Nas últimas semanas o cálcio tem estado no centro das atenções. Já se discutiu que o leite não é a melhor fonte de cálcio (clica aqui) e quais os alimentos que podem ajudar na saúde dos ossos (clica aqui), mas agora fica a questão: e os suplementos?

Penso que toda a gente adora suplementos… Aliás, vejo muitas pessoas  nas redes sociais a perguntarem sobre qual o melhor suplemento para determinado problema. A minha questão é: porquê um suplemento? Porquê suplementos de chá verde, açafrão, fibra,…? É muito mais barato e saudável se fores buscar o nutriente/vitamina que queres a fontes alimentares naturais!

Mas quem sou eu para dizer isto? Bem… vamos ver o que a ciência diz sobre isto…

O cálcio é o quinto elemento mais frequente no corpo humano, estando mais de 99% presente no esqueleto. Milhares de miligramas de cálcio entram e saem dos ossos todos os dias. Quando há um défice deste composto no organismo, o cálcio sai dos ossos de forma a compensar. Contudo, tal como referido anteriormente, se há um excesso de cálcio a sair dos ossos, este vão enfraquecendo, podendo levar a problemas como fraturas e Osteoporose (Heaney, et al., 2012).

Os suplementos de cálcio, com ou sem vitamina D, têm sido bastante utilizados na redução do risco de Osteoporose. Estudos também têm demonstrado que estes também reduzem o risco de pólipos no cólon, cancro, pré-eclampsia, tensão arterial e ajudam no controlo do colesterol. Apesar destes benefícios, recentemente autores e cientistas têm concluído que é melhor deixar de se tomar estes suplementos (Bolland, et al., 2008; Bolland, Grey, Avenell, Gamble, & Reid, 2011; Greger, 2019; Heaney, et al., 2012).

Mas porque é que se passou de “tomem suplementos para prevenção da osteoporose” para “deixem de utilizar estes suplementos?” O que é que aconteceu? (Greger, 2019).

Tem-se reportado que o consumo elevado de cálcio pode ser protetor face a problemas de coração, mas será que isto inclui os suplementos (Bolland, et al., 2008)?

Esta mudança de opinião entre cientistas iniciou-se em 2008 quando um estudo realizado na Nova Zelândia concluiu que suplementos de cálcio em mulheres pós-menopáusicas saudáveis esteve associado a um aumento dos rácios de eventos cardíacos (Bolland, et al., 2008).

A amostra deste estudo foi constituída por mulheres pós-menopáusicas (note-se que existe uma maior incidência de problemas vasculares neste tipo de população) que foram divididas em 2 grupos. Um grupo tinha de ingerir 5 comprimidos de cálcio por dia e o outro 5 comprimidos placebo (ou seja, sem efeito terapêutico). Elas foram acompanhadas a cada 6 meses, de forma a verificar possíveis efeitos secundários, durante 5 anos (Bolland, et al., 2008).

De acordo com os resultados obtidos houve um maior número de eventos cardíacos, como enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e morte súbita no grupo que ingeriu o suplemento em comparação com o placebo (Bolland, et al., 2008)

Figura 1 Resultados de estudo que demonstra que o grupo que ingeriu suplementos de cálcio apresentou mais eventos cardíacos. Os primeiros valores indicam o número de mulheres e os números entre parênteses correspondem à quantidade de eventos ocorridos (Bolland, et al., 2008)

Apesar de um estudo denominado “The Women’s Health Initiative”, que incluiu 36282 participantes e teve uma duração de 7 anos, ter relatado a inexistência de qualquer efeito cardiovascular adverso aquando do consumo de suplementos de cálcio e vitamina D, cerca de 54% e 47% das participantes estavam, respetivamente a tomar suplementos de cálcio e vitamina D antes do início do estudo. Assim, uma outra investigação decidiu analisar quais os efeitos destes suplementos a nível cardiovascular, em participantes que não estavam a tomar nenhuma suplementação antes do seu início. Mais uma vez, houve um aumento de eventos cardiovasculares, sobretudo AVC´s e enfartes do miocárdio no grupo que ingeriu os suplementos de cálcio (Bolland, Grey, Avenell, Gamble, & Reid, 2011; Greger, 2019).

Mas porque é que isto acontece?

Quando tomamos cálcio em forma de comprimido, vamos ter uma quantidade não natural enorme e rápida que pode permanecer no nosso sangue até 8 horas. Isto pode provocar maior coagulação do sangue, aumentando o risco de formação de coágulos sanguíneos tanto no coração como no cérebro (Greger, 2019; Reid, Bristow, & Bolland, 2015).

Para além disto, outros efeitos secundários provenientes destes suplementos incluem sintomas gastrointestinais, tais como dores abdominais severas, diarreia, cólicas, inchaço abdominal, obstipação e flatulência. O aumento do consumo de cálcio está associado ainda ao aparecimento de problemas a nível de rins ou mesmo falência renal (Aloia, et al., 2018; Lewis, Zhu, & Prince, 2012; Reid, Bristow, & Bolland, 2015).

De facto, o estudo de Aloia, et al., 2018 dividiu os participantes em dois grupos: ambos tomaram a mesma quantidade de cálcio, associado à toma de uma dose de vitamina D elevada ou baixa. Os resultados demonstraram que doses elevadas de vitamina D, associadas a suplementos de cálcio, aumentaram os episódios de hipercalciúria (perda de cálcio na urina). O aparecimento de pedras nos rins está relacionado com este problema. Contudo, este estudo não foi suficientemente longo para os participantes apresentarem esta última patologia. Contudo, noutro estudo da “Women´s Health Initiative” houve um aumento de 17% de pedras nos rins entre os participantes a tomar suplementos vs grupo placebo (Aloia, et al., 2018; Wallace, et al., 2011).

Em conclusão: todos estes efeitos potencialmente prejudiciais devem ser equilibrados com os prováveis benefícios do cálcio nos ossos. Assim, é necessário reavaliar a utilização destes suplementos para prevenção/controle da Osteoporose (Bolland, et al., 2008; Bolland, Grey, Avenell, Gamble, & Reid, 2011).

O meu conselho é: se precisas de aumentar os teus níveis de cálcio, fá-lo utilizando alimentos e não suplementos!

 

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Bibliografia

  • Aloia, J. F., Katumuluwa, S., Stolberg, A., Usera, G., Mikhail, M., Hoofnagle, A. N., & Islam, S. (2018). Safety of calcium and vitamin D supplements, a randomized controlled trial. Clinical Endocrinology, John Wiley & Sons Ltd, 1-8.
  • Bolland, M. J., Barber, A., Doughty, R. N., Mason, B., Home, A., Ames, R., . . . Reid, I. R. (2008). Vascular events in healthy older women receiving calcium supplementation: randomised controlled trial. BMJ, 336(7638), 262-6.
  • Bolland, M. J., Grey, A., Avenell, A., Gamble, G. D., & Reid, I. R. (2011). Calcium supplements with or without vitamin D and risk of cardiovascular events: reanalysis of the Women’s Health Initiative limited access dataset and meta-analysis. BMJ, 342(d2040).
  • Greger, M. (2019). How not to Diet. BlueBird.
  • Heaney, R. P., Kopecky, S., Maki, K. C., Hathcock, J., MacKay, D., & Wallace7, T. C. (2012). A Review of Calcium Supplements and Cardiovascular Disease Risk. Adv. Nutr., 3, 763-771.
  • Lewis, J. R., Zhu, K., & Prince, R. L. (March de 2012). Adverse Events From Calcium Supplementation: Relationship to Errors in Myocardial Infarction Self-Reporting in Randomized Controlled Trials of Calcium Supplementation. Journal of Bone and Mineral Research, 27(3), 719-722.
  • Reid, I. R., Bristow, S. M., & Bolland, M. J. (2015). Calcium supplements: benefits and risks. Journal of Internal Medicine, 278, 354-368.
  • Wallace, R. B., Wactawski-Wende, J., O’Sullivan, M. J., Larson, J. C., Cochrane, B., & Gass, M. (2011). Urinary tract stone occurrence in the Women’s Health Initiative (WHI) randomized clinical trial of calcium and vitamin D supplements. Am J Clin Nutr, 94, 270-7.

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