O refluxo gastro esofágico (RGE) é um problema do sistema digestivo bastante comum a nível mundial. Os principais sintomas são: dor abdominal, que por vezes pode irradiar até à boca e refluxo do conteúdo do estômago para o esófago, causando um sabor desagradável na garganta (Clarrett & Hachem, 2018).

A prevalência deste problema de saúde varia a nível mundial, verificando-se o seu aumento nos Estados Unidos da América e na Europa. Já a Ásia apresenta menor prevalência. Estas diferenças podem-se dever a fatores diatéticos (Jung, et al., 2013; Rubenstein & Chen, 2014).

Figura 1 Prevalência do RGE

Dentro dos fatores de risco para este problema podem-se destacar (Clarrett & Hachem, 2018; Jung, et al., 2013):

  • Aumento da idade;
  • Ser do sexo masculino;
  • Aumento do Índice de Massa Corporal (IMC)
  • Obesidade;
  • Presença de Hérnia do Hiato;
  • Consumo de tabaco;
  • Ansiedade e depressão;
  • Diminuição de atividade física.

Dentro das complicações desta patologia podem-se destacar (Clarrett & Hachem, 2018):

  • Inflamações do esófago – esofagites (podem causar úlceras e sangramentos da área inflamada);
  • Cancro do esófago/estômago.

É de notar que, de acordo com os dados de 2010, o cancro de estômago foi o quarto mais frequente no país (Direção Geral de Saúde, 2016).

Figura 2 Número de óbitos devido a cancro de estômago (Direção Geral de Saúde, 2016)

Tanto a endoscopia como a monitorização do pH do esófago durante 24-48h são as formas mais comuns de diagnosticar este problema (Clarrett & Hachem, 2018).

O tratamento inclui (Centro de Informação do medicamento e Produtos de Saúde, 2017; Clarrett & Hachem, 2018):

  • Fármacos: como antiácidos e inibidores da bomba de protões (estes últimos são, por exemplo, omeoprazol e lansoprazol entre outros). Estes reduzem a quantidade de ácidos no estômago. Muitos pacientes apresentam relapso quando param a toma destes medicamentos, e devido a isto, estes são utilizados a longo prazo. Contudo, apresentam efeitos secundários tais como aumento do risco de fraturas, infeções, pólipos no estômago, lúpus eritematoso cutâneo subagudo e insuficiência renal entre outros;
  • Dormir com inclinação de forma a que a cabeça esteja mais elevada que o resto do corpo;
  • Redução do consumo de tabaco, álcool, refeições noturnas de grandes quantidades, ceias noturnas e consumo de elevada quantidade de gorduras.

Esta patologia está primariamente relacionada com o esfíncter esofágico inferior, que se encontra relaxado. Este é uma espécie de válvula que separa o esófago do estômago e que se encontra fechado, de forma a evitar que os conteúdos deste último se desloquem para o esófago (Clarrett & Hachem, 2018).

Mas o que é que está a provocar o relaxar deste esfíncter?

Estudos têm demonstrado que tanto em indivíduos com ou sem RGE, ocorre um relaxamento do esfíncter esofágico e um aumento da produção de ácido aquando do consumo de alimentos ricos em gordura (B El-Serag & Rabeneck, 2005).

Então, que alimentos podem ajudar e quais os que podem agravar estes sintomas?

Um estudo analisou a relação entre RGE e a ingestão de certos componentes alimentares e concluiu que os participantes que ingeriam maiores quantidades de gordura total, colesterol e gorduras saturadas apresentavam sintomas de RGE mais frequentes do que os que consumiam menores quantidades destes componentes. Já a fibra alimentar apresentou um efeito protetor no desenvolvimento destes sintomas (B El-Serag & Rabeneck, 2005).

Um artigo de revisão analisou 80 estudos científicos de forma a perceber se haveria uma relação entre fatores dietéticos e cancros do estômago e esófago. Assim, houve uma relação inversa entre o consumo de frutas e vegetais e o risco de se desenvolverem estes problemas de saúde. Dentro das frutas e vegetais os que apresentaram maiores efeitos protetores foram os alimentos vermelhos-laranjas (ex: cenouras e tomates), vegetais de folha verde escura (ex: espinafres), sumo de cereja, maçãs e citrinos. Contudo, suplementos alimentares de antioxidantes não surtiram nenhum efeito positivo no tratamento destas patologias (Ceglie, Fisher, Filiberti, & S. Blanchid, 2011).

Um outro estudo demonstrou haver uma diminuição significativa no risco de se desenvolver cancro do esófago em indivíduos do sexo masculino caucasianos que ingeriam maiores quantidades de frutas e vegetais crus e crucíferos (Brown, et al., 1995).

Porque é que estes alimentos ajudam tanto?

Tal como referido anteriormente, frutas e vegetais são alimentos com elevadas quantidades de antioxidantes estando o seu consumo associado a uma redução da probabilidade de se desenvolver cancro do esófago. Este facto foi confirmado em diversos estudos científicos, incluindo o estudo de Terry, Largergren, Ye, Nyre’n,& Wolk, 2000. Contudo, estes autores confirmaram também que suplementos vitamínicos não reduzem o risco de aparecimento deste problema de saúde (TERRY, LAGERGREN, YE, NYRE´N, & WOLK, 2000) . Se quiseres saber mais sobre antioxidantes clica aqui.

Por outro lado, dietas ricas em cereais refinados, carne e gorduras aumentam o risco de se desenvolver RGE e cancro. O consumo elevado de gorduras foi associado a um aumento do risco de se desenvolver cancro do esófago e do estômago. As carnes vermelhas foram associadas ao aumento do risco de cancro do esófago e o consumo de aves de capoeira e laticínios foi associados ao aumento do risco de cancro do estômago (Ceglie, Fisher, Filiberti, & S. Blanchid, 2011; Silvera, et al., 2008).

E os ovos? Também fazem mal?

Segundo as conclusões de um estudo científico, a ingestão de ovos foi um fator de risco para se desenvolver RGE. A ingestão da gema do ovo aumentou nos níveis sanguíneos de uma hormona chamada colecistoquinina que promove o relaxamento do esfíncter esofágico inferior. É de notar que esta hormona também se encontra no sangue em maiores quantidades após ingestão de carnes de vaca, porco e de aves de capoeira (Matsuki, et al., 2013).

Figura 3 Quantidades de colecistoquinina na corrente sanguínea após ingestão de diferentes tipos de carne

Resumidamente:

  • O RGE consiste na deslocação de conteúdos do estômago para o esófago;
  • Este problema está relacionado com o relaxamento do esfíncter esofágico inferior;
  • O consumo de ovos e carne promove o relaxamento deste esfíncter;
  • RGE pode levar a outros problemas de saúde, incluindo o cancro;
  • Alimentos à base de plantas tendem a reduzir os riscos de se desenvolver RGE e cancro do esófago/estômago, enquanto que os produtos à base de animais aumentam estes riscos;
  • Mais do que controlar os sintomas com a toma de medicamentos, devem-se tratar as causas do problema que, muitas vezes são os hábitos alimentares e estilos de vida adotados pelos indivíduos.

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • B El-Serag, J. A., & Rabeneck, L. (2005). Dietary intake and the risk of gastro-oesophageal reflux disease: a cross sectional study in volunteers. Gut, 54, 11-17.
  • Brown, L. M., Swanson, C. A., Gridley, G., Swanson, G. M., Schoenberg, J. B., Greenberg, R. S., . . . Hoover, R. N. (1995). Adenocarcinoma of the Esophagus: Role of Obesity and Diet. Natl Cancer Inst, 87, 104-109.
  • Ceglie, A. D., Fisher, D., Filiberti, R., & S. Blanchid, M. C. (2011). Barrett’s esophagus, esophageal and esophagogastric junction adenocarcinomas: The role of diet. Clinics and Research in Hepathology and Gastroenterology, 35, 7-16.
  • Centro de Informação do medicamento e Produtos de Saúde. (2017). Recomendações Terapêuticas: INIBIDORES DA BOMBA DE PROTÕES (IBP). Infarmed. Serviço Nacional de Saúde. Obtido em 25 de Novembro de 2019, de https://www.infarmed.pt/documents/15786/1909769/Inibidores+da+Bonba+de+Prot%C3%B5es/fe44c351-515c-4ab4-a437-689f2f8c1aae
  • Clarrett, D. M., & Hachem, C. n. (May/June de 2018). Gastroesophageal Refl ux Disease (GERD). Science of Medicine| Feature Series, 115(3), 214-218.
  • Direção Geral de Saúde. (2016). PORTUGAL- Doenças Oncológicas em Números -2015. Lisboa: Direção Geral de Saúde.
  • Jung, J. G., Kang, H. W., Hahn, S. J., Kim, J. H., Lee, J. K., Lim, Y. J., . . . Lee, J. H. (19 de Mar de 2013). Vegetarianism as a Protective Factor for Reflux Esophagitis: A Retrospective, Cross-Sectional Study Between Buddhist Priests and General Population. Dig Dis Sci, 58(8), 2244-52.
  • Matsuki, N., Fujita, T., Watanabe, N., Sugahara, A., Watanabe, A., Ishida, T., . . . Azuma, T. (2013). Lifestyle factors associated with gastroesophageal reflux disease in the Japanese population. J Gastroenterol, 48, 340-349.
  • Rubenstein, J. H., & Chen, J. W. (2014). Epidemiology of Gastroesophageal Reflux Disease. Gastroenterol Clin N Am, 43, 1-14.
  • Silvera, N., ST, M., H, R., MD, G., T, V., W-H, C., . . . Jr, F. J. (15 de August de 2008). Food group intake and risk of subtypes of esophageal and gastric cancer. Int J Cancer., 123(4), 852-860.
  • TERRY, P., LAGERGREN, J., YE, W., NYRE´N, O., & WOLK, A. (2000). ANTIOXIDANTS AND CANCERS OF THE ESOPHAGUS AND GASTRIC CARDIA. Int. J. Cancer, 87, 750–754.

 

 

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