A semana passada falou-se da relação entre o consumo de proteína animal e laticínios no desenvolvimento de cancro da próstata. Dentro da evidência científica, tanto o aumento da quantidade de IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1) no sangue como a diminuição de quantidade de vitamina D, podem ser fatores de risco para o seu desenvolvimento que afeta milhares de homens! (Aconselho-te a ler o artigo só para perceberes melhores alguns termos utilizados hoje. Clica aqui).

A questão que foi posta a semana passada foi: será que outras fontes de cálcio para além do leite e laticínios podem também contribuir para o aumento do risco de desenvolvimento de cancro da próstata? Bem, isto será esclarecido hoje!

Tal como referido a semana passada, a prevalência desta patologia varia de região para região. Em 2018 foram registados cerca de 1.276.106 novos casos a nível mundial, sendo as regiões mais afetadas a Austrália, a América do Norte e a Europa e as menos afetadas a África e a Ásia. Em relação a taxas de mortalidade, nesse ano as regiões com maiores taxas foram a América Central, seguida pela Austrália, Nova Zelândia e Europa de Oeste (Rawla, 2019).

Um dos principais fatores para estas diferenças de prevalência a nível mundial é o tipo de alimentação adotada. Inúmeros estudos científicos demonstraram uma relação entre o consumo de carne, peixe e laticínios e esta patologia (Aune, et al., 2015; Chan & Giovannucci, 2001; Park, et al., 2014; Qin, et al., 2009; Qin, Xu, Wang, Tong, & Hoshi, 2007; Tate, Bibb, & Larcom, 2011; Yang, et al., 2015; Rawla, 2019)

Uma meta-análise concluiu que em 32 estudos científicos houve uma relação entre o consumo de laticínios, incluindo leite magro e queijo, no aumento do risco de desenvolver cancro da próstata. Contudo, fontes de cálcio não provenientes de laticínios demonstraram ter um efeito protetor. Isto poderá indicar que mais do que o cálcio existem outros componentes presentes nos laticínios, como gorduras saturadas, hormonas sexuais e IGF-1 que podem potenciar o aparecimento desta doença (Aune, et al., 2015)!

Figura 1 Prevalência de cancro da próstata com o aumento do consumo de cálcio proveniente de laticínios (à esquerda) e de outras fontes de cálcio (à direita). Note-se que existe um aumento do risco no gráfico esquerdo e uma diminuição no gráfico à direita (Aune, et al., 2015).

E se compararmos leite de vaca e leite de amêndoa, o que acontece?

Um estudo de laboratório analisou o que aconteceria se se colocasse diretamente em células da próstata leite orgânico de vaca ou de amêndoa. Os autores utilizaram leite orgânico pois queriam excluir o efeito de hormonas adicionais e testar apenas o efeito das hormonas sexuais naturais do leite (Tate, Bibb, & Larcom, 2011).

O leite de vaca estimulou o crescimento de células cancerígenas da próstata nas 14 experiências realizadas, produzindo em média uma taxa de crescimento tumoral de 30%. Já o leite de amêndoa suprimiu esta taxa em 34% (Tate, Bibb, & Larcom, 2011).

 

“The Food package”

Assim, é muito importante olharmos para os alimentos de uma forma holística, englobando todos os seus componentes. A isto se chama de “food package”. Apesar de alguns alimentos serem ricos num determinado nutriente, o resto dos seus componentes podem não ser os ideais, tornando-o um produto não saudável. O leite é um excelente exemplo, pois apesar de ser uma fonte de cálcio apresenta outros componentes (supra citados) que o tornam um alimento não saúdavel (Kelly & Shull, 2019).

Assim, é importante questionarmo-nos se existem outros alimentos com um melhor “package”!

Então, que outros alimentos são ricos em cálcio? Eis alguns exemplos:

Em conclusão:

  • Aparentemente fontes de cálcio não provenientes de lacticínios não aumentam o risco de desenvolver cancro da próstata;
  • Isto pode dever-se ao facto de existirem outros componentes no leite, para além do cálcio, que fazem com que este e seus derivados promovam o aparecimento desta doença;

Como podemos então prevenir esta patologia através da alimentação? Isto será discutido para a semana. Fiquem atentos!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após eferências bibliográficas.

 

Bibliografia

  • Aune, D., Rosenblatt, D. A., Chan, D. S., Vieira, A. R., Vieira, R., Greenwood, D. C., . . . Norat, T. (2015). Dairy products, calcium, and prostate cancer risk: a systematic review and meta-analysis of cohort studies. Am J Clin Nutr, 101, 87-117.
  • Chan, J. M., & Giovannucci, E. L. (2001). Dairy Products, Calcium, and Vitamin D and Risk of Prostate Cancer. Epidemiologic Reviews, 23(1), 87-92.
  • Park, S.-W., Kim, J.-Y., Kim, Y.-S., Lee, S. J., Lee, S. D., & Chung, M. K. (August de 2014). A Milk Protein, Casein, as a Proliferation Promoting Factor in Prostate Cancer Cells. World J Mens Health, 32(2), 76-82.
  • Qin, L.-Q., Xu, J.-Y., Wang, P.-Y., Kaneko, T., Hoshi, K., & Sato, A. (18 de Nov de 2009). Milk Consumption Is a Risk Factor for Prostate Cancer: Meta-Analysis of Case-Control Studies. Nutrition and Cancer, 48(1), 22-27.
  • Qin, L.-Q., Xu, J.-Y., Wang, P.-Y., Tong, J., & Hoshi, K. (2007). Milk consumption is a risk factor for prostate cancer in Western countries: evidence from cohort studies. Asia Pac J Clin Nutr, 16(3), 467-476.
  • Rawla, P. (2019). Epidemiology of Prostate Cancer. World J Oncol, 10(2), 63-89.
  • Tate, P. L., Bibb, R., & Larcom, L. L. (2011). Milk Stimulates Growth of Prostate Cancer Cells in Culture. Nutrition and Cancer, 63(8), 1361–1366.
  • Yang, M., Kenfield, S. A., Blarigan, E. L., Wilson, K. M., Batista, J. L., Sesso, H. D., . . . Chavarro, J. E. (15 de November de 2015). Dairy intake after prostate cancer diagnosis in relation to disease-specific and total mortality. Int J Cancer, 137(10), 2462–2469.

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