O artigo da semana passada foi sobre o problema da poluição do ambiente por microplásticos. Tal como referido, estas partículas podem facilmente vir parar ao nosso prato (clica aqui para acederes ao artigo). Assim, é importante ter-se uma perceção à cerca das implicações que isto pode ter para a nossa saúde.

De uma forma simplificada:

É interessante verificar que estes produtos não estão só presentes nos animais marinhos, mas foram também encontrados em alimentos tais como sal, cerveja, açúcar e mel. Um estudo analisou 17 marcas diferentes de sal em 8 países e encontrou microplásticos em 16 delas, sendo que a sua quantidade variou entre 1-10 partículas/Kg de sal (Karami, et al., 2017). Outros estudos realizados na Turquia, Espanha e China também encontraram contaminação nas amostras de sal analisadas. Um outro encontrou 166±147 partículas/Kg em mel e 217 ± 123 partículas/Kg em açúcar. 24 marcas de cerveja alemã apresentaram entre 12-109 partículas/L (Chang, Xue, Li, Zou, & Tang, 2019).

Na semana passada referi um estudo realizado em Portugal no qual os autores estimaram que se apenas tivermos em conta o consumo de peixe e se todos nós consumíssemos a quantidade de peixe recomendada pela “European Food Safety Authority”, iriamos ingerir cerca de 3078 partículas/ano/capita de microplásticos. Contudo, um estudo realizado na América foi mais ao detalhe e analisou 26 outras investigações, de forma a estimar a quantidade de particulas ingeridas através de outras fontes alimentares tais como marisco, açucar, sal, mel, cerveja, água da torneira e de garrafa, assim como microplásticos presentes no ar. Concluiram que os Americanos iriam ingerir entre 74.000-121.000 partículas por ano, dependendo da idade e do sexo. Entre água da torneira e de garrafa, a última apresentou maiores níveis de contaminação e, devido a isto, os autores recomendam que as pessoas reduzam o seu consumo. Uma vez que este estudo não incluiu outros alimentos como produtos animais e vegetais (por falta de evidência em saber se estes também estão ou não contaminados) os valores indicados, estão possivelmente subestimados  (Barboza, et al., 2019; Cox, et al., 2019).

Qual a sua relação com o sistema respiratório?

Tal como acima referido, estas pequenas partículas também podem estar presentes na atmosfera. Elas podem ser provenientes de roupas, mobílias, materiais de construção, aterros, emissões industriais e fertilizantes entre outros. A quantidade de microplásticos vai variar consoante certos fatores atmosféricos, tais como intensidade e direção do vento, temperatura, chuva e poluição. Estas partículas, uma vez inaladas, podem induzir lesões no sistema respiratório, tais como asma, pneumonias, fibrose dos brônquios e pneumotórax, isto de acordo com o tipo de partículas inaladas e a suscetibilidade dos indivíduos (Prata, 2018).

Qual a sua relação com os intestinos?

A presença de microplásticos pode alterar a nossa flora intestinal (ou microbioma) que, tal como referido anteriormente, pode contribuir para a destruição da barreira intestinal e a sua consequente circulação na corrente sanguínea, podendo alcançar diversos órgãos. Isto pode originar inflamações locais ou sistémicas, contribuindo para o aparecimento/agravamento de determinadas patologias (clica aqui para mais informações sobre este tema) (Chang, Xue, Li, Zou, & Tang, 2019; Lu, et al., 2019).

Os resultados de um estudo demonstraram a presença de 20 partículas de microplásticos em média por cada 10g de fezes em 8 análises provenientes de 8 indivíduos de 8 países diferentes. Isto indica que estas micropartículas vão interagir diretamente com o nosso microbioma (Lu, et al., 2019; P, et al., 2019)

Autores concluíram que os nanoplásticos têm a capacidade de passar a barreira placental (analisaram placentas “ex vivo”). Contudo, sugeriram que devem ser realizados mais estudos de forma a se perceber quais os possíveis impactos que a nanotoxicidade pode causar (Wick, et al., 2010)

Estudos em animais demonstraram também uma disfunção dos sistemas reprodutivo e nervoso aquando da exposição a estes materiais (Chang, Xue, Li, Zou, & Tang, 2019).

Qual a sua relação com o cancro?

Num estudo realizado em 1953 os investigadores decidiram envolver rins de ratos em plástico de forma a provocar o aumento da tensão arterial destes animais. Ao fim de dois anos, ficaram surpreendidos porque alguns deles apresentaram tumores malignos nestes órgãos. Repetiram a mesma experiência utilizando diferentes tipos de plástico e o mesmo se verificou (figura 2). Nessa altura houve oncologistas que afirmaram que se estes tumores apareceram nestes animais ao fim de dois anos, apenas iriam aparecer nos humanos ao fim de 10-15 anos de exposição a estes materiais. Contudo, ainda não está claro se a acumulação de plásticos pode ser a causa ou contribuir para o aparecimento de cancro em humanos (Meyer-Rochow, Gross, Steffany, Zeuss, & Erren, 2015; Oppenheimer, Oppenheimer, Stout, & Danishefsky, 1953).

Figura 2 Resultados entre o aparecimento de tumores malignos em ratos através da exposição a diferentes tipos de plástico (Oppenheimer, Oppenheimer, Stout, & Danishefsky, 1953)

A ingestão de plásticos pelos peixes tem demonstrado causar-lhes toxicidade e patologias a nível do fígado. Portugal é um país onde este animal é muito consumido e, tal como referido anteriormente, ele é também uma grande fonte de outros químicos tais como metais pesados (ex: mercúrio), poluentes orgânicos persistentes (POP) tais como pesticidas, dioxinas, bifenilos policlorados (PCB), compostos perfluorados (PFCS) e difenil éteres polibromados (PBDES) que também podem contribuir para problemas de saúde (clica aqui para veres esse artigo). Acrescenta-se ainda que alguns destes químicos são adicionados durante da produção de plásticos. Assim, não se sabe se o problema é o plástico em si, ou estes químicos que poderão pôr em causa a nossa saúde (Cox, et al., 2019; Meyer-Rochow, Gross, Steffany, Zeuss, & Erren, 2015; Rochman, Hoh, Kurobe, & Teh, 2013).

Apesar de toda esta informação ainda não se sabe quais os impactos da ingestão destas micropartículas na saúde humana a longo prazo. De momento existem mais questões que respostas e mais estudos terão de ser feitos de forma a se perceber sobre os possíveis riscos da ingestão de microplásticos na saúde humana (Kontrick, 2018).

Bibliografia

  • Barboza, L. G., Lopes, C., Oliveira, P., Bessa, F., Otero, V., Henriques, B., . . . guilhermino, L. (2019). Microplastic in wild fish from North East Atlantic Ocean and its potential for causing neurotoxic effects, lipid oxidative damage, and human health risks associated with ingestion exposure. Journal Pre-proofs.
  • Chang, X., Xue, Y., Li, J., Zou, L., & Tang, M. (2019). Potential health impact of environmental micro‐ and nanoplastics pollution. Journal of Applied Toxicology, 1-12.
  • Cox, K. D., Covernton, G. A., Davies, H. L., Dower, J. F., Juanes, F., & Dudas, S. E. (2019). Human Consumption of Microplastics. Environmental, Science & technology, 53, 7068−7074.
  • Jr., D. R. (2012). Invited Commentary: The secret story of fish: decreasing nutritional value due to pollution? British Journal of Nutrition, 397–399.
  • Karami, A., Golieskardi, A., Choo, C. K., Larat, V., Galloway, T. S., & Salamatinia, B. (2017). The presence of microplastics in commercial salts from different countries. Scientific Reports, 7:46173 |.
  • Kontrick, A. V. (2018). Microplastics and Human Health: Our Great Future to Think About Now. Journal of Medical Toxicology, 14, 117-119.
  • Lu, L., Luo, T., Zhao, Y., Cai, C., Fu, Z., & Jin, Y. (2019). Interaction between microplastics and microorganism as well as gut microbiota: A consideration on environmental animal and human health. Science of the Total Environment, 667, 94-100.
  • Meyer-Rochow, V. B., Gross, J. V., Steffany, F., Zeuss, D., & Erren, T. C. (2015). Commentary: Plastic ocean and the cancer connection: 7 questions and answers. EnvironmentalResearch, 142, 575–578.
  • Oppenheimer, B. S., Oppenheimer, E. T., Stout, A. P., & Danishefsky, I. (19 de May de 1953). Malignant Tumors Resulting from Embedding Plastics in Rodents. Science, 118, 305-306.
  • P, S., S, K., P, K., T, B., M, T., T, R., & B, L. (3 de Sep de 2019). Detection of Various Microplastics in Human Stool: A Prospective Case Series. Ann Intern Med.
  • Prata, J. C. (2018). Airborne microplastics: Consequences to human health? Environmental Pollution, 115-126.
  • Rochman, C. M., Hoh, E., Kurobe, T., & Teh, S. J. (2013). Ingested plastic transfers hazardous chemicals to fish and induces hepatic stress. SCIENTIFIC REPORTS, 3(3263), 1-7.
  • Wick, P., Malek, A., Manser, P., Meili, D., Maeder-Althaus, X., Diener, L., . . . Mandach, U. v. (March de 2010). Barrier Capacity of Human Placenta for Nanosized Materials. Environmental Health Perspectives, 118(3), 432-436.

 

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