Tal como referido no último artigo, o Dr. Ornish demonstrou que é possível inibir a progressão do cancro da próstata em estádios iniciais. Assim, num dos seus estudos, ele demonstrou que o grupo que alterou os seus estilos de vida teve uma progressão tumoral 8 vezes inferior comparativamente com o grupo que decidiu apenas “vigiar” a doença (D, et al., 2005).

Mas, e os indivíduos em estádios mais avançados? Podem também eles beneficiar se alterarem a sua alimentação?

Existe  evidência científica a demonstrar a relação entre o consumo de certos alimentos, como aumento de dietas ricas em gorduras e calorias, proteína animal, baixo consumo de fibras, antioxidantes, selenium, e ácidos gordos ómega-3 e o aparecimento de diversos tipos de cancro. Assim, investigações têm analisado a progressão tumoral aquando da redução de carnes e laticínios e o aumento do consumo de cereais integrais, leguminosas e vegetais (especialmente os crucíferos) (Cartera, et al., 1993).

Um estudo de caso seguiu diferentes indivíduos com cancro da próstata, todos eles em estádios avançados e já com presença de metástases. Um deles, que apresentava diversas metástases ósseas, foi submetido à remoção de nódulos linfáticos da virilha direita, à remoção do testículo direito e à remoção de uma costela esquerda. Uma semana após a cirurgia foi-lhe transmitido que teria apenas 18-36 meses de vida. Assim, durante 14 meses, seguiu uma dieta à base de plantas e quando repetiu o exame ósseo, a maioria das metástases tinha desaparecido! Os exames tiveram resultados negativos entre 1978 e 1982. Contudo, em 1984 ele reintroduziu produtos animais na sua dieta e as metástases ósseas voltaram (1987). O paciente faleceu em 1989 (Cartera, et al., 1993).

Outros casos foram referenciados nesse artigo e também se verificou uma regressão do cancro aquando uma alimentação à base de plantas e uma progressão da doença quando os participantes deixavam de seguir este tipo de alimentação (Cartera, et al., 1993).

Contudo, estudos de caso não são os melhores níveis de evidência. Assim, existirão melhores estudos?

O Antigénio Prostático Específico (PSA) é uma proteína produzida apenas pela próstata. Assim, em pacientes que tenham sido submetidos à remoção total deste órgão é de esperar que os seus níveis de PSA sejam nulos. Se isto não ocorrer, poderá indicar a presença de metástases tumorais (D, et al., 2005; Nguyen, et al., 2006; Saxe, et al., 2006).

Estima-se que cerca de 35% dos pacientes após remoção total da próstata, voltem a ter esta patologia 10 anos após a cirurgia. Na grande maioria dos casos a terapia hormonal é utilizada de forma a tentar diminuir o “espalhar” do cancro. Contudo, este tipo de terapia não leva à cura da doença e pode causar efeitos secundários como ondas calor, perda de desejo sexual, aumento do tamanho das mamas e perda de massa óssea e muscular. Devido a isto, muitos médicos sugerem apenas o “vigiar” da doença só atuando quando os níveis de PSA crescerem rapidamente ou quando existem sintomas de metástases (Nguyen, et al., 2006; Saxe, et al., 2006)

Existe já muita informação sobre como uma alimentação à base de plantas pode ajudar a diminuir a progressão tumoral. Assim, devemos dar uma hipótese a este tipo de alimentação no combate contra esta terrível doença (Saxe, et al., 2006)?

10 participantes de uma investigação (todos eles com níveis de PSA aumentados após remoção total da próstata) foram aconselhados a seguir uma alimentação à base de plantas, baixa em gorduras saturadas e alta em fibra (incluiu cereais integrais, leguminosas, vegetais verdes e amarelos, sementes, alimentos à base de soja e fruta. Alimentos processados e refinados, produtos animais e cafeína foram estritamente limitados) e tiveram de realizar formas de redução de stress (yoga, suporte social e “mindfulness”). Tiveram ainda sessões de grupo onde obtiveram informações nutricionais e aulas, de forma aprenderem a preparar refeições e como realizar técnicas de redução de stress. A velocidade de crescimento dos níveis de PSA foi analisada no início e após 4 meses de intervenção. Eis os resultados (GA, et al., 2001):

Figura 1 Gráfico representa a velocidade com que os níveis de PSA estavam a aumentar antes e após 4 meses de intervenção

Verifica-se uma redução da velocidade de crescimento dos níveis de PSA nos indivíduos 1,3,5,7 e 10 (azul), indicando uma diminuição do crescimento tumoral. Os indivíduos 2,6 e 8 (laranja) apresentaram velocidades de PSA negativas após a intervenção, indicando uma remissão tumoral. Já os participantes 4 e 9 apresentaram piorias nos seus valores. Estes resultados estão relacionados com a adesão dos participantes face à intervenção sugerida, sendo que os que seguiram o que lhes foi sugerido apresentaram melhores valores em comparação com os que não seguiram (GA, et al., 2001).

Um outro estudo, com 13 participantes, também seguiu um protocolo bastante similar ao estudo supracitado (foram incentivados a adotar uma alimentação à base de plantas e a praticar técnicas de redução de stress. Também tiveram sessões de grupo). Apenas 10 destes 13 terminaram esta investigação: dois deles iniciaram terapia hormonal após início do estudo e outro desistiu. Assim, ao fim de 6 meses foram obtidos os seguintes resultados (Saxe, et al., 2006):

9 dos 10 participantes tiveram uma diminuição da velocidade de crescimento dos níveis de PSA, sendo que em 4 deles (amarelo) houve uma completa remissão dos mesmos. O tempo médio que levaria o tumor a crescer para o dobro do tamanho subiu de 11.9 meses (antes de intervenção) para 112.3 meses (pós-intervenção). Isto é, se os participantes não tivessem alterado os seus estilos de vida, em média, os seus tumores iriam ter o dobro do tamanho ao fim de apenas 1 ano (Saxe, et al., 2006)!

Assim, através de uma alimentação à base de plantas e técnicas de redução de stress, é possível diminuir, ou possivelmente mesmo reverter esta doença, que afeta milhares de homens. Claro que não é garantido que este tipo de intervenção vá ajudar a inibir o crescimento tumoral em todos os casos. Contudo esta e muita mais evidência têm demonstrado que alterar os nossos estilos de vida e o que ingerimos pode ajudar a inibir o crescimento e a metastização de células tumorais (GA, et al., 2001; Nguyen, et al., 2006; Saxe, et al., 2006)

Um desabafo da minha parte: apesar de não ser 100% garantido, fascina-me o quanto a alimentação pode ajudar a reduzir a progressão deste e muitos outros tipos de cancro. Contudo, fico frustrada pelo facto de muita da evidência científica (presente neste e noutros artigos já publicados) ter sido divulgada há mais de 19 anos e hoje em dia ninguém ter conhecimento sobre estes resultados que, para mim são fenomenais!

Penso que se as pessoas tivessem conhecimento, talvez muitos cancros poderiam ser revertidos, talvez muitas pessoas, incluindo o meu pai, ainda poderiam estar por cá!…

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Cartera, J. P., Saxea, G. P., Newbolda, V., Peresa, C. E., Campeaua, R. J., & Bernal-Greena, L. (1993). Hypothesis: dietary management may improve survival from nutritionally linked cancers based on analysis of representative cases. Journal of the American College of Nutrition, 12(3), 209-226.
  • D, O., G, W., WR, F., R, M., EB, P., CJ, R., . . . PR, C. (September de 2005). INTENSIVE LIFESTYLE CHANGES MAY AFFECT THE PROGRESSION OF PROSTATE CANCER. J Urol., 174(3), 1065-9.
  • GA, S., JR, H., JF, C., J, K.-Z., PH, R., D, J., . . . RD., B. (December de 2001). Can diet in conjunction with stress reduction affect the rate of increase in prostate specific antigen after biochemical recurrence of prostate cancer? THE JOURNAL OF UROLOGY, 166, 202–2207.
  • Saxe, G. A., Major, J. M., Nguyen, J. Y., Freeman, K. M., Downs, T. M., & Salem, C. E. (2006). Potential Attenuation of Disease Progression in Recurrent Prostate Cancer With Plant-Based Diet and Stress Reduction. INTEGRATIVE CANCER THERAPIES, 5(3), 206-213.

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