, J. J., El-Naggar, A. K., . . . Papadimitrakopoulou, V. (2009). Phase II Randomized, Placebo-controlled Trial of Green Tea Extract in Patients with High-risk Oral Premalignant Lesions. Cancer Prev Res, 2(11), 931-941.
  • Yang, G., Zheng, W., Xiang, Y.-B., Gao, J., Li, H.-L., Zhang, X., . . . Shu, X.-O. (2011). Green tea consumption and colorectal cancer risk: a report from the Shanghai Men’s Health Study. Carcinogenesis, 132(11), 1684–1688.
  • Yi, Y., Liang, H., Jing, H., Jian, Z., Guang, Y., Jun, Z., & Jian, H. Z. (2019). Green Tea Consumption and Esophageal Cancer Risk: A Meta-analysis. Nutrition and Cancer, 1-9.
  • Zhou, H., Wu, W., Wang, F., Qi, H., & Cheng, Z. (2018). Tea consumption is associated with decreased risk of oral cancer – A comprehensive and dose-response meta-analysis based on 14 case–control studies (MOOSE compliant). Medicine, 97(51).

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