A semana passada falou-se da relação entre a placa aterosclerótica e Doença de Alzheimer (DA) (clica aqui). Assim, se conseguirmos reduzir esta placa, possivelmente conseguiremos reduzir o risco de desenvolver esta patologia cognitiva.

O número de pessoas com demência, sobretudo DA é expectável que aumente nas próximas décadas devido ao envelhecimento da população. Em cada ano surgem cerca de 9.9 milhões de novos casos de demência a nível mundial, ou seja um novo caso a cada 3.2 segundos (Pistollato, et al., 2018).

Até aos dias de hoje nenhuma terapia demonstrou ser eficaz na redução ou amenização da disfunção cognitiva em pacientes com DA, daí a importância da prevenção. Se se conseguisse atrasar os sintomas por apenas 1 ano, poder-se-ia reduzir a prevalência desta doença em mais de 9 milhões de casos ao longo dos próximos 40 anos  (Barnes & Yaffe, 2011; Pistollato, et al., 2018)

Dentro dos fatores de risco modificáveis encontram-se fatores de risco cardiovasculares (ex: diabetes, obesidade, resistência à insulina, hipertensão arterial), doenças cardiovasculares e síndrome metabólica, fatores psicossociais (ex: depressão) e fatores comportamentais, tais como alimentação, atividade física e tabagismo. De facto, o estudo de Barnes & Yaffe demonstrou que a prevalência da DA a nível mundial é reduzida aquando da diminuição entre 10-25% de alguns destes fatores de risco (figura 1) (Barnes & Yaffe, 2011; Pistollato, et al., 2018).

Figura 1 Número de casos de DA a nível mundial que podem ser prevenidos aquando redução de fatores de risco modificáveis (Barnes & Yaffe, 2011)

Evidência científica também tem demonstrado que a formação de placa amoilóide, que é uma característica fisiológica desta patologia, ocorre várias décadas antes do aparecimento dos sintomas típicos e, tal como referido anteriormente, o mesmo acontece com a placa aterosclerótica (mais infos aqui). Assim, é neste período pré-clinico (onde alterações fisiológicas ocorrem sem a manifestação de sintomas) que é essencial a implementação de estratégias de prevenção de forma a reduzir o risco de desenvolver DA (Pistollato, et al., 2018).

Assim, que estilos de vida/ hábitos alimentares devem ser adotados?

Segundo o artigo de Pistollato, el al., 2018 “Padrões diatéticos saudáveis, caracterizados pelo aumento da ingestão de alimentos à base de plantas, probióticos, antioxidantes, soja, frutos secos e ácido-gordo polinsaturado Omega-3 e uma baixa ingestão de gorduras saturadas, proteína animal e açúcares refinados, têm demonstrado que é possível controlar de forma positiva a inflamação e a resposta do sistema imunitário, reduzir a resistência à insulina, diminuir o risco de alterações neurocognitivas e, eventualmente a DA”. Contudo, estudos sobre suplementos alimentares de vitaminas e Omega-3 apresentaram não ter benefícios, efeitos contraditórios ou apenas efeitos mínimos na redução do risco de AD e demência, em humanos (Pistollato, et al., 2018).

Assim, alterações alimentares que tenham como objetivo reduzir a resistência à insulina, a quantidade de gorduras no sangue, a obesidade abdominal e o stress oxidativo bem como  a redução da inflamação poderão ser estratégias mais efetivas na prevenção de DA que tomar suplementos de um nutriente específico (Pistollato, et al., 2018).

Dietas calóricas e ricas em gorduras e óleos estão associadas à progressão de DA uma vez que promovem o stress oxidativo por aumento de radicais livres e consequente inflamação. Assim, alimentos ricos em antioxidantes como frutas, vegetais e sobretudo especiarias, tendem a ser protetores face a esta doença (Barnes & Yaffe, 2011) (para mais informações sobre antioxidantes clica aqui, aqui, aqui e aqui).

Um estudo analisou a prevalência da DA em indivíduos com mais de 65 anos de 11 países diferentes e verificou que esta era maior nos países onde se ingerem maiores quantidades de calorias e gorduras (figura 2).

Figura 2 Prevalência da DA em 11 países. Esta aumenta de acordo com o aumento da ingestão de gorduras (Barnes & Yaffe, 2011)

Contudo, nem todas as gorduras são iguais. De acordo com os resultados de uma investigação, as gorduras saturadas são as que pior fazem e as monoinsaturadas são as que fazem melhor. Mas, quais são os alimentos com maior quantidade de gorduras saturadas? Carnes, carnes processadas, leite gordo, queijo, doces… (My Food Data, s.d.; Okereke, et al., 2012)

Ligação entre intestino e cérebro

Recordas-te do artigo que publiquei sobre o microbioma e a síndrome do intestino permeável? Aconselho-te a leres este artigo para perceberes do que vou falar em seguida (clica aqui).

Nos últimos anos, a flora intestinal ou microbioma, tem sido alvo de muitíssimos estudos e aparentemente tem um papel importantíssimo na nossa saúde. Não só apresenta um papel importante na nutrição e digestão, como também ajuda na regulação da inflamação, imunidade e protege-nos contra agentes patogénicos. A flora intestinal é influenciada por variados fatores tais como genética, alimentação, metabolismo, idade, geografia, tratamento com antibióticos e stress (Akbari, et al., 2016; Singh, et al., 2017)

Interessante será dizer que existe uma ligação entre o Sistema Nervoso central e o trato gastrointestinal e, tal como anteriormente referido, quando a barreira intestinal é comprometida, podem entrar microrganismos na nossa corrente sanguínea, podendo estes chegar a qualquer lado do corpo, incluindo o nosso cérebro, e potenciar inflamação neural e, possivelmente, contribuir para o desenvolvimento de problemas neuro degenerativos como a DA (Kowalski & Mulak, 2019).

É interessante referir que um estudo demonstrou que a utilização de probióticos (bactérias benéficas presentes nos intestinos que melhoram a saúde geral do organismo) durante 12 semanas teve um impacto significativamente positivo na função cognitiva (avaliada através do teste cognitivo “Mini-Mental State Examination” no início e final da investigação) de 30 participantes com DA, comparativamente com o grupo placebo. Em 2019, um estudo muito similar (contudo o grupo de intervenção teve de ingerir probióticos e suplemento de selénio) também apresentou resultados muito idênticos a esta investigação. Mais uma vez se verificou uma relação entre intestino e sistema nervoso central (Akbari, et al., 2016; Tamtaji, et al., 2019).

Tal como referido anteriormente, o tipo de microbioma altera-se consoante a alimentação que adotamos. Estudos demonstraram que:

  • Dietas ricas em gorduras saturadas e proteína animal promovem uma alteração do microbioma, diminuindo a quantidade de bactérias benéficas e consequente destruição da barreira intestinal (Abegunde, Muhammad, Bhatti, & Ali, 2016; Mu, Kirby, Reilly, & Luo, 2017).
  • Estudos concluíram que a proteína animal, proveniente da carne, ovos e queijo aumenta a quantidade de bactérias patológicas nos intestinos enquanto que a proteína vegetal apresenta o efeito oposto (Singh, et al., 2017).
  • A produção de ácidos gordos de cadeia curta aquando do metabolismo de carbohidratos complexos, como por exemplo a fibra, é a melhor fonte de energia para os microrganismos presentes no intestino e contribui para o fortalecimento da barreira intestinal (Singh, et al., 2017);

E quais os alimentos ricos em fibra? São os alimentos vegetais (para alguns exemplos clica aqui)

Resumidamente (Pistollato, et al., 2018):

A adoção de uma dieta saudável à base de plantas deve ser considerada como primeira linha de defesa contra o desenvolvimento e progressão da DA (Barnes & Yaffe, 2011)

Nota: se gostaste do artigo podes avaiá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Abegunde, A. T., Muhammad, B. H., Bhatti, O., & Ali, T. (21 de July de 2016). Environmental risk factors for inflammatory bowel diseases: Evidence based literature review. World J Gastroenterol, 22(27), 6296-6317.
  • Akbari, E., Asemi, Z., Kakhaki, R. D., Bahmani, F., Kouchaki, E., Tamtaji, O. R., . . . Salami, M. (2016). Effect of Probiotic Supplementation On cognitive Function and Metabolism Status in Alzheimer´s Disease: A Rondomized, Double-Blind and Controlled Trial. Frontiers in Aging Neuroscience, 8(256).
  • Barnes, D. E., & Yaffe, K. (September de 2011). The Projected Impact of Risk Factor Reduction on Alzheimer’s Disease Prevalence. Lancet Neurol, 10(9), 819–828.
  • Glick-Bauer, M., & Yeh, M.-C. (2014). The Health Advantage of a Vegan Diet: Exploring the Gut Microbiota Connection. Nutrients, 6, 4822-4838.
  • Kowalski, K., & Mulak, A. (January de 2019). Brain-Gut-Microbiota Axis in Alzheimer’s Disease. J Neurogastroenterol Motil, 25(1), 48-60.
  • Mu, Q., Kirby, J., Reilly, C. M., & Luo, X. M. (23 de May de 2017). Leaky Gut As a Danger Signal for Autoimmune Diseases. Frontiers in Immunology, 8, 1-10.
  • My Food Data. (s.d.). Obtido de My Food data: https://tools.myfooddata.com/
  • Okereke, O. I., Rosner, B. A., Kim, D. H., Kang, J. H., Cook, N. R., Manson, J. E., . . . Grodstein, F. (July de 2012). Dietary fat types and 4-year cognitive change in community-dwelling older women. Ann Neurol., 72(1), 124-134.
  • Pistollato, F., Iglesias, R. C., Ruiz, R., Aparicio, S., Crespo, J., Lopez, L. D., . . . Battino, M. (May de 2018). Nutritional patterns associated with the maintenance of neurocognitive functions and the risk of dementia and Alzheimer’s disease: a focus on human studies. Pharmacological Research, 131, 32-43.
  • Singh, R. K., Chang, H.‑W., Yan, D., Lee, K. M., Ucmak, D., Wong, K., . . . Liao, W. (2017). Influence of diet on the gut microbiome and implications for human health. Journal of Translational Medicine, 15(73), 2-17.
  • Tamtaji, O. R., Heidari-soureshjani, R., Mirhosseini, N., Kouchaki, E., Bahmani, F., Aghadavod, E., . . . Asemi, Z. (2019). Probiotic and selenium co-supplementation, and the effects on clinical, metabolic and genetic status in Alzheimer’s disease: A randomized, double-blind, controlled trial. Clinical Nutrition, 38, 2569-2575.

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