No artigo da semana passada, referiu-se alguma evidência científica por detrás dos tratamentos da quimioterapia no tratamento do cancro. Não sei qual a vossa opinião, mas a mim aquilo frustrou-me.

Eu sei… eu sei… Todos nós sabemos que a quimio tem efeitos secundários e que também mata as células boas, mas saber que realmente pode não ter grandes benefícios e promover o aparecimento de cancro mexeu comigo… Saber que o meu pai foi submetido  tratamento após tratamento e que este apenas o ajudou por um par de meses e lhe causou tanto sofrimento, frustra-me…

Acredito que não seja difícil pensares em alguém que conheças que tenha morrido de cancro. Eu, pelo menos conheço imensa gente e só da minha família faleceram mais de 6 pessoas. Assim, o que é que podemos fazer? Podemos prevenir? Será que está nos nossos genes? Podemos reverter o cancro?

T. Colin Campbell refere no seu livro uma coisa muito interessante:

Os genes são como uma semente. A semente só nasce se receber água, luz solar e se o solo onde se encontra for fértil. Se estas condições não estão reunidas, a semente não se vai desenvolver. Mais se acrescenta que, mesmo que inicialmente haja condições para essa semente crescer, se estas condições se alterarem, esta pode acabar por morrer (Campbell & Campbell, 2016).

Isto quer dizer que apesar de podermos ter alguns genes que podem ser tumorais, eles só se vão desenvolver se lhes dermos as condições ideais!

Se segues a minha página há algum tempo já deves ter lido alguns artigos sobre antioxidantes! Estes são compostos extremamente importantes para combater o stress oxidativo que é um fenómeno que ocorre em todas as doenças e contribui também para o envelhecimento do corpo. E sabes quais são os alimentos ricos em antioxidantes?

Antioxidantes e cancro:

O cancro é a segunda patologia a nível mundial com maior mortalidade. Anualmente ocorrem mais de 14.2 milhões de novos casos e 8.2 milhões de mortes a nível mundial e, estima-se que até ao final do ano de 2030 este número aumento para 21.7 milhões de casos e 13 milhões de mortes por ano a nível mundial. Assim, o que podemos fazer em relação a isto (Campbell & Campbell, 2016) (Baby, Antony, & Vijayan, 2017)?

As frutas, especialmente as bagas e frutos vermelhos (morangos, framboesas, amoras, amla, entre outros), são uma excelente fonte de antioxidantes. O seu consumo em doses recomendadas reduz o risco de variadas patologias entre as quais cancro, diabetes mellitus tipo 2, obesidade e problemas cardiovasculares (Baby, Antony, & Vijayan, 2017).

Recomenda-se que se comam pelo menos 5 doses de frutas e vegetais por dia. Contudo, um estudo publicado em 2017 concluiu que comer 10 doses é ainda melhor! De facto, comer 10 doses de frutas e vegetais por dia (cerca de 800g) foi associado a uma redução de 24% do risco de problemas de coração, 33% do risco de AVC’s, 13% do risco de cancro e 31% do risco de morte prematura (Aune, et al., 2017; Boseley, 2017; Wark, 2018)!

Não sei se reparaste, mas a Amla (groselha indiana – indian gooseberry) foi o segundo alimento que apresentou mais antioxidantes na tabela supra indicada. Hoje este fruto vai estar no centro das atenções!

A amla é bastante utilizada na medicina tradicional indiana sozinha ou em combinação com outras plantas. Apresenta diversas propriedades tais como capacidade de reduzir a febre, tosse e dor, reduzir a formação de placa aterosclerótica, reduzir o colesterol, tem propriedades anti-anémicas e anti-inflamatórias e capacidade de reduzir diarreias e acelerar o saramento de feridas. A amla fortalece o sistema imunitário e protege diversos órgãos tais como o estômago, o fígado, os rins e o cérebro. Pode ainda ajudar a proteger-nos contra os efeitos secundários da quimioterapia e radioterapia, sendo estas apenas alguns dos seus benefícios (Baliga & Dsouza, 2011)!…

Este fruto é riquíssimo em vitamina C, muito mais que as laranjas, tangerinas ou limões (Baliga & Dsouza, 2011)!

Amla no combate contra o cancro:

O tratamento ideal para o cancro é um que mate as células tumorais, mas que não influencie as células boas.

Um estudo analisou o efeito de extrato de amla em amostras de células cancerígenas humanas de 6 tipos de cancro diferentes: pulmão, fígado, cérvix, mama, ovário e cólon. Eis os resultados (figura 1) (Ngamkitidechakul, Jaijoy, Hansakul, Soonthornchareonnon, & Sireeratawong, 2010):

No início da intervenção a percentagem  de crescimento tumoral dos 6 tipos de cancro foi de 100%, mas quanto mais amla foi utilizada nestas células, maior foi a redução da percentagem de crescimento tumoral. De facto, esta percentagem reduziu de forma drástica para valores abaixo de 0%! Isto indica que houve uma inibição total do crescimento de todos os tipos células tumorais analisadas (Ngamkitidechakul, Jaijoy, Hansakul, Soonthornchareonnon, & Sireeratawong, 2010)!

Figura 1 Verifica-se nestes gráficos uma redução da % de crescimento de células tumorais em 6 tipos de células tumorais à medida que a quantidade de amla utilizada aumentou. Células tumorais analisadas: A549 (pulmão), HepG2 (fígado), HeLa (cervix), MDA-MB-231 (mama), SK-OV3 (ovário) e SW620 (cólon) (Ngamkitidechakul, Jaijoy, Hansakul, Soonthornchareonnon, & Sireeratawong, 2010)

E sabes qual é a melhor parte deste estudo? Os autores também decidiram analisar o que aconteceria às células normais aquando da interação com a amla (utilizaram células pulmonares) e apenas se observou uma pequena redução na quantidade de células, o que indica que a amla não foi tóxica para as células normais (figura 2) (Ngamkitidechakul, Jaijoy, Hansakul, Soonthornchareonnon, & Sireeratawong, 2010).

Figura 2 Percentagem de crescimento de células do pulmão normais (MRC5) aquando aumento da quantidade de extrato de amla (Ngamkitidechakul, Jaijoy, Hansakul, Soonthornchareonnon, & Sireeratawong, 2010)

Os mesmos autores também quiseram analisar a capacidade de metastização de células tumorais da mama humana aquando da aplicação de extrato de amla (quantidades utilizadas 25 e 50 µg/ml) ou Taxol (é um medicamento utilizado na quimioterapia) e verificou-se que as células que não receberam nem amla nem Taxol tiveram uma taxa de metastização de 100%. Contudo, tanto a amla como o Taxol apresentaram resultados similares, tendo havido uma redução de 40% da taxa de metastização (figura 3)! Os autores concluíram que a amla deve ser utilizada como tratamento complementar do cancro. Isto é excelente, pois a ingestão deste fruto não apresenta os efeitos secundários da quimioterapia!

Figura 3 Percentagem de metastização de células da mama humanas tumorais aquando aplicação de amla (PE) e Taxol vs controlo (Ngamkitidechakul, Jaijoy, Hansakul, Soonthornchareonnon, & Sireeratawong, 2010)

Apesar deste estudo ter sido “in vitro” apresentou resultados fascinantes. Contudo, serão necessários estudos em humanos para realmente se verem os efeitos que este fruto pode ter no combate ao cancro.

Contudo, existem estudos realizados em humanos relacionados com outras patologias. Vamos explorar alguns:

Amla e refluxo gástrico:

O refluxo gastro esofágico (RGE) é um problema do sistema digestivo bastante comum a nível mundial. Os principais sintomas são: dor abdominal, que por vezes pode irradiar até à boca e refluxo do conteúdo do estômago para o esófago, causando um sabor desagradável na garganta e azia (Clarrett & Hachem, 2018; Varnosfaderani, et al., 2018).

Um estudo randomizado dividiu 68 indivíduos com RGE em dois grupos: intervenção (2 comprimidos de 500 mg de amla duas vezes por dia durante 4 semanas) e controlo (prescrição igual ao grupo anterior, mas com medicamento sem efeito terapêutico). No final do estudo, apesar de ambos os grupos terem melhorado, o grupo que ingeriu amla apresentou melhores resultados (houve uma redução de sintomas de quase 50%) (Varnosfaderani, et al., 2018)!

Amla e níveis de açúcar, colesterol e gordura no sangue:

Os resultados de uma investigação que incluiu 16 indivíduos com Diabetes tipo 2 e 16 indivíduos saudáveis com idades e sexos idênticos, demonstrou que a ingestão de apenas 1-3g de amla em pó por dia reduziu em ambos os grupos de forma significativa a quantidade de açucares, de gorduras e de colesterol LDL (o mau) no sangue de ambos os grupos em apenas 21 dias (AKHTAR, AYESHA, AL, & AHMAD, 2011)! Note-se que esta quantidade é inferior a uma colher de chá!

Os participantes de uma outra investigação que tinham um aumento da quantidade de gorduras no sangue no início do estudo e ingeriram cápsulas de amla (0.5g) durante 12 semanas, apresentaram melhorias do seu colesterol total, colesterol-LDL e da quantidade de gorduras no sangue (triglicerídeos) em comparação com o grupo placebo. Os autores concluíram que a ingestão de amla pode ser uma alternativa segura à toma de estatinas (medicamentos que ajudam a reduzir o colesterol e a quantidade de gorduras no sangue) pois esta não apresenta efeitos secundários (figura 4) (Upadya, et al., 2019).

Figura 4 Alteração da quantidade de triglicerídeos, colesterol total e colesterol LDL entre grupo que ingeriu cápsulas de amla vs placebo no início e final do estudo (Upadya, et al., 2019)

A Síndrome Metabólica (SM) consiste na presença de pelo menos 2 fatores de risco cardiovasculares numa só pessoa. Estes fatores de risco incluem: obesidade abdominal, resistência à insulina, aumento da quantidade de gorduras no sangue (dislipidemia), aumento da tensão arterial e da inflamação sistémica. Esta síndrome afeta cerca de 25% da população (Kapoor, Suzuki, Derek, Ozeki, & Okubo, 2020; Usharani, Merugu, & Nutalapati, 2019).

59 Indivíduos com SM foram divididos em 3 grupos. Ao longo de 12 semanas, tiveram de tomar duas vezes por dia comprimidos de extrato de amla (um grupo a tomar 250 mg e outro 500 mg) ou placebo. No final do estudo, verificou-se uma redução significativa da disfunção endotelial[1], da inflamação sistémica, do stress oxidativo, do colesterol total e da quantidade de gorduras no sangue nos grupos que tomaram a amla, especialmente no que a ingeriu em maiores doses. Um estudo realizado em 2020 em indivíduos normais também demonstrou uma redução do stress oxidativo e uma melhoria da função endotelial aquando da ingestão de amla (Kapoor, Suzuki, Derek, Ozeki, & Okubo, 2020; Usharani, Merugu, & Nutalapati, 2019).

Os únicos problemas da amla é que não é fácil de se arranjar e o fruto em si é muito amargo. Não sei o que pensas, mas eu depois de saber isto, a primeira coisa que fiz foi comprar este fruto! Eu compro amla orgânica em pó e tomo-a todos os dias com os meus smoothies ou diluída em água.

Podes arranjá-la aqui: https://amzn.to/3kApphg

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • AKHTAR, M. S., A. R., AL, A., & AHMAD, M. (2011). Effect of Amla fruit (Emblica officinalis Gaertn.) on blood glucose and lipid profile of normal subjects and type 2 diabetic patients. International Journal of Food Sciences and Nutrition, 62(6), 609–616.
  • Aune, D., Giovannucci, E., Boffetta, P., Fadnes, L. T., Keum, N., Norat, T., . . . Tonsta, S. (2017). Fruit and vegetable intake and the risk of cardiovascular disease, total cancer and all cause mortality—a systematic review and dose response meta-analysis of prospective studies. International Journal of Epidemiology, 1029–1056.
  • Baby, B., Antony, P., & Vijayan, R. (2017). Antioxidant and anticancer properties of berries. Food Science and Nutrition.
  • Baliga, M. S., & Dsouza, J. J. (2011). Amla (Emblica officinalis Gaertn), a wonder berry in the treatment and prevention of cancer. European Journal of Cancer Prevention, 20(3), 225-239.
  • Boseley, S. (Feb de 2017). The Guardian. Obtido de Forget five a day, eat 10 portions of fruit and veg to cut risk of early death: https://www.theguardian.com/society/2017/feb/23/five-day-10-portions-fruit-veg-cut-early-death
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Clarrett, D. M., & Hachem, C. n. (May/June de 2018). Gastroesophageal Refl ux Disease (GERD). Science of Medicine| Feature Series, 115(3), 214-218.
  • Kapoor, M. P., Suzuki, K., Derek, T., Ozeki, M., & Okubo, T. (2020). Clinical evaluation of Emblica Officinalis Gatertn (Amla) in healthy human subjects: Health benefits and safety results from a randomized, double-blind, crossover placebo-controlled study. Contemporary Clinical Trials Communications, 17.
  • Ngamkitidechakul, C., Jaijoy, K., Hansakul, P., Soonthornchareonnon, N., & Sireeratawong, S. (2010). Antitumour Effects of Phyllanthus emblica L.: Induction of Cancer Cell Apoptosis and Inhibition of In Vivo Tumour Promotion and In Vitro Invasion of Human Cancer Cells. PHYTOTHERAPY RESEARCH, 24, 1405–1413.
  • Upadya, H., Prabhu, S., Prasad, A., Subramanian, D., Gupta, S., & Goel, A. (2019). A randomized, double blind, placebo controlled, multicenter clinical trial to assess the efficacy and safety of Emblica officinalis extract in patients with dyslipidemia. BMC Complementary and Alternative Medicine, 19(27).
  • Usharani, P., Merugu, P. L., & Nutalapati, C. (2019). Evaluation of the effects of a standardized aqueous extract of Phyllanthus emblica fruits on endothelial dysfunction, oxidative stress, systemic inflammation and lipid profile in subjects with metabolic syndrome: a randomised, double blind, placebo contro. BMC Complementary and Alternative Medicine, 19(97).
  • Varnosfaderani, S. K., Hashem-Dabaghian, F., Amin, G., Bozorgi, M., Heydarirad, G., Nazem, E., . . . Mosavat, S. H. (2018). Efficacy and safety of Amla (Phyllanthus emblica L.) in non-erosive reflux disease: a double-blind, randomized, placebo-controlled clinical trial. Journal of Integrative Medicine.
  • Wark, C. (2018). Chris Beat Cancer.

[1] Para mais informações sobre disfunção endotelial clica aqui.

 

Achas-te a informação útil?

Carrega na estrela para avaliares este artigo

Média de estrelas dadas 5 / 5. Avaliações 5

Sem avaliações. Sê o primeiro!

Ajuda a espalhar a informação desta página! 🙂

One Reply to “Amla e as suas maravilhosas propriedades”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *