Há uns meses atrás li o livro “Chris Beat Cancer” e simplesmente ADOREI!. Chris foi diagnosticado com cancro do intestino de grau 4 aos 26 anos e, após mudar radicalmente os seus estilos de vida e hábitos alimentares e adotar uma alimentação à base de plantas  conseguiu reverter esta doença. Está há mais de 15 anos sem cancro!!

O seu livro é mesmo inspirador, mas também muito revelador… Contém informação que me tocou bastante, mas que também me frustrou face aos tratamentos oncológicos e farmacológicos. Não sei se sabes, mas o meu pai morreu de cancro cerebral e, tal como a maioria, também fez quimioterapia que apenas resultou durante um par de meses. O que li neste livro frustrou-me imenso… Assim, hoje vou falar de alguns aspetos lá referidos que acho de extrema importância!

Como é que as empresas farmacêuticas realmente funcionam?

As empresas farmacêuticas podem ser descritas como empresas que pretendem arranjar patentes para certos medicamentos, de forma a ganharem dinheiro aquando da sua venda. Apesar de todos os anos inúmeros estudos científicos indicarem que muitas patologias e muitas mortes poderiam ser prevenidas através de alterações dos estilos de vida e hábitos alimentares das pessoas, estes são ignorados. E porquê? Porque não dão dinheiro. Estas empresas não iriam fazer dinheiro se se prescrevessem alterações alimentares, exercício físico e métodos para redução de stress à população. Assim, elas só se focam em estudos científicos que as ajudem a criar patentes para certos medicamentos (Wark, 2018).

Penso que quando tomamos um medicamente esperamos que ele funcione. Mas muitas vezes isso não acontece e por vezes ainda temos que “levar” com os seus efeitos secundários que podem ser bastante desagradáveis! Devido a isto, depois temos que tomar um novo medicamento para combater esses efeitos que, por sua vez também pode trazer outros efeitos secundários e, acabamos por ter uma quantidade enorme de fármacos para tomar que, geralmente não são nada baratos.

Idealmente, a decisão para a realização, ou não, de quimioterapia, deve-se basear em 2 questões: O tratamento prolonga a taxa de sobrevivência? O tratamento contribui para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes? (Abel, 1992).

Em 1992, Ulrich Abel publicou um artigo no qual examinou a influencia da quimioterapia no tratamento de cancros presentes em células epiteliais (designam-se de carcinomas). Este tipo de cancro é responsável por 80% das mortes a nível mundial e inclui tumores malignos da traqueia, brônquios, pulmões, estômago, cólon e reto, esófago, mama, bexiga, pâncreas, ovário, cérvix, cólon do útero, fígado, cabeça e pescoço. Ele também entrevistou cerca de 350 oncologistas de todo o mundo. Eis uma citação traduzida do artigo (Abel, 1992):

“À exceção do cancro do pulmão, especialmente o cancro das células pequenas no pulmão, não existe evidência direta que a quimioterapia prolonga a taxa de sobrevivência em pacientes com carcinoma avançado… Muitos oncologistas acreditam que a quimioterapia prolonga a taxa de sobrevivência, o que é uma opinião baseada em falácias e não é suportada pela evidencia científica… Apesar de algumas exceções, não existe evidência científica para se aplicar quimioterapia em pacientes que carcinoma avançado sem sintomas” (Abel, 1992).

O que Abel disse foi “esquecido”, pois ao longo dos anos, mais fármacos para tratamento do cancro surgiram no mercado. Mas… Será que estes aumentaram a qualidade de vida ou a taxa de sobrevivência dos pacientes?… Vamos ver…

Uma meta-análise analisou 48 novos medicamentos para tratamento de variados tipos de cancro aprovados pela “European Medicines Agency” entre os anos de 2009-2013. 65% desses medicamentos não revelaram ter qualquer efeito positivo na taxa de sobrevivência. Os resultados deste estudo indicam que (passo a traduzir) “a maioria dos medicamentos que entraram no mercado não demonstraram aumentar a taxa de sobrevivência e qualidade de vida” dos indivíduos com cancro. Acrescenta-se ainda, que grande parte destes medicamentos são bastante caros, excedendo os 5.000-10.000 euros por mês. Os autores deste artigo ainda afirmam que “quando medicamentos caros e que não demonstram ter grandes benefícios são aprovados e pagos pelos sistemas de saúde, cada paciente pode ser prejudicado” (C, et al., 2017; Davis, et al., 2017).

Glenn Begley, um investigador da área do cancro que trabalha numa empresa farmacológica tentou replicar 53 publicações de fármacos para tratamento do cancro, de forma a perceber se eles seriam confiáveis. Contudo, 47 dessas publicações não puderam ser replicadas nem mesmo após 50 tentativas. Um outro cientista tentou fazer o mesmo em 2011 com outros 47 artigos científicos e desses, menos de ¼ conseguiram ser replicados (Begley, 2012).

O Avastin (bevacizumab) foi um medicamento bastante utilizado no tratamento de cancro da mama metastizado. Contudo, há uns anos, a INFARMED proibiu a sua venda em hospitais públicos, pois este medicamento não demonstrou ser eficaz ou seguro e não apresentou nenhuma vantagem financeira. O mesmo aconteceu nos Estados Unidos. De facto, a comissária da “Food and Drug Administration – FDA” afirma que “mulheres que tomem Avastin para tratamento de cancro da mama metastizado podem potencialmente apresentar efeitos secundários que podem pôr a sua vida em risco, não existindo provas que o uso de Avastin traga benefícios, tais como atraso no crescimento do tumor… Não existe evidência que o uso de Avastin aumente o tempo de sobrevivência ou a qualidade de vida destas mulheres”. Dentro dos efeitos secundários, destacam-se: aumento da tensão arterial, hemorragias, ataques cardíacos ou insuficiência cardíaca, perfurações do nariz, estômago e intestinos (AARC, 2011; INFARMED, s.d.; Infarmed, s.d.).

Uma meta-análise que incluiu 16 estudos randomizados, concluiu que os pacientes que tomaram Avastin e fizeram quimioterapia ao mesmo tempo, apresentaram um risco de 50% de morrerem por complicações associadas ao medicamento em comparação com os que apenas foram submetidos a quimioterapia. Este risco aumentou para o triplo aquando da toma de Avastin + terapia biológica (National Cancer Institute, 2011; Ranpura, Hapani, & Wu, 2011).

Para além de tudo isto, surpreendeu-me saber que a quimioterapia pode causar cancro. Este tipo de tratamento faz com que células cancerígenas possam migrar e invadir mais facilmente outras partes do corpo, afetando, também, células não cancerígenas. Os macrófagos são células do sistema imunitário que, normalmente, ajudam a combater o cancro, pois promovem a destruição de células cancerígenas. Contudo, na presença de um tumor, os genes destas células são alterados e estas, em vez de destruírem o cancro, vão fazer exatamente o oposto! Estes macrófagos alterados apresentam o nome de “Tumor-associated macrophages – TAMs) e uma das suas funções é diminuir a imunidade, pois eles vão inibir a ação das células do sistema imunitário (Middleton, Stover, & Hai, 2018).

O pior disto tudo é que alguns medicamentos utilizados em quimioterapia aumentam a quantidade de TAMs que o corpo forma, o que é bastante preocupante, pois estes são utilizados para combater um cancro e podem, mais uma vez, fazer exatamente o oposto. Acrescenta-se ainda que este tipo de tratamento altera os vasos linfáticos e sanguíneos, fazendo com que células tumorais entrem mais facilmente na circulação, aumentando o risco de metástase (Middleton, Stover, & Hai, 2018).

Um outro problema deste tipo de tratamentos é que os cancros ficam resistentes à quimioterapia. Isto acontece em mais de 90% dos pacientes com cancros metastizados. Quando as células “boas” são afetadas pela quimioterapia vão segregar uma proteína designada WNT16B. Esta vai potenciar o crescimento das células tumorais, tornando-as mais resistentes ao tratamento. Isto foi demonstrado num estudo em pacientes com cancro da próstata onde a presença desta proteína promoveu a sobrevivência das células tumorais após quimioterapia e potenciou a progressão desta patologia (Sun, et al., 2012; Wark, 2018).

Existem variados tipos de cancro da mama que vão depender do seu recetor molecular que pode ser um recetor de estrogénio, de progesterona ou Receptor 2 do fator de crescimento da Epiderme Humana – HER2. Estas diferencas podem fazer com que os prognósticos e tratamentos sejam diferentes de mulher para mulher (Xie, et al., 2019).

Figura 1 Tipos de cancro da mama consoante recetor molecular, probabilidade de metastização e prognóstico (Xie, et al., 2019)

O Tamoxifen é um medicamento utilizado no tratamento de cancro da mama de recetor de estrogénio positivos (ER+) e ajuda a reduzir o risco do seu reaparecimento. Contudo, existe evidência científica a demonstrar que, apesar de reduzir este risco, o seu uso a longo prazo aumenta o risco de se desenvolver cancro da mama de recetor de estrogénio negativo (ER-) que é um tipo de cancro que apresenta mau prognóstico por ser mais agressivo. Mulheres que apresentem um tumor ER- têm o dobro do risco de morrer de cancro quando comparadas com as que apresentam um tumor ER+. De facto, os resultados de um estudo demonstraram que as participantes que tomaram Tamoxifen durante 5 anos apresentaram um risco 4 vezes maior de desenvolver cancro ER- na mama oposta  e 5.9 vezes maior risco de desenvolver cancro do tipo ER-/PR- também na mama oposta (PR- significa cancro de recetor de progesterona negativo) (Li, Daling, Porter, Tang, & Malone, 2009).

Por vezes, é oferecida quimioterapia a indivíduos em fase terminal, de forma a melhorar a sua qualidade de vida e taxa de sobrevivência. Um estudo publicado em 2015 demonstrou exatamente o oposto! Os indivíduos cujo prognóstico era terem menos de 6 meses de vida não apresentaram melhorias na sua taxa de sobrevivência ou da sua qualidade de vida, em comparação com os que não foram submetidos a este tipo de tratamento. Para além disso, os indivíduos que inicialmente apresentaram melhor qualidade de vida acabaram por piorar aquando administração da quimio (Prigerson, et al., 2015).

Apesar de novos medicamentos e tratamentos terem surgido no mercado nos últimos 50 anos, as indústrias farmacêuticas ainda não conseguiram melhorar a taxa de sobrevivência de forma significativa (Wark, 2018).

Segundo um estudo de 2013, a quantidade de pacientes com cancro metastizado de estômago aumentou de 24% em 1990 para 44% em 2011. Apesar de durante este tempo o tratamento paliativo com quimioterapia ter aumentado de forma drástica (de 5% para 36%), não houveram melhorias na taxa de sobrevivência destes pacientes. Isto é, a taxa de sobrevivência, durante 20 anos, permaneceu entre 15-17 meses após diagnóstico (figura 2) (Bernards, et al., 2013).

Figura 2 Nesta imagem verifica-se que a taxa de sobrevivência de indivíduos com cancro metastizado de estomago não alterou durante 20 anos (Bernards, et al., 2013)

Assim, as empresas farmacêuticas ainda têm muito trabalho pela frente para tentar arranjar alternativas para melhorar a eficácia da quimioterapia. Contudo, isto pode demorar anos até ocorrer…

Faço minhas as palavras do Chris: “Apesar de criticar a indústria farmacêutica relativa ao cancro eu não sou anti-médico ou anti-quimio. Eu sou a favor da vida, da saúde e da cura. É importante ser implementada qualquer estratégia ou tratamento que promova saúde e cura. Qualquer terapia que é destrutiva, que aparenta fazer mais mal que bem e que apresenta pouca evidência científica a demonstrar os seus benefícios a longo prazo deve ser vista com precaução e ser bastante ponderada… A minha intenção não é que não sigas os tratamentos convencionais. Em vez disso, quero dar-te conhecimento para que tu tomes uma decisão informada e que seja a melhor decisão para ti” (Wark, 2018).

Agora a questão é: pode a alimentação ajudar no cancro? Quais os alimentos que melhor fazem? Fiquem atenntos ao próximo artigo!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • AARC. (23 de November de 2011). FDA Pulls Approval for Avastin in Breast Cancer. Obtido de CANCER DISCOVERY.
  • Abel, U. (1992). Chemotherapy for advanced epithelial cancer – a critical review. Biomed & Pharmacother, 46, 439-452.
  • Begley, S. (28 de March de 2012). In cancer science, many “discoveries” don’t hold up. Obtido de SCIENCE & SPACE: https://www.reuters.com/article/us-science-cancer/in-cancer-science-many-discoveries-dont-hold-up-idUSBRE82R12P20120328
  • Bernards, N., Creemers, G. J., Nieuwenhuijzen, G. A., Bosscha, K., Pruijt, J. F., & Lemmens, V. E. (2013). No improvement in median survival for patients with metastatic gastric cancer despite increased use of chemotherapy. Annals of Oncology, 3056-60.
  • C, D., H, N., E, G., E, P., A, P., & A, A. (2017). Re: Availability of Evidence of Benefits on Overall Survival and Quality of Life of Cancer Drugs Approved by European Medicines Agency: Retrospective Cohort Study of Drug Approvals 2009–2013. European Urology.
  • Davis, C., Naci, H., Gurpinar, E., Poplavska, E., Pinto, A., & Aggarwal, A. (2017). Availability of evidence of benefits on overall survival and quality of life of cancer drugs approved by European Medicines Agency: retrospective cohort study of drug approvals 2009-13. The BMJ, 359.
  • Infarmed. (s.d.). RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO PRÉVIA DE MEDICAMENTO PARA USO HUMANO EM MEIO HOSPITALAR. Obtido de Infarmed: https://www.infarmed.pt/documents/15786/1424140/035_Bevacizumab_ParecerNet.pdf/9adf51ce-04d5-4b73-bc81-9d40d413690a?version=1.0
  • INFARMED. (s.d.). RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO PRÉVIA DO MEDICAMENTO PARA USO HUMANO EM MEIO HOSPITALAR. Obtido de Infarmed: https://www.infarmed.pt/documents/15786/1424140/Relat%ff%ffrio%2bp%ff%ffblico%2bde%2bavalia%ff%ff%ff%ffo%2bde%2bAvastin%2b%28bevacizumab%29%2b2018/6c14975e-768b-498f-8403-d266e9a4df73
  • Li, C. I., Daling, J. R., Porter, P. L., Tang, M.-T. C., & Malone, K. E. (2009). Adjuvant Hormonal Therapy for Breast Cancer and Risk of Hormone Receptor–Specific Subtypes of Contralateral Breast Cancer. Cancer Res, 69(17), 6865-6870.
  • Middleton, J. D., Stover, D. G., & Hai, T. (2018). Chemotherapy-Exacerbated Breast Cancer Metastasis: A Paradox Explainable by Dysregulated Adaptive-Response. Int. J. Mol. Sci, 19.
  • National Cancer Institute. (March de 30 de 2011). When Combined with Chemotherapy, Bevacizumab Is Associated with Increased Risk of Death. Obtido de National Cancer Institute: https://www.cancer.gov/types/colorectal/research/bevacizumab-severe-side-effects#:~:text=Cancer%20patients%20who%20receive%20the,of%20Medicine%20in%20New%20York.
  • Prigerson, H. G., Bao, Y., Shah, M. A., Paulk, M. E., LeBlanc, T. W., Schneider, B. J., . . . Maciejewski, P. K. (2015). Chemotherapy Use, Performance Status, and Quality of Life at the End of Life. JAMA Oncol, 778–784.
  • Ranpura, V., Hapani, S., & Wu, S. (2011). Treatment-Related Mortality With Bevacizumab in Cancer Patients – A Meta-analysis. JAMA, 305(5), 487-494.
  • Sun, Y., Campisi, J., Higano, C., Beer, T. M., Porter, P., Coleman, I., . . . Nelson, P. S. (2012). Treatment-induced damage to the tumor microenvironment promotes prostate cancer therapy resistance through WNT16B. Nat Med, 18(9), 1359–1368.
  • Wark, C. (2018). Chris Beat Cancer.
  • Xie, M., Liu, J., Tsao, R., Wang, Z., Sun, B., & Wang, J. (2019). Whole Grain Consumption for the Prevention and Treatment of Breast Cancer. Nutrients, 11(1769).

 

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