Na semana passada falou-se da relação entre o enfraquecimento dos ossos aquando da ingestão de proteína animal (Não leste? Vá… clica aqui então…).

Acho que toda a gente sabe que para se ter bons ossos deve-se ter bons níveis de cálcio e desde sempre ouvi dizer que é importante beber leite de vaca.

Será isto verdade?

Anteriormente já se discutiram diversos aspetos negativos do leite de vaca, tais como o facto de apresentar elevadas hormonas sexuais que podem influenciar a nossa saúde (clica aqui), o facto de promover o acne (clica aqui) e a grande descoberta científica feita por T. Colin Campbell onde se verificou que a caseína, que é a proteína principal do leite de vaca, pode “ligar a tomada” do cancro (clica aqui). Assim, com tantos aspetos negativos, será que o leite de vaca “se vai safar” em relação aos ossos?

As guidelines sobre nutrição são baseadas na observação de estudos prospetivos que descrevem os hábitos alimentares das pessoas que tendem a viver mais anos devido a variados fatores e não aos efeitos de um nutriente ou dieta particulares. Por vezes, estas guidelines são feitas de forma a recomendar o consumo de determinados nutrientes. Contudo muitas vezes são baseadas em opiniões pessoais, que são consideradas baixos níveis de evidência científica. Estas ainda refletem que o consumo de determinados nutrientes na América do Norte e na Europa são os valores ideais, o que pode não ser verdade (Caldwell B. Esselstyn, 2001; Schooling, 2014).

Acrescenta-se ainda que existem interesses políticos e financeiros e relações com a indústria alimentar por de trás destas mesmas recomendações. Daí que muita informação seja ocultada, o que é uma pena, pois o público deveria acreditar que as recomendações feitas nestes documentos irão ajudá-lo a perceber quais os alimentos que podem trazer benefícios/malefícios para a sua saúde e, infelizmente, isto nem sempre acontece (Caldwell B. Esselstyn, 2001; Schooling, 2014).

Dentro das recomendações da Associação Portuguesa de Nutricionistas, o leite e derivados devem constituir 18% da alimentação diária (2-3 porções por dia). Num outro artigo, os autores referem que de acordo com a “Fundação Internacional de Osteoporose, a incidência mundial desta doença está a aumentar, sendo, por isso, importante promover o consumo de leite desde cedo” (Associação Portuguesa de Nutricionistas, 2016; Barbosa, Pimenta, & Real, 2017).

Humm… parece que o leite está a ir no bom caminho, mas o que é que a ciência diz?

Tal como discutido a semana passada, as fraturas da anca são das mais devastadoras em indivíduos com Osteoporose. Assim, o aumento do rácio de fraturas da anca é um bom indicador desta patologia (Abelow, Holford, & Insogna, 1992; Campbell & Campbell, 2016).

Se o leite faz bem devido à quantidade de cálcio que apresenta é de esperar que nos países onde há um maior consumo deste produto a incidência de fraturas da anca deveria ser menor, certo?

Bem, aparentemente isto não acontece! Interessante será de dizer que os países com maiores consumos de leite apresentam maior rácio de fraturas de anca – figura 1 (Campion, 2020; Greger, 2015)!

Figura 1 Segundo esta imagem, existe uma maior quantidade de fraturas da anca nos países onde há uma maior ingestão de leite de vaca (Campion, 2020)

Diversas meta-análises concluíram que não existe uma associação entre o consumo de leite (mesmo em elevadas doses) e o risco de fratura de anca, ou seja o leite não aparenta proteger os ossos tal como se costuma dizer (Bian, et al., 2018; Bischoff-Ferrari, et al., 2011; Matía-Martín, et al., 2019).

Uma outra investigação analisou se o consumo elevado de leite estava associado ao aumento da mortalidade e de fraturas em homens e mulheres. Nesta, participaram 61 433 mulheres e 45 339 homens. Para além de valores significativamente maiores de fraturas ósseas e da anca, verificou-se que por cada copo de leite tomado por mulheres houveram maiores taxas de morte prematura, de doença cardiovascular e cancro. Três copos de leite por dia foram associados ao dobro do risco de morte prematura. Os homens que ingeriam elevadas quantidades de leite, apesar de não terem apresentado maiores taxas de fratura, também obtiveram maiores riscos de morte prematura (Michaëlsson, et al., 2014).

Costuma-se dizer que o aumento do consumo de leite durante a infância e adolescência contribui para o fortalecimento da massa óssea e, por isso, o seu consumo deveria ajudar a prevenir o aparecimento de Osteoporose e fraturas mais tarde na vida. Contudo, uma investigação que teve uma duração de 22 anos concluiu exatamente o oposto! Os autores referem que o consumo de leite durante a adolescência não foi associado à redução do risco de fratura da anca em adultos. Em vez disso, houve um aumento de 9% deste risco nos homens para cada copo adicional de leite ingerido durante a sua adolescência (Feskanich, Bischoff-Ferrari, Frazier, & Willett, 2014).

Um estudo randomizado, publicado em 2017 demonstrou que o consumo adicional de três porções de leite ou laticínios por dia durante 18 meses em rapazes e raparigas entre os 8-15 anos que ingeriam cerca de 800mg de cálcio/dia não influenciou a mineralização óssea comparativamente com o grupo placebo. Assim, não existe evidência científica suficiente que sugira que a ingestão de grandes quantidades de leite durante a adolescência ou puberdade  previne o aparecimento de fraturas mais tarde na vida (Campion, 2020; Vogel, et al., 2017)

O leite é a maior fonte de D-galactose. Estudos experimentais em animais indicaram que a exposição crónica de D-galactose pode ser prejudicial para a saúde mesmo em doses pequenas, pois este composto aumenta o stress oxidativo, os níveis de inflamação, a neurodegeneração, inibe o sistema imunitário e altera a transcrição genética. O estudo de Michaelsson, et al., 2014, supracitado, também verificou uma associação positiva entre o consumo de leite e o aumento do stress oxidativo e da inflamação em humanos (Michaëlsson, et al., 2014).

Assim, devido ao facto de o consumo de leite em todo o mundo estar a aumentar, o papel do leite na mortalidade precisa de ser estabelecido o mais rapidamente possível (Schooling, 2014).

Resumidamente:

  • Variados estudos têm demonstrado que a ingestão de leite não diminui os riscos de fraturas da anca;
  • Esses mesmos estudos demonstraram que este alimento também aumenta a mortalidade, o risco de fraturas, doenças cardiovasculares e cancro;
  • Será importante estabelecer definitivamente o papel do leite sobre a mortalidade e, provavelmente ajustar as guidelines nutricionais que deveriam ser baseadas em evidência científica.

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referêncis bibliográficas.

Bibliografia

  • Abelow, B. J., Holford, T. R., & Insogna, K. L. (1992). Cross-Cultural Association Between Dietary Animal Protein and Hip Fracture: A Hypothesis. Calcif Tissue Int, 50, 14-18.
  • Associação Portuguesa de Nutricionistas. (2016). Conhecer o Leite. Coleção E-books APN.
  • Barbosa, C., Pimenta, P., & Real, H. (2017). RODA DA ALIMENTAÇÃO MEDITERRÂNICA E PIRÂMIDE DA DIETA MEDITERRÂNICA: COMPARAÇÃO ENTRE OS DOIS GUIAS ALIMENTARES. Acta Portuguesa de Nutrição, 11, 6-14.
  • Bian, S., Hu, J., Zhang, K., Wang, Y., Yu, M., & Ma3, J. (2018). Dairy product consumption and risk of hip fracture: a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health, 18(165).
  • Bischoff-Ferrari, H. A., Dawson-Hughes, B., Baron, J. A., Kanis, J. A., Orav, E. J., Staehelin, H. B., . . . Willett, W. C. (2011). Milk Intake and Risk of Hip Fracture in Men and Women: Meta-Analysis of Prospective Cohort Studies. Journal of Bone and Mineral Research, 26(4), 833-839.
  • Caldwell B. Esselstyn, J. (2001). Resolving the Coronary Artery Disease Epidemic Through Plant-Based Nutrition. Preventive Cardiology, 171-177.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Campion, E. W. (2020). Milk and Health. The new england journal of medicine, 382, 644-54.
  • Feskanich, D., Bischoff-Ferrari, H. A., Frazier, L., & Willett, W. C. (January de 2014). Milk Consumption During Teenage Years and Risk of Hip Fractures in Older Adults. JAMA Pediatr, 168(1), 54-60.
  • Greger, D. M. (2015). Como não Morrer. Lua de Papel.
  • Matía-Martín, P., Torrego-Ellacuría, M., Larrad-Sainz, A., Fernández-Pérez, C., Cuesta-Triana, F., & Rubio-Herrera, M. Á. (2019). Effects of Milk and Dairy Products on the Prevention of Osteoporosis and Osteoporotic Fractures in Europeans and Non-Hispanic Whites from North America: A Systematic Review and Updated Meta-Analysis. Adv Nutr, 105, S120–S143.
  • Michaëlsson, K., Wolk, A., Langenskiöld, S., Basu, S., Lemming, E. W., Melhus, H., & Byberg, L. (28 de October de 2014). Milk intake and risk of mortality and fractures in women and men: cohort studies. The BMJ, 1-15.
  • Schooling, C. M. (27 de October de 2014). Milk and mortality. The BMJ, 1-2.
  • Vogel, K. A., Martin, B. R., McCabe, L. D., Peacock, M., Warden, S. J., McCabe, G. P., & Weaver, C. M. (22 de March de 2017). The effect of dairy intake on bone mass and body composition in early pubertal girls and boys: a randomized controlled trial. Am J Clin Nutr.

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