A disfunção cognitiva é um problema neuro degenerativo que provoca nos indivíduos a perda capacidades de pensar e lembrar. Este problema pode, por vezes progredir para disfunções mentais ou demências (Campbell & Campbell, 2016).

Os tipos de demência mais comuns são a demência vascular e a Doença de Alzheimer (DA). A primeira é causada por múltiplos pequenos acidentes vasculares cerebrais (AVC’s) onde se dá o rompimento de vasos sanguíneos no cérebro. Muitas vezes são silenciosos, ou seja, não são detetáveis ou diagnosticados. A segunda, que representa cerca de 60-70% dos casos de demência, leva a uma redução lenta de todas as funções cognitivas tais como memória, linguagem, personalidade e capacidades viso-espaciais. Estima-se que afeta 1% da população com mais de 60 anos e cerca de 45% dos indivíduos com idades iguais ou superiores a 85. De facto, segundo a Organização Mundial de Saúde existem mundialmente cerca de 50 milhões de casos de demência e prevê-se que este número aumente para 82 milhões até 2030. A DA é o tipo de demência mais comum a nível mundial (Barak & Aizenberg, 2010; Campbell & Campbell, 2016; Shabir, Berwick, & Francis, 2018; Xie, Shi, Xing, & Tang, 2020).

Em 2017 ocorreram em Portugal 1569 mortes (1.4% da mortalidade) devido a DA. Este número aumentou para 1689 em 2018 (Instituto Nacional de Estatística, 2019;Instituto Nacional de Estatística, 2020).

Devido ao envelhecimento da população e a outros fatores, prevê-se que a incidência e a prevalência da DA aumente. Uma vez que esta patologia não apresenta tratamento e as terapias que existem atualmente apenas ajudam a reduzir a sua progressão sem esperança de uma cura é necessário identificar e modificar os seus fatores de risco (Arab & Sabbagh, 2010; Roher, et al., 2011).

Estudos têm demonstrado que pessoas de diferentes etnias, como por exemplo Africo-americanos ou Japoneses a viver nos Estados Unidos da América, apresentam maior prevalência em comparação com os indivíduos que ainda vivem nos seus países de origem. Isto pode indicar que mais que a genética, fatores como estilos de vida e hábitos alimentares podem ter um papel muito mais importante no desenvolvimento de DA (Arab & Sabbagh, 2010).

Mas o que é que causa esta patologia?

Este problema de saúde foi primariamente relatado em 1907 quando um médico chamado Alois Alzheimer teve uma paciente com 51 anos que desenvolveu problemas de memória, desorientação temporal e espacial e alucinações. Segundo o relatório deste médico a autópsia desta mulher revelou alterações ateroscleróticas cerebrais (Stelzmann, Schnitzlein, & Murtagh, 1995).

A aterosclerose, ou placa aterosclerótica consiste numa camada de proteínas e gorduras, incluindo o colesterol e células do sistema imunitário que se acumulam nas paredes das artérias e que, apesar de a associarmos a problemas cardíacos ou cerebrais como enfartes do miocárdio ou AVC´s, se podem formar em qualquer parte do sistema vascular (Campbell & Campbell, 2016).

Para além disto, a DA apresenta como característica a deposição de proteína beta-amilóide no cérebro, formando placas amiloides que contribuem para a disfunção e morte dos neurónios e consequente deterioração cognitiva e funcional  (Shabir, Berwick, & Francis, 2018; Xie, Shi, Xing, & Tang, 2020; Yarchoan, et al., 2012).

De facto, já há inúmeros estudos e meta-análises a concluírem que existe uma relação entre a aterosclerose e a DA. Indivíduos que apresentem o colesterol elevado a meio da sua vida apresentam maior risco de desenvolver DA mais tarde (Roher, et al., 2011; Shabir, Berwick, & Francis, 2018; Xie, Shi, Xing, & Tang, 2020; Yarchoan, et al., 2012; Zhu, Wang, Li, Deng, & Zhou, 2014).

Uma investigação publicada em 2012 analisou a relação entre disfunção cognitiva e estenose arterial intracranial (consiste num estreitamento anormal das artérias presentes no cérebro devido a uma placa aterosclerótica). Assim, 423 participantes com disfunção cognitiva ligeira foram seguidos durante 4 anos. Anualmente eles tiveram de realizar uma angiografia de forma a se medir a quantidade de estenose presente no cérebro. No final do estudo 116 participantes (27.4%) desenvolveram DA. Os que demonstraran maior estenose arterial apresentaram maior risco de desenvolver esta patologia (figura 2) (Zhu, Wang, Li, Deng, & Zhou, 2014).

Figura 1 Progressão da função cognitiva entre pacientes com variados graus de estenose (grau 1 estenose ligeira e grau 3 estenose avançada) no teste cognitivo “Mini Mental State Examination” (MMSE) – figura A e em atividades da vida diária (ADL) – figura B. Verifica-se que os que apresentaram estenose avançada, ao longo do estudo tiveram uma maior progressão da disfunção cognitiva e maiores dificuldades no dia-a-dia (Zhu, Wang, Li, Deng, & Zhou, 2014).

Um outro estudo realizou várias autópsias e verificou que os indivíduos que apresentaram DA apresentavam maior oclusão de diversas artérias cerebrais, comparativamente com o grupo controlo. De facto no grupo DA, cerca de 48% das artérias analisadas apresentaram 60% de obstrução, 29% apresentaram 70% de obstrução e 14% apresentaram 80% de obstrução (Roher, et al., 2011).

Figura 2 Artérias analisadas no estudo de Roher, et al., 2011. À esquerda (grupo controlo) estas encontram-se abertas e à direita verifica-se obstrução arterial por aterosclerose (grupo DA).

Devido a esta relação entre formação de placa aterosclerótica e DA, vários estudos têm demonstrado que patologias como hipertensão arterial, diabetes mellitus e doenças cardio e cerebrovasculares são fatores de risco vasculares para o desenvolvimento de DA por diminuição da circulação a nível cerebral, consequente redução do oxigénio que chega a este órgão e por aumento da deposição de proteína beta-amilóide (figura 3). A aterosclerose também aumenta o stress oxidativo e a rigidez das artérias o que, juntamente com os outros fatores referidos, vai levar a alterações cognitivas (Shabir, Berwick, & Francis, 2018; Xie, Shi, Xing, & Tang, 2020) (Roher, et al., 2011)

Figura 3. Relação esquemática entre problemas vasculares e DA (Shabir, Berwick, & Francis, 2018).

Assim, uma das possíveis formas de reduzir os riscos de DA é diminuir a placa aterosclerótica. De facto, os resultados de uma investigação demonstraram que cerca de 640.000 casos de DA poderiam ser prevenidos mundialmente se houvesse uma redução de 10% (separadamente) na prevalência de hipertensão, diabetes e utilização de tabaco (Xie, Shi, Xing, & Tang, 2020).

Uma forma de reduzir esta placa é através da alteração dos estilos de vida que adotamos (Roher, et al., 2011).

Mas como??

Isto será esclarecido no próximo artigo! Fiquem atentos!

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Bibliografia

  • Arab, L., & Sabbagh, M. N. (2010). Are certain life style habits associated with lower Alzheimer disease risk? J Alzheimers Dis, 20(3), 785-794.
  • Barak, Y., & Aizenberg, D. (2010). Is dementia preventable? Focus on Alzheimer’s disease. Expert Rev. Neurother, 10(11), 1689–1698.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2019). Causas de morte 2017. Lisboa, Portugal: Instituto Nacional de Estatística.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2020). Estatísticas de Saúde 2018. INE.
  • Roher, A. E., Tyas, S. L., Maarouf, C. L., Daugs, I. D., Kokjohn, T. A., Emmerling, M. R., . . . Beach, T. G. (July de 2011). Intracranial atherosclerosis as a contributing factor to Alzheimer’s disease dementia. Alzheimers Dement, 7(4), 436-444.
  • Shabir, O., Berwick, J., & Francis, S. E. (2018). Neurovascular dysfunction in vascular dementia, Alzheimer’s and atherosclerosis. BMC Neurosci, 19(62).
  • Stelzmann, R. A., Schnitzlein, H. N., & Murtagh, F. R. (1995). An English I’ranslation of Alzheimer’s 1907 Paper, “ijber eine eigenartige Erlranliung der Hirnrinde”. Clinical Anatomy, 8, 429-431.
  • Xie, B., Shi, X., Xing, Y., & Tang, Y. (11 de Mar de 2020). Association between atherosclerosis and Alzheimer’s disease: A systematic review and meta-analysis. Brain and Behavior.
  • Yarchoan, M., Xie, S. X., Kling, M. A., Toledo, J. B., Wolk, D. A., Lee, E. B., . . . Arnold, S. E. (2012). Cerebrovascular atherosclerosis correlates with Alzheimer pathology in neurodegenerative dementias. Brain, 135, 3749–3756.
  • Zhu, J., Wang, Y., Li, J., Deng, J., & Zhou, H. (11 de March de 2014). Intracranial artery stenosis and progression from mild cognitive impairment to Alzheimer disease. Neurology, 82, 842-849.

 

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