Tal como já foi referido noutros artigos, a placa aterosclerótica é composta por camadas de proteínas, gorduras, incluindo o colesterol e células do sistema imunitário que se acumulam nas paredes das artérias (Campbell & Campbell, 2016).

Esta acumulação de placa acontece lenta e gradualmente ao longo de anos (Campbell & Campbell, 2016).

Mas agora a grande questão é: quando é que esta placa se começa a formar?

Em 1953 uns investigadores realizaram 300 autopsias a soldados Americanos que morreram em combate durante a Guerra da Coreia, com uma idade média de 22,1 anos. Interessante será de dizer que cerca de 77.3% destes soldados apresentaram indícios de placa aterosclerótica, havendo casos onde as artérias dos corações se encontravam 90% obstruídas. Apesar disto, eles não apresentavam sintomas de doença cardiovascular (William, Enos, Col, Holmes, & Beyer, 1953).

Assim, este estudo demonstrou que este problema surge anos e décadas antes da idade em que são diagnosticados problemas de coração.

Vários autores têm mesmo demonstrado que a formação desta placa se inicia na adolescência em populações onde existe grande morbilidade e mortalidade relativas a doenças cardiovasculares. Strong & McGill, 1969, realizaram 4737 autopsias em indivíduos de ambos os sexos com idades entre 10-39 anos e verificaram uma deposição de gordura entre 7-19% nas artérias dos indivíduos entre 10-14 anos, sendo que esta percentagem aumentou para 28% nos indivíduos com idades compreendidas entre 20-24 anos (Strong & McGill, 1969).

Mas, poderá esta deposição de gordura começar mesmo antes de se nascer?

Aparentemente sim, o que é surpreendente!

Uns investigadores analisaram as artérias de fetos que sofreram abordo espontâneo e recém-nascidos prematuros que faleceram nas primeiras 12 horas de vida e verificaram que as artérias dos fetos cujas mães apresentavam maiores níveis de colesterol LDL eram mais propensas a conter lesões arteriais (Napoli, et al., 1997).

Assim, para além de se recomendar às gravidas para não ingeriram álcool e não fumarem, também deveria ser importante recomendar uma alimentação mais saudável, especialmente para as que apresentam elevados níveis de colesterol.

O colesterol, especialmente o LDL é, de acordo com o chefe de redação da “American Journal of Cardiology”, o único fator crítico na formação desta placa. Segundo o mesmo, “a única forma de produzir aterosclerose experimentalmente é alimentando herbívoros com uma dieta rica em colesterol e/ou gorduras saturadas”. Mais acrescenta que é possível ser-se obeso, diabético e fumador e não desenvolver esta placa, desde que os níveis de colesterol no sangue se mantenham baixos (Roberts, 2010).

Mais então quais são os valores ideais de colesterol total e LDL?

Segundo vários autores, os valores ideais são manter um colesterol total <150mg/dl e níveis de LDL entre 50-70 mg/dl e quanto mais baixos estes valores forem, melhor. Se estes valores forem alcançados, segundo o Dr. Roberts “a grande praga do mundo ocidental (doenças cardiovasculares) seria essencialmente eliminada” (Caldwell B. Esselstyn, 1998; Caldwell B. Esselstyn, Ellis, Medendorp, & Crowe, 1995; James H. O’Keefe, Cordain, Harris, Moe, & Vogel, 2004; Roberts W. C., 2008; Roberts W. C., 2010).

Estarão os portugueses a atingir estes valores?

Segundo um artigo de revisão português, em 2005 a média do colesterol total em indivíduos com 50 anos foi de 215 mg/dl no sexo feminino e 219 mg/dl para o masculino. Já os níveis de colesterol LDL em 2001 para a mesma faixa etária foi de 140 mg/dl nas mulheres e 146 mg/dl nos homens (Carreira, Pereira, Alves, Lunet, & Azevedo, 2012).

Um estudo com dados mais recentes analisou 16.856 portugueses com idade média de 58.1 ± 15.1 anos e 47% apresentou níveis de colesterol total  >200mg/dl e 38.4% apresentou níveis de LDL >130mg/dl (Cortez-Dias, Martins, Belo, & Fiúza, 2013)

Assim, facilmente se observa que estamos muito longe dos valores recomendados!

Contudo, se olharmos para as nossas análises sanguíneas e verificarmos os valores de referência de LDL e colesterol total podemos verificar que estes são, respetivamente 0-130 mg/dl e <200 mg/dl, o que também é superiores aos valores propostos supra citados.

Mas… porquê?…

Aparentemente as “guidelines” para os valores de referência foram criadas exclusivamente para “reduzir o risco” de problemas de saúde em vez de reduzir a formação de placa aterosclerótica (Roberts W. C., 2008).

Note-se que os valores portugueses são idênticos aos valores americanos e os níveis de colesterol ditos “normais” podem ser demasiado elevados ao ponto de não serem protetores. Um estudo demonstrou que 75% de indivíduos que sofreram um ataque cardíaco apresentavam valores de LDL que se encontravam dentro dos valores ditos “normais” (Javed, et al., 2011).

Um bom exemplo foi um dos casos que falei no meu segundo artigo publicado (clica aqui), onde um médico que apresentou valores de colesterol “normais” (colesterol total: 156 ml/dL; LDL: 97 ml/dL) teve um ataque cardíaco e após 32 semanas a seguir uma alimentação “whole food plant based diet” ele reverteu o seu problema de coração!

Num dos seus artigos, Cardwell Esselstyn Jr explica que a razão pelo qual, segundo a “The First National Conference of Elimination and Prevention of Coronary Artery Disease”, os valores recomendados não são tão restritos como deveriam deve-se ao facto de que valores abaixo dos ditos “normais” poderem frustrar o público devido à dificuldade em se manter níveis de colesterol baixos. Este autor salienta que, na sua opinião, o que iria frustrar o público é o facto de este não ser informado sobre os valores de colesterol ideais e como a alimentação pode ajudar a alcançar e manter esses mesmos (Caldwell B. Esselstyn, 1998).

Então como podemos reduzir o colesterol?

Para se diminuir os níveis de colesterol é necessário reduzir o consumo de 3 coisas (Greger, 2015):

  • Gorduras hidrogenadas, provenientes de comida processada, carne e lacticínios;
  • Gorduras saturadas, presentes em produtos de origem animal e “fast food”;
  • Quantidade de colesterol diário ingerido.

Segundo as recomendações de 2013 da “American Heart Association” e da “American College of Cardiology” para se reduzir o risco de doença cardiovascular deve-se ingerir não mais de 5-6% de calorias diárias provenientes de gorduras saturadas. Contudo, isto é difícil de se atingir quando se tem uma alimentação omnívora pois estas estão presentes em todos os produtos animais (Eckel, et al., 2014).

Figura 1 Níveis de colesterol total e LDL em diferentes tipos de alimentação (Biase, Fernandes, Gianini, & Duarte, 2007)

Uma alimentação à base de plantas  – “Whole Food Plant Based Diet” – é a forma mais segura de reduzir os níveis de LDL e prevenir a formação de placa aterosclerótica, contudo o problema é que poucas pessoas estão dispostas a mudar os seus hábitos alimentares (Caldwell B. Esselstyn, 1998; Roberts W. C., 2010).

Após me informar sobre os valores ideais a primeira coisa que fiz foi ver as minhas análises sanguíneas. Eu fiz análises em 2016 e em 2019 e pensei que, com a idade os meus valores iam piorar. Contudo verificou-se o oposto: apesar de estes sempre terem sido baixos, em 2016 o meu colesterol total era de 135 mg/dl e em 2019 este valor desceu para 107. Já o LDL era de 43.8 mg/dl em 2016 e desceu para 36. Interessante será de dizer que comecei a mudar a minha alimentação em Novembro de 2018 e não poderia estar mais contente com os resultados!

Resumidamente:

  • A placa aterosclerótica pode-se começar a desenvolver mesmo antes do nascimento;
  • O colesterol, sobretudo o LDL é o principal, senão mesmo o único fator de risco para o desenvolvimento desta placa;
  • Os valores de colesterol ideias são inferiores aos valores recomendados;
  • A melhor forma de reduzir o colesterol é através de uma alimentação à base de plantas;
  • Após leres este artigo pega nas tuas últimas análises e vê os teus valores e verifica se estás em risco ou não;
  • Apesar de muitos não estarem dispostos a mudar os hábitos alimentares, informação é poder e quem sabe, este artigo pode ser o primeiro passo para mudares a tua alimentação.

Nota: se gotaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Biase, S. G., Fernandes, S. F., Gianini, R. J., & Duarte, J. L. (2007). Vegetarian Diet and Cholesterol and Triglycerides Levels. Arq Bras Cardiol, 88(1), 32-36.
  • Caldwell B. Esselstyn, J. (26 de November de 1998). Introduction: More Than Coronary Artery Disease. The American Journal of Cardiology, 82(108), 5T-9T.
  • Caldwell B. Esselstyn, J., Ellis, S. G., Medendorp, S. V., & Crowe, T. D. (1995). A Strategy to Arrest and Reverse Coronary Artery Disease: A 5-Year Longitudinal Study of a Single Physician’s Practice. The Journal of Family Practice, 41, 560-568.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Carreira, H., Pereira, M., Alves, L., Lunet, N., & Azevedo, A. (2012). Dyslipidaemia, and Mean Blood Cholesterol and Triglycerides Levels in the Portuguese Population: a Systematic Review. Arquivos de Medicina, 26(3), 112-123.
  • Cortez-Dias, N., Martins, S. R., Belo, A., & Fiúza, M. (2013). Characterization of lipid profile in primary health care users in Portugal. Revista Portugusa de Cardiologia, 32(12), 987-996.
  • Eckel, R. H., Jakicic, J. M., Ard, J. D., Jesus, J. M., Miller, N. H., Hubbard, V. S., . . . A, T. (2014). 2013 AHA/ACC Guideline on Lifestyle Management to Reduce Cardiovascular Risk: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force on Practice Guidelines . J Am Coll Cardiol, 2960-84.
  • Greger, D. M. (2015). Como não Morrer. Lua de Papel.
  • James H. O’Keefe, J., Cordain, L., Harris, W. H., Moe, R. M., & Vogel, R. (2 de June de 2004). Optimal Low-Density Lipoprotein Is 50 to 70 mg/dl – Lower Is Better and Physiologically Normal. Journal of the American College of Cardiology, 43(11), 2142-2146.
  • Javed, U., Deedwania, P. C., Bhatt, D. L., Cannon, C. P., Dai, D., Hernandez, A. F., . . . Fonarow, G. C. (2011). Use of intensive lipid-lowering therapy in patients hospitalized with acute coronary syndrome: An analysis of 65,396 hospitalizations from 344 hospitals participating in Get With The Guidelines (GWTG). American Heart Journal, 161(2), 418-424.e3.
  • Napoli, C., D’Armiento, F. P., Mancini, F. P., Postiglione, A., Witztum, J. L., Palumbo, G., & Palinski, W. (December de 1997). Fatty Streak Formation Occurs in Human Fetal Aortas and is Greatly Enhanced by Maternal Hypercholesterolemia. J. Clin. Invest., 100(11), 2680-2690.
  • Roberts, W. C. (29 de September de 2008). The Cause of Atherosclerosis. Nutrition in Clinical Practice, 23(464), 464-467.
  • Roberts, W. C. (2010). It’s the Cholesterol, Stupid! The American Journal of Cardiology, 106(9), 1364-1366.
  • Strong, J., & McGill, H. (24 de October de 1969). The Pediatric Aspects of Atherosclerosis. Journal of A therosclerosis Research, 9, 251-265.
  • William, M., Enos, F., Col, L., Holmes, R. H., & Beyer, C. J. (18 de July de 1953). Coronary Disease Among United Stated Soldiers Killed in Action in Korea. JAMA, 152(12), 1090-1093.

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