A próstata é um órgão sexual masculino com um tamanho similar ao de uma noz, localizado entre a bexiga e o intestino grosso. É responsável pela produção e armazenamento de um dos líquidos constituintes do sémen (Campbell & Campbell, 2016).

Em 2017 registaram-se em Portugal 1796 mortes devido a tumor maligno neste órgão, correspondendo a 3,2% da mortalidade de homens no país. Segundo a Associação Portuguesa de Urologia, este representa a segunda causa de morte por cancro nos homens, estando o do pulmão em primeiro lugar. Contudo, o cancro da próstata é o mais frequente em homens com idades superiores a 50 anos (Instituto Nacional de Estatística, 2019; Patrício, 2010).

Numa fase inicial este problema pode não apresentar sintomas. Contudo, à medida que este progride, podem surgir sintomas como dificuldade em urinar, necessidade de ir à casa de banho durante a noite, dor durante a micção, urgência em urinar, desconforto/dor pélvica, disfunção erétil ou dor ao ejacular. Dor lombar também pode ocorrer devido a metástases ósseas (Patrício, 2010; Rawla, 2019).

Dentro dos tratamentos utilizados, destacam-se (Patrício, 2010):

  • Cirurgia: remoção da próstata – pode levar a disfunção erétil temporária/permanente, incontinência ou à incapacidade de ejacular. Em casos de patologia avançada pode ter de se realizar a remoção de 1 ou dos 2 testículos;
  • Radioterapia: apresenta os mesmos efeitos secundários que o ponto supracitado. Contudo, estes tendem a surgir de uma forma mais gradual;
  • Braquiterapia: consiste na implantação de “sementes” radioativas na próstata;
  • Terapia hormonal;
  • Quimioterapia: mais em fases avançadas.

Existem vários fatores de risco tais como história familiar, obesidade, tabagismo e hiperplasia prostática, mas o ponto que me chamou mais à atenção no site da Associação Portuguesa de Urologia foi o seguinte (passo a citar): “Alimentação: alguns estudos apontaram o dedo à ingestão excessiva de gorduras animais assim como aos lacticínios”.

Será isto verdade?

Tal como acontece em diversas patologias, verifica-se que (Campbell & Campbell, 2016):

  • A prevalência do cancro da próstata varia de país para país (muito mais que o cancro da mama);
  • Esta prevalência é maior nos países que apresentam uma alimentação e estilos de vida típicas do ocidente;
  • Indivíduos do sexo masculino que emigram para países mais ocidentais tendem a apresentar maior prevalência desta patologia.

Isto indica que, mais do que os genes, existem fatores ambientais, tais como a alimentação, a contribuir para o aparecimento deste problema de saúde (Campbell & Campbell, 2016).

Dietas ricas em carne, lacticínios, açúcares e cereais refinados aumentam o risco de cancro prostático. Gorduras saturadas provenientes destes e de outros alimentos como gelados, óleos de cozinhar e margarina também podem contribuir para este problema de saúde (Patel, 2014).

Em 2001, uma publicação de Chan & Giovannucci, referiu que em 23 estudos científicos, 19 apresentaram uma relação entre o consumo de laticínios e o aumento da probabilidade de se desenvolver cancro da próstata. Nestes estudos, os homens que ingeriam maiores quantidades destes produtos, apresentavam o dobro ou mesmo o quádruplo do risco de desenvolver esta patologia (Chan & Giovannucci, 2001).

Um outro estudo chegou a conclusões idênticas. Neste, o objetivo dos autores era verificar a relação entre o consumo elevado de laticínios e carne e o aumento do risco de se desenvolver cancro da próstata. Eles afirmam que “existe uma correlação entre o consumo per capita de carne e laticínios e o rácio da mortalidade por cancro da próstata”. Em estudos prospetivos e estudos de caso, alimentos ricos em proteína animal tais como carnes, laticínios e ovos estão associados ao aumento do risco de desenvolver este tipo de cancro. A associação dos laticínios com este problema de saúde pode dever-se, em parte, ao cálcio e aos fosfatos que estes alimentos contêm (Giovannucci, 1998).

Segundo os resultados de uma investigação, homens que consomem mais de 3 doses diárias de laticínios têm um risco de mortalidade total 76% superior e um risco de 141% superior de desenvolver cancro da próstata em 10 anos, comparativamente com homens que consomem menos de um produto à base de leite por dia. A ingestão de leite gordo aumenta em 74% o risco de cancro da próstata agressivo. quando comparada com a ingestão de leite magro, e em 73% o risco de reaparecimento desta patologia (Steck, et al., 2018; Tat, et al., 2018; Yang, et al., 2015).

Não sei se estás recordado de um dos meus primeiros artigos onde o cientista T. Colin Campbell demonstrou que era possível ligar e desligar a “tomada do cancro” através da quantidade de proteína utilizada. Note-se que ele utilizou como fonte proteica a caseína, que é a principal proteína presente no leite (constitui cerca de 80%) (Acesso a esse artigo aqui). Interessante será de dizer que, especificamente em relação ao cancro da próstata, um estudo demonstrou que a caseína, em laboratório, promove a proliferação de células tumorais (Park, et al., 2014).

Como é que os laticínios  aumentam o risco de cancro da próstata?

Uma das hormonas que maior impacto apresenta nesta patologia é a IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1). Em condições normais esta regula o crescimento celular (produção de novas células e eliminação de células “velhas”). Contudo, com condições não favoráveis, esta hormona pode-se tornar mais ativa, aumentando a produção de novas células e diminuindo a eliminação de células antigas. Esta desregulação pode originar problemas de saúde (Campbell & Campbell, 2016).

A IGF-1 é, por isso, um indicador de problemas de saúde incluindo o cancro. Estudos demonstraram uma relação entre a quantidade de IGF-1 no sangue e o risco de cancro da próstata. De facto, de acordo com os resultados de um desses estudos, os indivíduos com quantidades elevadas de IGF-1 no sangue apresentam um risco de 5,1 vezes maior de desenvolver esta patologia. Esta hormona pode ainda facilitar a invasão e metástase das células tumorais (Campbell & Campbell, 2016; Chan & Giovannucci, 2001; Ventura, et al., 2019).

Podemos aumentar os níveis de IGF-1 através do consumo de produtos animais e laticínios. Tal como referido num artigo anterior (clica aqui), esta hormona é uma das que se encontra presente no leite de vaca (Campbell & Campbell, 2016; Malekinejad & Rezabakhsh, 2013).

Um estudo concluiu que os participantes que ingeriam produtos de origem animal apresentavam concentrações de IGF-1 no sangue 9% superiores em comparação com os participantes que tinham uma alimentação vegana (Allen, Appleby, Davey, & Key, 2000).

—–

Uma outra hipótese considerada por alguns autores é a associação entre o cancro da próstata e a vitamina D. As quantidades desta vão variar consoante a exposição solar e alimentação adotada pelos indivíduos (Campbell & Campbell, 2016; Chan & Giovannucci, 2001; Giovannucci, 1998; Stampfer, et al., 2001).

Quando o nosso corpo recebe vitamina D, um conjunto de reações químicas ocorrem (Giovannucci, 1998):

Note-se que a segunda reação química só ocorrerá aquando das necessidades do corpo (Campbell & Campbell, 2016).

Em termos diatéticos, a quantidade de V 1.25D varia de acordo com a quantidade de cálcio e fosfatos. Assim, quando há uma diminuição do cálcio, esta vitamina vai atuar ao nível dos ossos, rins e intestinos de forma a haver um aumento da absorção de cálcio até este atingir valores normais. Contudo, quando há um aumento do cálcio no organismo, ocorre uma inibição da produção desta vitamina. O mesmo processo acontece em relação aos fosfatos (Chan & Giovannucci, 2001; Giovannucci, 1998; Stampfer, et al., 2001). .

Tal como referido num artigo anterior (clica aqui), o consumo de proteína animal potencia a produção de ácidos, fazendo com que haja uma perda do cálcio dos ossos para a corrente sanguínea (processo este que se ocorrer cronicamente pode levar a problemas de ossos tal como a Osteoporose) e, mais uma vez este aumento vai inibir a produção de V1.25 D, havendo uma diminuição da sua quantidade no sangue, aumentando o risco de cancro da próstata (Abelow, Holford, & Insogna, 1992; Campbell & Campbell, 2016; Giovannucci, 1998).

Assim, que alimentos apresentam proteína animal e grandes quantidades de cálcio? O leite e outros laticínios! Daí que haja imensa evidência científica a demonstrar a relação entre este tipo de alimentos com o cancro da próstata (Aune, et al., 2015; Chan & Giovannucci, 2001; Giovannucci, 1998; Nilsson, et al., 2020; Park, et al., 2014; Stampfer, et al., 2001; Steck, et al., 2018; Tat, et al., 2018; Ventura, et al., 2019).

Interessante será de dizer que num relatório da “World Cancer Research Fund / American Institute of Cancer Research” esta relação entre laticínios e cancro da próstata foi estabelecida. Contudo, nenhuma recomendação foi feita no sentido das pessoas reduzirem o consumo destes produtos (Aune, et al., 2015).

Então, se estes produtos aumentam o risco de desenvolver esta patologia é óbvio que se reduzirmos o seu consumo estamos a diminuir os riscos de a desenvolver. Contudo a minha grande questão é: Existem várias fontes de cálcio para além do leite. Será que esses alimentos também aumentam o risco de desenvolver cancro da próstata?

Isto será discutido para a semana, fiquem atentos!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Abelow, B. J., Holford, T. R., & Insogna, K. L. (1992). Cross-Cultural Association Between Dietary Animal Protein and Hip Fracture: A Hypothesis. Calcif Tissue Int, 50, 14-18.
  • Allen, N., Appleby, P., Davey, G., & Key, T. (2000). Hormones and diet: low insulin-like growth factor-I but normal bioavailable androgens in vegan men. British Journal of Cancer, 83(1), 96-97.
  • Aune, D., Rosenblatt, D. A., Chan, D. S., Vieira, A. R., Vieira, R., Greenwood, D. C., . . . Norat, T. (2015). Dairy products, calcium, and prostate cancer risk: a systematic review and meta-analysis of cohort studies. Am J Clin Nutr, 101, 87-117.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Chan, J. M., & Giovannucci, E. L. (2001). Dairy Products, Calcium, and Vitamin D and Risk of Prostate Cancer. Epidemiologic Reviews, 23(1), 87-92.
  • Chan, J. M., Stampfer, M. J., Ma, J., Gann, P., Gaziano, J. M., Pollak, M., & Giovannucci, E. (17 de July de 2002). Insulin-Like Growth Factor-I (IGF-I) and IGF Binding Protein-3 as Predictors of Advanced-Stage Prostate Cancer. Journal of the National Cancer Institute, 94(14), 1099-1106.
  • Giovannucci, E. (1998). Dietary in¯uences of 1,25(OH)2 vitamin D in relation to prostate cancer: A hypothesis. Cancer Causes and Control, 9, 567-582.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2019). Causas de morte 2017. Lisboa, Portugal: Instituto Nacional de Estatística.
  • Malekinejad, H., & Rezabakhsh, A. (June de 2013). Hormones in Dairy Foods and Their Impact on Public Health- A Narrative Review Article. Iranian Journal of Public Health, 44, 742-758.
  • Nilsson, L. M., Winkvist, A., Esberg, A., Jansson, J.-H., Wennberg, P., Guelpen, B. v., & Johansson, I. (2020). Dairy Products and Cancer Risk in a Northern Sweden Population. Nutr Cancer, 72(3), 409-420.
  • Park, S.-W., Kim, J.-Y., Kim, Y.-S., Lee, S. J., Lee, S. D., & Chung, M. K. (August de 2014). A Milk Protein, Casein, as a Proliferation Promoting Factor in Prostate Cancer Cells. World J Mens Health, 32(2), 76-82.
  • Patel, V. H. (2014). Nutrition and prostate cancer: an overview. Expert Rev. Anticancer Ther, 14(11), 1295–1304.
  • Patrício, A. A. (Abril de 2010). Cancro da Próstata. Obtido de Associação Portuguesa de Urologia: https://www.apurologia.pt/publico/frameset.htm?https://www.apurologia.pt/publico/cancro_da_prostata.htm
  • Rawla, P. (2019). Epidemiology of Prostate Cancer. World J Oncol, 10(2), 63-89.
  • Stampfer, M. J., Chan, M., Ma, J., Giovannucci, E. L., Gann, P. H., & Gaziano, J. M. (2001). Dairy products, calcium, and prostate cancer risk in the Physicians’ Health Study. Am J Clin Nutr, 74, 549–54.
  • Steck, S. E., Omofuma, O. O., Su, L. J., Maise, A. A., Woloszynska-Read, A., Johnson, C. S., . . . Arab, L. (1 de May de 2018). Calcium, magnesium, and whole-milk intakes and high- aggressive prostate cancer in the North Carolina- Louisiana Prostate Cancer Project (PCaP). Am J Clin Nutr, 107(5), 799-807.
  • Tat, D., Kenfield, S. A., Cowan, J. E., Broering, J. M., Carroll, P. R., E. L., & Chan, J. M. (January de 2018). Milk and other dairy foods in relation to prostate cancer recurrence: data from the Cancer of the Prostate Strategic Urologic Research Endeavor (CaPSURE™). Prostate, 78(1), 32–39.
  • Ventura, E. R., Konigorski, S., Rohrmann, S., Schneider, H., Stalla, G. K., Pischon, T., . . . Nimptsch, K. (14 de May de 2019). Association of dietary intake of milk and dairy products with blood concentrations of insulin‑like growth factor 1 (IGF‑1) in Bavarian adults. European Journal of Nutrition, 39(4), 1413-1420.
  • Yang, M., Kenfield, S. A., Blarigan, E. L., Wilson, K. M., Batista, J. L., Sesso, H. D., . . . Chavarro, J. E. (15 de November de 2015). Dairy intake after prostate cancer diagnosis in relation to disease-specific and total mortality. Int J Cancer, 137(10), 2462–2469.

 

Achas-te a informação útil?

Carrega na estrela para avaliares este artigo

Média de estrelas dadas 5 / 5. Avaliações 3

Sem avaliações. Sê o primeiro!

Ajuda a espalhar a informação desta página! 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *