Uma das perguntas que mais frequentemente fazem às pessoas que não comem alimentos animais é: “E a proteína?”

Ora bem, tal como nós, humanos, os animais não conseguem produzir proteína. Eles têm de a obter através dos alimentos e, o que é que as vacas, porcos, cabras, galinhas, etc comem? Plantas!

Ainda está muito implementado na sociedade que a proteína vegetal é inferior à animal, mas será isto verdade? Poderá uma fazer pior que a outra?

Vamos ver…

Proteína na Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2):

A DM2 é um problema que afeta muitos portugueses. Em 2018, ocorreram 4292 mortes, correspondendo a uma percentagem de 3.8% da mortalidade do país nesse ano (Instituto Nacional de Estatística, 2020).

Na DM2 existe produção de insulina, mas esta não atua como deveria e a glicose (açúcar resultante da digestão dos alimentos) não é efetivamente metabolizada, levando ao aumento dos níveis de açúcar no sangue (Campbell & Campbell, 2016; Greger, 2015).

Alimentos que apresentem um alto índice glicémico quando são digeridos, aumentam bastante a quantidade de açúcares no sangue devido ao facto de serem rapidamente digeridos e absorvidos pelo organismo. Eis alguns exemplos de alimentos com variado índice glicémico (Carvalho & Alfenas, 2008; Greeger, 2019):

Este índice é considerado uma ferramenta importante no tratamento e controle da Diabetes Mellitus. Alimentos com elevado índice glicémico aumentam o risco de desenvolver esta patologia (Carvalho & Alfenas, 2008; Malik, Li, Tobias, Pan, & Hu, 2016).

De forma a evitar um aumento de glicose na corrente sanguínea aquando da ingestão de, especialmente, alimentos com elevado índice glicémico, o nosso pâncreas tem de produzir mais insulina de forma a retirar estes açúcares do sangue. Isto, ao fim de 3 refeições por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, ano após ano pode levar à exaustão das células que produzem a insulina, aumento da resistência à mesma e, consequentemente, DM2 (Carvalho & Alfenas, 2008).

E onde é que a proteína entra neste esquema?

Dietas ricas em proteína podem influenciar os níveis de açúcar no sangue, pois alteram tanto a quantidade como a ação da insulina que é produzida pelo corpo (BAO, BOWERS, TOBIAS, HU, & ZHANG, 2013; Tremblay, Lavigne, Jacques, & Marette, 2007).

Um estudo com a duração de 1 ano concluiu que uma dieta alta em proteína foi associada a uma destruição acelerada das células pancreáticas responsáveis pela produção de insulina em Diabéticos do tipo 1 (Linn, Geyer, Prassek, & Laube, 1996).

Mas será que isto ocorre quer com a proteína animal quer com a vegetal?

Os resultados de duas investigações demonstraram que a ingestão de proteína animal aumentou os riscos de desenvolver DM2. O mesmo não se verificou aquando da ingestão de proteína vegetal. De facto, num dos estudos, a substituição de proteína animal pela vegetal esteve associada a uma redução de 23% de se desenvolver DM2  (Malik, Li, Tobias, Pan, & Hu, 2016; SLUIJS, et al., 2010).

Um estudo publicado em 2017 que incluiu 2 332 homens e teve a duração de quase 20 anos, demonstrou que a substituição de 1% de energia proveniente de proteína animal por 1% de energia derivada de proteína vegetal, levou a uma redução entre 14-20% do risco de se desenvolver DM2. Entre dos alimentos de origem animal, os que mais aumentaram a prevalência de DM2 foram as carnes vermelhas e os laticínios fermentados (tais como queijo e iogurte). A substituição total da carne, carnes vermelhas e processadas, peixe e laticínios por fontes de proteína vegetal, levou a uma redução do risco de se desenvolver este problema de saúde (Virtanen, et al., 2017).

Investigadores dividiram 75 indivíduos com excesso de peso em dois grupos: um a seguir uma alimentação à base de

Figura 1. Resultados do teste HOMA-IR no início e final do estudo

plantas e o grupo de controlo onde não tiveram de fazer nenhuma alteração alimentar. Ao fim de 16 semanas, verificou-se uma redução do peso, do índice de massa corporal (IMC) e da quantidade de gordura corporal apenas no grupo que alterou a sua alimentação. Também se verificou uma diminuição da resistência à insulina (medida através do teste HOMA-IR – figura 1) neste grupo. Já no de controlo, verificou-se o oposto (Kahleova, Fleeman, Adela Hlozkova1, & Barnard, 2018).

 

Proteína na Diabetes Gestacional (DG):

A Diabetes Gestacional (DG) consiste na intolerância à glicose durante a gravidez o que pode aumentar o risco de problemas de saúde, tais como obesidade, síndrome metabólica e DM2, tanto nas grávidas como nos seus bebés (BAO, BOWERS, TOBIAS, HU, & ZHANG, 2013).

Em Portugal a prevalência desta patologia tem vindo a aumentar de ano para ano (figura 2). Os dados mais recentes são respetivos ao ano de 2018 onde a prevalência deste problema de saúde foi de 8.8% (Raposo, 2020; Sociedade Portuguesa de Diabetologia, 2016).

Figura 2. Prevalência da Diabetes Gestacional em Portugal

Um estudo que incluiu 15 294 mulheres e teve duração de 10 anos documentou a presença de 870 casos de DG. Segundo os resultados, a ingestão de proteína animal aumentou o risco de DG e a ingestão da proteína vegetal diminuiu este risco. De facto, a substituição de 5% de calorias provenientes de carbohidratos por proteína animal, esteve associada a um aumento de 29% do risco de DG. Já a substituição de 5% de energia proveniente de carbohidratos por proteína vegetal levou a uma redução de 51% do risco de desenvolver este problema (BAO, BOWERS, TOBIAS, HU, & ZHANG, 2013).

Acrescenta-se ainda que as carnes vermelhas, que são ricas em proteínas, aumentam tanto o risco de DM2 como de DG. Isto também foi demostrado no estudo supracitado, onde a substituição de uma porção de carnes vermelhas por outras fontes proteínas reduziu o risco de DG (BAO, BOWERS, TOBIAS, HU, & ZHANG, 2013).

Mas porquê estas diferenças entre estes tipos de proteína?

Todos os alimentos vêm em “pacotes”, ou seja, apresentam variados nutrientes que não podem ser isolados. Por exemplo, apesar de a carne ser uma boa fonte proteica, esta também apresenta colesterol, ferro heme, nitritos e gorduras saturadas que são componentes que trazem malefícios para a saúde, incluindo DM2, DG, doenças cardiovasculares e certos tipos de cancro. Assim, devemos escolher outros alimentos, também ricos em proteínas que apresentem outros compostos mais vantajosos para a nossa saúde, tais como, por exemplo os frutos secos, leguminosas, frutas e vegetais. Estes, para além de serem ricos em proteína, apresentam outros componentes tais como, gorduras mono e poli insaturadas, fibra, magnésio, entre outros que trazem benefícios para a saúde e apresentam um baixo índice glicémico (BAO, BOWERS, TOBIAS, HU, & ZHANG, 2013; SLUIJS, et al., 2010; Malik, Li, Tobias, Pan, & Hu, 2016).

Eis alguns exemplos de alimentos vegetais ricos em proteína:

Assim,  deve-se aumentar ingestão de alimentos ricos em proteína vegetal de forma a prevenir o aparecimento de DM2 e DG (BAO, BOWERS, TOBIAS, HU, & ZHANG, 2013; Linn, Geyer, Prassek, & Laube, 1996; SLUIJS, et al., 2010; Malik, Li, Tobias, Pan, & Hu, 2016; Virtanen, et al., 2017).

Para a semana esta “luta” entre proteína vegetal vs animal vai continuar e outras patologias serão exploradas. Fiquem atentos!

Nota: para mais informações sobre Diabetes Mellitus tipo 2 clica aqui. Para saberes de que forma a alimentação pode ajudar a prevenir/potenciar/reverter este problema clica aqui.

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Bibliografia

  • BAO, W., BOWERS, K., TOBIAS, D. K., HU, F. B., & ZHANG, C. (2013, July). Prepregnancy Dietary Protein Intake, major Dietary Protein Sources ,and the risk of Gestational Diabetes Mellitus – A prospective cohort study. DIABETES CARE, 36, 2001-2008.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Carvalho, G. Q., & Alfenas, R. d. (2008, Set/Out). Índice glicêmico: uma abordagem crítica acerca de sua utilização na prevenção e no tratamento de fatores de risco cardiovasculares. Rev. Nutr, 21(5), 577-587.
  • Greeger, M. (2019). How Not to Diet. Bluebird Books for Life.
  • Greger, D. M. (2015). Como não Morrer. Lua de Papel.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2020). Estatísticas de Saúde 2018. INE.
  • Kahleova, H., Fleeman, R., Adela Hlozkova1, R. H., & Barnard, N. D. (2018). A plant-based diet in overweight individuals in a 16-week randomized clinical trial: metabolic benefits of plant protein. Nutrition and Diabetes, 8(58).
  • Linn, T., Geyer, R., Prassek, S., & Laube, H. (1996). Effect of Dietary Protein Intake on Insulin Secretion and Glucose Metabolism in Insulin-Dependent Diabetes Mellitus. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 3938-3943.
  • Malik, V. S., Li, Y., Tobias, D. K., Pan, A., & Hu, F. B. (2016, March 28). Dietary Protein Intake and Risk of Type 2 Diabetes in US Men and Women. American Journal of Epidemiology, 183(8), 715–728.
  • Raposo, J. F. (2020). Diabetes: Factos e Números 2016, 2017 e 2018. Revista Portuguesa de Diabetes, 15(1), 19-27.
  • SLUIJS, I., BEULENS, J. W., A, D. L., SPIJKERMAN, A. M., GROBBEE, D. E., & SCHOUW, Y. T. (2010, January). Dietary Intake of Total, Animal, and Vegetable Protein and Risk of Type 2 Diabetes in the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC)-NL Study. DIABETES CARE, 33(1), 43- 48.
  • Sociedade Portuguesa de Diabetologia. (2016). Diabetes: Factos e Números O ano de 2015 – Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes. Lisboa: Observatório da Diabetes.
  • Tremblay, F., Lavigne, C., Jacques, H., & Marette, A. (2007). Role of Dietary Proteins and Amino Acids in the Pathogenesis of Insulin Resistance. Annu. Rev. Nutr, 27, 293–310.
  • Virtanen, H. E., Koskinen, T. T., Voutilainen, S., Mursu, J., Tuomainen, T.-P., Kokko, P., & Virtanen, J. K. (2017). Intake of different dietary proteins and risk of type 2 diabetes in men: the Kuopio Ischaemic Heart Disease Risk Factor Study. British Journal of Nutrition, 1-12.

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