Na semana passada, referiu-se que uma alimentação à base de plantas tende a ajudar a prevenir o aparecimento de Doença de Alzheimer (DA), enquanto que alimentos de origem animal tendem a aumentar o risco de desenvolver esta patologia (clica aqui para leres o artigo).

Hoje vou—me focar numa especiaria que adoro: o açafrão. Há um par de meses atrás já falei um bocado sobre as propriedades desta especiaria e de que forma pode ajudar patologias como artrite e cancro (clica aqui) e qual a melhor forma de a ingerirmos (se em forma de alimento ou suplemento – clica aqui). Mas… será que esta especiaria pode ajudar especificamente na DA?

Vamos explorar…

A DA representa cerca de 60-80% de todos os casos de demência. É uma doença cerebral degenerativa, progressiva e sem cura. Dentro dos sintomas comuns podem-se destacar a perda de memória a curto-prazo, problemas cognitivos e incapacidade de realizar atividades da vida diária. Sintomas psicológicos comportamentais tais como alucinações, apatia, depressão, delírios, agitação e irritabilidade podem também estar presentes. À medida que esta progride, os indivíduos afastam-se da sociedade, perdem funções corporais e qualidade de vida e acabam por morrer. A esperança média de vida, após diagnóstico, varia entre 3-9 anos e, até agora nenhuma terapia farmacológica demonstrou reduzir e melhorar os sintomas apresentados (Hishikawa, et al., 2012; Tang & Taghibiglou, 2017).

Mundialmente, cerca de 46 milhões de pessoas apresentam demência e, uma vez que a população está a envelhecer, prevê-se que este número aumente para 131.5 milhões em 2050 (Tang & Taghibiglou, 2017).

Em que é que o açafrão poderá ajudar?

O Açafrão das Índias/Curcuma/Tumeric é uma especiaria proveniente da planta “curcuma longa” que pertence à família do gengibre. A parte mais importante desta planta é a sua raiz que é muito utilizada na culinária e na medicina. Os componentes mais ativos do açafrão são a curcumina, que está presente em 2-5% da especiaria e os curcuminóides que lhe dão a cor amarelada (Hishikawa, et al., 2012; Shishodia, Sethi, & Aggarwal, 2005)

Já há bastantes séculos que se documenta que o açafrão ajuda a tratar problemas respiratórios, de fígado, tosse, reumatismo, diabetes, obesidade, cancro, doenças crónicas sistémicas, problemas psiquiátricos, gastrointestinais e neurológicos bem como problemas de pele e que apresenta atividades antifúngicas, antivirais, anti carcinogénicas, antioxidantes e anti-inflamatórias (Ahmed & Gilani, 2013; Bhat, et al., 2019; Tang & Taghibiglou, 2017).

Curcuma e Doença de Alzheimer

Em estudos realizados com ratos, a administração de curcuma diretamente no estômago reduziu a formação de placas amiloides, que são uma característica fisiológica da DA, assim como melhorou algumas funções cognitivas destes animais. Estudos “in vitro”, ou seja, em laboratório, também verificaram uma redução da formação destas placas, aquando administração de curcumina (Tang & Taghibiglou, 2017).

Tal como referido no artigo de há duas semanas atrás, indivíduos com DA apresentaram aterosclerose nas suas artérias cerebrais. Um dos fatores de risco para o desenvolvimento de placa aterosclerótica é o aumento do colesterol. Acrescenta-se que a aterosclerose também contribui para a formação de placas de amiloide. De facto, indivíduos que apresentem o colesterol elevado a meio da sua vida apresentam maior risco de desenvolver DA mais tarde (Roher, et al., 2011; Shabir, Berwick, & Francis, 2018; Tang & Taghibiglou, 2017; Xie, Shi, Xing, & Tang, 2020; Yarchoan, et al., 2012; Zhu, Wang, Li, Deng, & Zhou, 2014).

Uma vez que a curcuma ajuda a reduzir o colesterol, pode também reduzir a formação de placas ateroscleróticas e, indiretamente reduzir o risco de DA (Bilia, Bergonzi, Isacchi, Antiga, & Caproni, 2018; Ferguson, Stojanovski, MacDonald-Wicks, & Garg, 2018; Panahi, et al., 2017).

A formação de radicais livres ou seja, o aumento do stress oxidativo, tem um papel importante no desenvolvimento da DA, uma vez que o cérebro é sensível a estes radicais devido ao facto de necessitar de grandes quantidades de oxigénio. O stress oxidativo aumenta a produção e a agregação de placas amiloides que por sua vez aumentam a libertação de radicais livres e promovem uma inflamação cerebral, entrando-se assim, num círculo deterimental que só vai agravar e fazer progredir a doença. Uma vez que o açafrão é um potente antioxidante (cerca de 10 vezes mais potente que a vitamina E) e anti-inflamatório, poderá ajudar a reduzir o stress oxidativo e, consequentemente, melhorar os sintomas da DA (Bhat, et al., 2019; Tang & Taghibiglou, 2017) – para mais informações sobre stress oxidativo clica aqui.

Bem, mas isto é tudo teoria… E que tal falarmos na prática?

Não existem ainda muitos estudos sobre consumo de açafrão especificamente na DA, contudo um estudo de caso publicado em 2012 apresentou resultados que não podem ser ignorados (Hishikawa, et al., 2012):

Já os suplementos de curcumina não foram eficazes no tratamento de sintomas presentes em indivíduos com DA. Apesar de a curcumina ser o componente mais estudado desta especiaria, muitos farmacologistas acreditam que “nenhum componente único pode ser um representativo verdadeiro de uma planta”, ou seja não se devem isolar os componentes desta especiaria, mas sim ingeri-la num todo. Acrescenta-se ainda que o açafrão é seguro, mesmo quando ingerido em doses elevadas (Ahmed & Gilani, 2013; Ringman, et al., 2012).

O único “problema” do açafrão é o facto de ter baixa biodisponibilidade, ou seja, o corpo não absorve grandes quantidades aquando da sua ingestão e rapidamente ele é eliminado. Contudo, existe uma forma de, naturalmente, aumentar a sua absorção… Para além disso, indivíduos com problemas dos ductos biliares têm de ter algum cuidado aquando da ingestão desta especiaria. Isto já foi anteriormente referido. Assim aconselho-te a leres esse artigo lançado à uns meses atrás para obteres as tuas respostas face a estes dois últimos aspetos (clica aqui) (Ahmed & Gilani, 2013; Bhat, et al., 2019).

Assim, em vez de gastares muito dinheiro em suplementos de curcumina ou açafrão, compra a raiz ou mesmo a especiaria em pó. Facilmente a encontras em qualquer supermercado por um par de euros.

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Ahmed, T., & Gilani, A.-H. (2013). Therapeutic Potential of Turmeric in Alzheimer’s Disease: Curcumin or Curcuminoids? PHYTOTHERAPY RESEARCH, 28, 517-525.
  • Bhat, A., Mahalakshmi, A. M., Ray, B., Tuladhar, S., Hediyal, T. A., Manthiannem, E., . . . Sakharkar, M. K. (12 de April de 2019). Benefits of curcumin in brain disorders. (I. U. Biology, Ed.) BioFactors, 1-24.
  • Bilia, A. R., Bergonzi, M. C., Isacchi, B., Antiga, E., & Caproni, M. (2018). Curcumin nanoparticles potentiate therapeutic effectiveness of acitrein in moderate-to-severe psoriasis patients and control serum cholesterol levels. JPP.
  • Ferguson, J. J., Stojanovski, E., MacDonald-Wicks, L., & Garg, M. L. (May de 2018). Curcumin potentiates cholesterol-lowering effects of phytosterols in hypercholesterolaemic individuals. A randomised controlled trial. Metabolism, 82, 22-35.
  • Hishikawa, N., Takahashi, Y., Amakusa, Y., Tanno, Y., Tuji, Y., Niwa, H., . . . Krishna, U. K. (Oct-Dec de 2012). Effects of turmeric on Alzheimer’s disease with behavioral and psychological symptoms of dementia. Ayu, 33(4), 499-504.
  • Panahi, Y., Khalili, N., Sahebi, E., Namazi, S., Reiner, Ž., Majeed, M., & Sahebkar, A. (2017). Curcuminoids modify lipid profile in type 2 diabetes mellitus: A randomized controlled trial. Complementary Therapies in Medicine, 33, 1-5.
  • Ringman, J. M., Frautschy, S. A., Teng, E., Begum, A. N., Bardens, J., Beigi, M., . . . Masteman, D. L. (2012). Oral curcumin for Alzheimer’s disease: tolerability and efficacy in a 24-week randomized, double blind, placebo-controlled study. Alzheimer’s Research & Therapy, 4(43).
  • Roher, A. E., Tyas, S. L., Maarouf, C. L., Daugs, I. D., Kokjohn, T. A., Emmerling, M. R., . . . Beach, T. G. (July de 2011). Intracranial atherosclerosis as a contributing factor to Alzheimer’s disease dementia. Alzheimers Dement, 7(4), 436-444.
  • Shabir, O., Berwick, J., & Francis, S. E. (2018). Neurovascular dysfunction in vascular dementia, Alzheimer’s and atherosclerosis. BMC Neurosci, 19(62).
  • Shishodia, S., Sethi, G., & Aggarwal, B. B. (2005). Curcumin: Getting Back to the Roots. New York Academy of Sciences, 1056, 206-2017.
  • Tang, M., & Taghibiglou, C. (2017). The Mechanisms of Action of Curcumin in Alzheimer’s Disease. Journal of Alzheimer’s Disease, 58, 1003–1016.
  • Xie, B., Shi, X., Xing, Y., & Tang, Y. (11 de Mar de 2020). Association between atherosclerosis and Alzheimer’s disease: A systematic review and meta-analysis. Brain and Behavior.
  • Yarchoan, M., Xie, S. X., Kling, M. A., Toledo, J. B., Wolk, D. A., Lee, E. B., . . . Arnold, S. E. (2012). Cerebrovascular atherosclerosis correlates with Alzheimer pathology in neurodegenerative dementias. Brain, 135, 3749–3756.
  • Zhu, J., Wang, Y., Li, J., Deng, J., & Zhou, H. (11 de March de 2014). Intracranial artery stenosis and progression from mild cognitive impairment to Alzheimer disease. Neurology, 82, 842-849.

 

 

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