Estima-se que cerca de 20% dos indivíduos que apresentam cancro da próstata apresentem história familiar. Contudo, apesar de a grande maioria das pessoas associar isto aos genes, esta patologia também se pode dever ao facto dos indivíduos da mesma família terem estilos de vida similares e devido à exposição a certos carcinogénicos ambientais (Rawla, 2019).

Apesar de existirem alguns tratamentos efetivos para esta patologia (tal como referido à duas semanas. Clica aqui para reveres o artigo), estes têm efeitos secundários tais como incontinência urinária e disfunção sexual, diminuindo, assim, a qualidade de vida dos indivíduos. Devido a isto, e também ao facto desta doença em estádios menos avançados apresentar uma progressão lenta e uma taxa de mortalidade baixa, muitas das vezes os médicos apenas sugerem “vigiar” a progressão do tumor, de forma a evitar desnecessariamente a utilização de procedimentos mais invasivos (Frattaroli, et al., 2008)

Estudos epidemiológicos constataram que os indivíduos que emigram de zonas de baixo risco (países em desenvolvimento) para zonas de alto risco (países desenvolvidos) e adotam um estilo de vida típico do oeste (a chamada “westernized lifestyle”), apresentam maior probabilidade de desenvolver esta patologia (Rawla, 2019).

E que estilos de vida são prejudiciais?

A obesidade está associada ao desenvolvimento de estádios avançados de cancro da próstata. Isto pode-se dever ao facto de homens obesos apresentarem níveis sanguíneos alterados de hormonas metabólicas e sexuais. O excesso de peso, associado à inatividade física, leva ao aumento da resistência à insulina, aumentando a sua quantidade na corrente sanguínea. Uma vez que esta é uma hormona que potencia o crescimento e a proliferação das células, é considerada um fator de risco para o desenvolvimento deste tipo de tumor (Rawla, 2019).

Apesar de alguns estudos não verificarem uma relação direta, outros têm demonstrado que o consumo de álcool também pode contribuir para o desenvolvimento desta patologia. Um estudo demonstrou esta relação aquando da ingestão de 1-4 bebidas alcoólicas por dia (Fillmore, Chikritzhs, Stockwell, Bostrom, & Pascal, 2009; Rawla, 2019).

Alguns estudos de coorte documentaram um aumento de 2-3 vezes do risco de desenvolver esta doença em indivíduos que fumam mais de um maço de cigarros por dia. Os fumadores apresentam o dobro do risco de morrer de cancro da próstata, comparativamente com não fumadores (contudo, o risco também irá depender da quantidade de cigarros fumados por dia/ano). Indivíduos fumadores normalmente apresentam maiores quantidades de hormonas sexuais no sangue. Mais se acrescenta que alguns componentes carcinogénicos do tabaco (como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos) podem promover a iniciação e a progressão tumoral (Rawla, 2019).

O que acontece se mudarmos os nossos estilos de vida?

Dr. Ornish realizou algumas investigações neste campo. 83 participantes, todos com cancro da próstata em estádio inicial, foram divididos em dois grupos: o de intervenção, onde foi adotada uma alimentação a base de plantas (“Whole foods plant based diet”), baixa em gorduras (10% do número total de calorias). Cumulativamente tinham de praticar exercício (caminhar 30 minutos, 6 vezes por semana), bem como técnicas de redução de stress (como yoga, meditação, relaxamento, 1 hora por dia) e assistir a sessões de grupo. Já no grupo de controlo, simplesmente se “vigiou” a progressão da doença (D, et al., 2005; Frattaroli, et al., 2008).

Como forma de medir a progressão desta patologia foram analisados os níveis de Antigénio Prostático Específico (PSA – proteína produzida pela próstata). O aumento do seus níveis sanguíneos pode indicar uma progressão do cancro (D, et al., 2005).

Assim, ao fim de 12 meses, os níveis de PSA reduziram 4% no grupo experimental e aumentaram 6% no de controlo. Houve uma inibição de 70% das células tumorais no grupo que alterou os estilos de vida em comparação com o de controlo, onde a inibição tumoral foi de apenas 9% (D, et al., 2005).

Figura 1 Percentagem de inibição tumoral, ao fim de um ano de intervenção (D, et al., 2005)

Após 2 dois anos, 27% dos participantes do grupo de controlo tiveram de fazer algum tipo de tratamento para este cancro (remoção total da próstata, radioterapia ou terapia hormonal) comparativamente com 5% do grupo de intervenção (Frattaroli, et al., 2008).

30 Participantes do grupo de intervenção também participaram numa outra investigação deste mesmo autor, cujo o objetivo era analisar possíveis alterações da expressão dos genes de células da próstata. Assim, realizaram-se tanto no início como ao fim de três meses de intervenção biópsias prostáticas tendo-se verificado uma inibição da expressão de 453 genes promotores de tumor da próstata aquando uma mudança dos estilos de vida (Ornish, et al., 2008).

Figura 2 Mapa de expressão genética. Este apresenta 30 colunas, cada uma representando um participante. Cada linha representa a transcrição de um gene (mRNA). A cor vermelha representa grandes quantidades de mRNA a ser transcrito, enquanto que a cor verde representa o oposto. Assim, facilmente se nota que após 3 meses de intervenção grande parte dos genes promotores desta patologia apresentaram menor expressão ou foram mesmo “desligados” (Ornish, et al., 2008)

Assim, é possível combater este problema de saúde se alterarmos os nossos estilos de vida!

Claro que estes estudos supracitados não se referem apenas a mudanças de alimentação, mas sim a mudanças de estilos de vida. Assim, coloca-se esta questão: pode só a alimentação ajudar na luta contra esta doença?

Aparentemente, o aumento do consumo de alimentos de origem vegetal reduz o risco de cancro da próstata. Já o consumo de alimentos de origem animal, especialmente os laticínios (tal como descrito num artigo anterior- clica aqui) aumenta o risco desta patologia (Shin, Millstine, Ruddy, Wallace, & Fields, 2019)

Existe uma forte relação entre o consumo de vegetais crucíferos (ex: brócolos, couve de Bruxelas, couve-flor, couve e nabos), soja (devido à isoflavona, um dos seus componentes), chá verde (apresenta catequinas que são antioxidantes), romãs  e tomates (apresentam licopenos que também são antioxidantes) e a redução de cancro da próstata, devido às suas propriedade anticancerígenas (Chan, Lok, & Woo, 2009; Nelson, DeMarzo, & Yegnasubramanian, 2014; Patel, 2014; Rawla, 2019) Estudos relativos a estes alimentos serão referidos noutra altura.

Resumidamente:

  • A alteração dos estilos de vida, incluindo o aumento do consumo de alimentos à base de plantas, promove a inibição do crescimento do cancro da próstata em estádios iniciais.

Mas, quer isto dizer que quem apresenta esta patologia em fases avançadas não a consegue controlar com a alteração dos estilos de vida e da alimentação? Será que não há esperança para esses indivíduos?

Fiquem atentos, pois isto será discutido para a semana!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas

Bibliografia

  • Chan, R., Lok, K., & Woo, J. (Feb de 2009). Prostate cancer and vegetable consumption. Mol Nutr Food Res, 53(2), 201-16.
  • D, O., G, W., WR, F., R, M., EB, P., CJ, R., . . . PR, C. (September de 2005). INTENSIVE LIFESTYLE CHANGES MAY AFFECT THE PROGRESSION OF PROSTATE CANCER. J Urol., 174(3), 1065-9.
  • Fillmore, K. M., Chikritzhs, T., Stockwell, T., Bostrom, A., & Pascal, R. (2009). Alcohol use and prostate cancer: A meta-analysis. Mol. Nutr. Food Res, 53, 240-255.
  • Frattaroli, J., Weidner, G., Dnistrian, A. M., Kemp, C., Daubenmier, J. J., Marlin, R. O., . . . Ornish, D. (Dec de 2008). Clinical Events in Prostate Cancer Lifestyle Trial: Results From Two Years of Follow-Up. Urology, 72(6), 1319-23.
  • Nelson, W. G., DeMarzo, A. M., & Yegnasubramanian, S. (2014). The Diet as a Cause of Human Prostate Cancer. Cancer Treat Res, 159, 51-68.
  • Ornish, D., Magbanua, M. J., Weidner, G., Weinberg, V., Kemp, C., Green, C., . . . Carroll, P. R. (17 de June de 2008). Changes in prostate gene expression in men undergoing an intensive nutrition and lifestyle intervention. PNAS, 105(24), 8369-8374.
  • Patel, V. H. (2014). Nutrition and prostate cancer: an overview. Expert Rev. Anticancer Ther, 14(11), 1295–1304.
  • Rawla, P. (2019). Epidemiology of Prostate Cancer. World J Oncol, 10(2), 63-89.
  • Shin, J., Millstine, D., Ruddy, B., Wallace, M., & Fields, H. (2019). Effect of Plant- and Animal-Based Foods on Prostate Cancer Risk. J Am Osteopath Assoc.

Achas-te a informação útil?

Carrega na estrela para avaliares este artigo

Média de estrelas dadas 5 / 5. Avaliações 2

Sem avaliações. Sê o primeiro!

Ajuda a espalhar a informação desta página! 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *