Tal como discutido na semana passada, as disfunções do endotélio (camada de células finas que reveste a superfície luminal de todo o sistema circulatório) podem levar a diversas patologias, entre as quais problemas de circulação, ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais, diabetes, resistência à insulina, falência renal, crescimento tumoral e metástases, trombose venosa e doenças infeciosas virais (Carvalho, Nigro, Lemos, Tostes, & Fortes, 2001; Rajendran, et al., 2013).

Esta disfunção leva a uma alteração da capacidade de contração e dilatação das artérias, tornando-as mais rígidas e, tal como anteriormente referido, o consumo de gorduras, especialmente as saturadas, promove esta rigidez arterial. Acrescenta-se que, para além de promover esta rigidez, a disfunção do endotélio também leva à formação de placa aterosclerótica devido à aderência de leucócitos (glóbulos brancos), à formação de plaquetas e ao aumento da inflamação  – clica aqui para leres o artigo anterior (Dod, et al., 2010).

Assim, uma vez que as grandes fontes de gorduras, incluindo as saturadas provêm de alimentos de origem animal. Quais os alimentos que poderão melhorar a função das nossas artérias? Estará esta disfunção associada também ao aumento da idade?

As alterações endoteliais são menos prevalentes entre os chineses, em comparação com indivíduos caucasianos e pensa-se que isto se pode dever ao facto de os primeiros terem uma dieta mais à base de vegetais, arroz, peixe e chá verde. Um estudo comparou a disfunção endotelial entre indivíduos chineses e australianos saudáveis (jovens e mais velhos) e demonstrou que os chineses mais velhos apresentaram menor disfunção endotelial quando comparado com os australianos com idades semelhantes. Assim, este problema arterial pode não estar tão relacionado com a idade, mas sim com os estilos de vida adotados pelos indivíduos. Estas diferenças alimentares podem explicar o facto de haver menos casos de problemas cardíacos na China (Woo, et al., 1997).

Será a solução o peixe?

O ácido gordo Omega-3 é um tipo de gordura polinsaturada presente em variados peixes e recomenda-se a ingestão deste alimento ou de suplementos à base de ómega-3 para reduzir os riscos de doença cardíaca (Kayser, Krepsky, Oliveira, Liberali, & Coutinho, 2010).

Contudo, estudos concluíram que o consumo de ómega-3 (provenientes de peixe e óleo de peixe) não reduz o risco de desenvolver problemas cardíacos e pode mesmo aumentar a mortalidade em pacientes com angina de peito. As conclusões mantiveram-se similares, mesmo após ingestão de peixe não frito. Contudo, quando os autores deste estudo analisaram os resultados em cada sexo, verificaram que as mulheres que consumiam maior quantidade de peixe (mais de 2 vezes por semana) apresentaram maior rigidez arterial (Anderson, et al., 2010; Billman, 2013; Khawaja, Gaziano, & Djoussé, 2012).

Investigações demonstraram que suplementos de óleo de peixe não aparentam ter efeitos significativos face à função do endotélio em pacientes com risco moderado de problema de coração, nem mesmo quando as suas doses são equivalentes a 1, 2 ou mesmo 4 porções de peixe por semana (Sanders, et al., 2011; Xin, Wei, & Li, 2012).

Assim sendo, talvez a solução não é o peixe não…

Serão os vegetais a solução?

Apesar de no passado os estudos sobre uma alimentação à base de plantas terem sido focados nos seus possíveis défices nutricionais, recentemente tem-se estudado os seus possíveis benefícios na saúde (Lin, Fang, & Gueng, 2001).

Alguns estudos têm demonstrado que uma alimentação à base de plantas reduz o risco de doença cardiovascular, em comparação com dietas omnívoras (Acosta-Navarro, et al., 2016; Acosta-Navarro, et al., 2019; Lin, Fang, & Gueng, 2001)

Um estudo que incluiu 20 vegetarianos e 20 omnívoros saudáveis e não fumadores, com idades e sexos idênticos, avaliou a respetiva rigidez arterial e demonstrou que os vegetarianos apresentaram menor rigidez, o que indica menor disfunção endotelial. Uma investigação similar também chegou a conclusões idênticas. Assim, os autores concluem que uma alimentação vegetariana, por si só, reduz o risco de doença cardiovascular e a mortalidade (Acosta-Navarro, et al., 2016; Lin, Fang, & Gueng, 2001).

27 participantes com problemas cardíacos ou risco aumentado de problemas de coração, foram aconselhados a adotar uma alimentação à base de plantas, a realizar exercícios físico moderado (3 horas/semana), a deixar de fumar e a praticar técnicas de redução de stress 1 hora por dia. O grupo de controlo, composto por 20 indivíduos, foi instruído a seguir as recomendações dadas pela “American Heart Association” sobre alimentação e estilos de vida. Após três meses, a rigidez arterial do grupo de intervenção melhorou de forma significativa, assim como também presentou melhorias na quantidade de mediadores inflamatórios presentes no sangue (tais como proteína C- reativa) (Dod, et al., 2010).

Um outro estudo, realizado pelo mesmo autor que o acima descrito, também utilizou um protocolo similar em indivíduos com problemas cardíacos e apresentou resultados excelentes! Ao fim de 1 e 5 anos, os indivíduos que alteraram a sua alimentação e estilos de vida apresentaram uma redução da frequência de angina (dor no peito) de 91% e 72%, respetivamente, enquanto que o grupo controlo teve um aumento de 186% da frequência deste sintoma ao fim de 1 ano e uma diminuição deste de apenas 36% ao fim de 5 anos. Ao fim de 5 anos, 25 eventos cardíacos ocorreram no grupo de intervenção vs 45 eventos no de controlo. Mesmo utilizando amostras compostas por mais participantes, os que seguiram este protocolo reduziram de forma significativa a angina de peito. De facto, ao fim de 12 semanas a seguir uma alimentação à base de plantas e a realizar exercício e técnicas de redução de stress, 74% dos participantes deixaram de sofrer este sintoma e 9% passaram a ter angina de peito ligeira (Frattaroli, Weidner, Merritt-Worden, Frenda, & Ornish, 2008; Ornish, et al., 1996).

Até mesmo a simples ingestão de amêndoas melhorou a função endotelial e reduziu o colesterol no sangue dos participantes de um estudo que apresentavam risco de desenvolver problemas cardíacos (Dikariyanto, et al., 2020).

Assim, a adoção de uma alimentação tendo por base a ingestão de alimentos vegetais é protetora face à disfunção do endotélio e, consequentemente, reduz o risco de problemas cardíacos!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Acosta-Navarro, J. C., Oki, A. M., Antoniazzi, L., Bonfim, M. A., Hong, V., Gaspar, M. C., . . . Nogueira1, A. (2019). Consumption of animal-based and processed food associated with cardiovascular risk factors and subclinical atherosclerosis biomarkers in men. REV ASSOC MED BRAS, 65(1), 43-50.
  • Acosta-Navarro, J., Antoniazzi, L., Oki, A. M., Bonfima, M. C., Hong, V., Acosta-Cardenas, P., . . . Santos, R. D. (2016). Reduced subclinical carotid vascular disease and arterial stiffness in vegetarian men: The CARVOS Study. International Journal of Cardiology, 230, 562-566.
  • Anderson, J. S., Nettleton, J. A., Herrington, D. M., Johnson, W. C., Tsai, M. Y., & Siscovick, D. (2010). Relation of omega-3 fatty acid and dietary fish intake with brachial artery flow-mediated vasodilation in the Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis. Am J Clin Nutr, 92, 1204–13.
  • Billman, G. E. (2013). The effects of omega-3 polyunsaturated fatty acids on cardiac rhythm: A critical reassessment. Pharmacology & Therapeutics, 140, 53-80.
  • Carvalho, M. H., Nigro, D., Lemos, V. S., Tostes, R. d., & Fortes, Z. B. (2001). Hipertensão arterial: o endotélio e suas múltiplas funções. Rev Bras Hipertens, 8(1), 76-88.
  • Dikariyanto, V., Smith, L., Francis, L., Robertson, M., Kusaslan, E., O’Callaghan-Latham, M., . . . Chowienczy, P. J. (2020). Snacking on whole almonds for 6 weeks improves endothelial function and lowers LDL cholesterol but does not affect liver fat and other cardiometabolic risk factors in healthy adults: the ATTIS study, a randomized controlled trial. Am J Clin Nutr, 111, 1178–1189.
  • Dod, H. S., Bhardwaj, R., Sajja, V., Weidner, G., Hobbs, G. R., Konat, G. W., . . . Jain, A. C. (1 de Feb de 2010). Effect of Intensive Lifestyle Changes on Endothelial Function and on Inflammatory Markers of Atherosclerosis. AM J Cardiol, 105(3), 362-367.
  • Frattaroli, J., Weidner, G., Merritt-Worden, T. A., Frenda, S., & Ornish, D. (2008). Angina Pectoris and Atherosclerotic Risk Factors in the Multisite Cardiac Lifestyle Intervention Program. Am J Cardiol, 101, 911-918.
  • Kayser, C. G., Krepsky, L. H., Oliveira, M. R., Liberali, R., & Coutinho, V. (Maio/Jun. de 2010). BENEFÍCIOS DA INGESTÃO DE OMEGA 3 E A PREVENÇÃO DE DOENÇAS CRÔNICO DEGENERATIVAS – REVISÃO SISTEMÁTICA. Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento, 4(21), pp. 137-146.
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  • Ornish, D., Scherwitz, L. W., Billings, J. H., Gould, K. L., Merritt, T. A., Sparler, S., . . . Brand, R. J. (16 de December de 1996). Intensive Lifestyle Changes for Reversal of Coronary Heart Disease. JAMA, 280(23), 2001-2008.
  • Rajendran, P., Rengarajan, T., Thangavel, J., Nishigaki, Y., Sakthisekaran, D., Sethi, G., & Nishigaki, I. (2013). The Vascular Endothelium and Human Diseases. International Journal of Biological Sciences, 9(10), 1057-1069.
  • Sanders, T. A., Hall, W. L., Maniou, Z., Lewis, F., Seed, P. T., & Chowienczyk, P. J. (2011). Effect of low doses of long-chain n23 PUFAs on endothelial function and arterial stiffness: a randomized controlled trial. Am J Clin Nutr, 94, 973–80.
  • Woo, K. S., McCrohon, J. A., Chook, P., Adams, M. R., Robinson, J. T., McCredie, R. J., . . . Celermajer, D. S. (1997). Chinese Adults Are Less Susceptible Than Whites to Age-Related Endothelial Dysfunction. JACC, 30(1), 113-8.
  • Xin, W., Wei, W., & Li, X. (September de 2012). Effect of Fish Oil Supplementation on Fasting Vascular Endothelial Function in Humans: A Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. PLOS ONE, 7(9).

 

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