A disfunção cognitiva é um problema neuro degenerativo onde os indivíduos começam a perder capacidades de pensar e remembrar. Este problema pode, por vezes progredir para disfunções mentais ou demências (Campbell & Campbell, 2016).

Os tipos de demência mais comuns são a demência vascular e a Doença de Alzheimer. A primeira é causada por múltiplos pequenos AVC’s onde ocorre rompimento de vasos sanguíneos no cérebro e que, muitas vezes são silenciosos, ou seja não são detetáveis ou diagnosticados. Já a segunda é quando ocorre uma acumulação de uma placa composta por uma proteína chamada beta-amiloide em certas zonas cerebrais (Campbell & Campbell, 2016).

Para além disto, as demências estão associadas a doenças cardiovasculares, AVC´s e Diabetes Mellitus tipo 2, pois todas estas patologias apresentam alguns fatores de risco comuns: hipertensão e colesterol elevado. É de notar que estes dois últimos podem ser controlados através da alimentação.

Outro fator de risco para o desenvolvimento destes problemas mentais é a quantidade de radicais livres. Tal como referido no artigo da semana passada, o cérebro é considerado um órgão extremamente vulnerável ao stress oxidativo devido ao facto de necessitar de elevada quantidade de oxigénio para funcionar adequadamente. Assim, uma alimentação rica em antioxidantes pode ajudar a protegê-lo (Beydoun, Beydoun, Boueiz, Shrof, & Zonderman, 2013; Campbell & Campbell, 2016).

Alimentos à base de animais são pobres em antioxidantes e aumentam a formação de radicais livres, enquanto que alimentos à base de plantas são ricos em antioxidantes (e quais os melhores alimentos? Clica aqui para saberes mais) (Campbell & Campbell, 2016).

Penso que as doenças mentais sejam mesmo frustrantes pois, as pessoas começam a perder a sua identidade, a sua memória e muitas vezes deixam de reconhecer as pessoas que lhes são mais importantes… Óbvio que a família e conhecidos também sofrem e ficam frustrados ao verem que não são reconhecidos e que muitas memórias foram apagadas. Eu senti esta frustração na pele com alguns membros da minha família e sei que não é nada fácil… A pior parte é que atualmente não há cura para estes problemas e se num futuro houver, não se sabe o quão eficaz poderá ser e quando é que esta cura vai aparecer (Krikorian, et al., 2010).

Abordagens diatéticas têm mostrado ser eficazes e seguras na prevenção e tratamento de variados problemas de saúde e estudos têm demonstrado uma redução do risco de alterações neuro degenerativas aquando um aumento do consumo de frutas e vegetais (Barnes & Yaffe, 2011; Krikorian, et al., 2010).

Hoje vou-me focar num fruto específico: os mirtilos.

A primeira vez que experimentei esta fruta foi só há cerca de 2.5 anos atrás. Eu acho-os muito interessantes pois são azuis escuros por fora, verdes por dentro, mas se os esmagares o seu sumo é cor-de-rosa.

Esta fruta é rica em flavonoides (compostos bioativos presentes em plantas que ajudam na redução do stress oxidativo) e apresenta propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias (Bowtell, Aboo-Bakkar, Conway, Adlam, & Fulford., 2017).

O estudo de Kirkprian, et al., 2010, analisou se o consumo diário de sumo de mirtilo concentrado poderia melhorar a função cognitiva. Assim, dividiram os participantes (todos apresentavam ligeira alteração de memória) em 2 grupos: o de controlo que ingeriu sumo de uva e o de intervenção que ingeriu sumo de mirtilo. A quantidade de líquido ingerido dependeu do peso dos indivíduos e variou entre 444 e 621 ml/dia. Note-se para produzir 735 ml de sumo, são necessários 1Kg de mirtilos (Krikorian, et al., 2010)

Os resultados demonstraram que ao fim de 12 semanas, o grupo de intervenção apresentou melhorias a nível da memória e sintomas depressivos, em comparação com o grupo de controlo. Contudo, o grupo de intervenção teve de ingerir grandes quantidades de mirtilos, quantidades essas que não representam bem a realidade (Krikorian, et al., 2010).

Assim, existirão outros estudos onde se utilizaram doses mais realísticas?

Uma investigação decidiu também verificar os efeitos que os mirtilos podem ter na cognição. Assim, incluiu participantes com idades entre 60-75 anos que foram divididos também em dois grupos: placebo e intervenção e teve uma duração de 90 dias. É de notar que a quantidade de mirtilos usada foi o correspondente a 200g/dia (Miller, Hamilton, Joseph, & Shukitt‑Hale, 2017).

Ao fim de 3 meses o grupo que ingeriu os mirtilos apresentou melhorias no “Verbal Learning Test”, enquanto que o grupo placebo apresentou piores resultados. Os autores concluíram que o consumo diário de mirtilos pode melhorar alguns aspetos cognitivos em adultos mais velhos (Miller, Hamilton, Joseph, & Shukitt‑Hale, 2017).

Figura 1 Resultados Obtidos no “Verbal Learning Test” (Miller, Hamilton, Joseph, & Shukitt Hale, 2017)

Uma outra investigação decidiu verificar se o consumo de 30 ml/dia de sumo concentrado de mirtilos ajuda, ao fim de 12 semanas, a melhorar a atividade cerebral. Antes e após intervenção os participantes foram sujeitos a variados testes cognitivos e foram realizadas ressonâncias magnéticas funcionais. Este estudo concluiu que o consumo mirtilos aumentou a ativação de áreas cerebrais que estão associadas a alguns processos cognitivos que incluem memória e execução, que tendem a piorar com a idade (Bowtell, Aboo-Bakkar, Conway, Adlam, & Fulford., 2017)

Mas estes efeitos também se verificam em crianças?

Um grupo de investigadores decidiu dividir 21 crianças, com idades entre 7-10 anos, em 3 grupos: um grupo ingeriu 30g de mirtilos, outro 15g e outro 0g (controlo). Vários testes cognitivos foram realizados 1.15, 3 e 6 horas antes e após a ingestão desta fruta. Os resultados indicaram melhorias em todos os testes realizados, em comparação com o grupo de controlo, sendo que o grupo que apresentou melhores resultados foi o que ingeriu maiores quantidades desta fruta (AR, G, & CM, 2016).

Resumidamente:

  • Os mirtilos podem ajudar a melhorar a cognição, independentemente da idade;
  • Os seus efeitos ocorrem horas após o seu consumo;
  • Assim, será uma boa ideia introduzi-los na nossa alimentação diária.

Será que os mirtilos também podem ajudar noutros problemas de saúde, tais como problemas de coração? Fica atento ao artigo da próxima semana!

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • AR, W., G, S., & CM, W. (Sep de 2016). Cognitive effects following acute wild blueberry supplementation in 7- to 10-year- old children. Eur J Nutr, 55(6), 2151-62.
  • Barnes, D. E., & Yaffe, K. (September de 2011). The Projected Impact of Risk Factor Reduction on Alzheimer’s Disease Prevalence. Lancet Neurol, 10(9), 819–828.
  • Beydoun, M. A., Beydoun, H. A., Boueiz, A., Shrof, M. R., & Zonderman, A. B. (2013). Antioxidant status and its association with elevated depressive symptoms among US adults: National Health and Nutrition Examination Surveys 2005–06. Br J Nut, 109(9), 2-26.
  • Bowtell, J. L., Aboo-Bakkar, Z., Conway, M., Adlam, A.-L. R., & Fulford., J. (July de 2017). Enhanced task related brain activation and resting perfusion in healthy older adults after chronic blueberry supplementation. Appl Physiol Nutr Metab, 47(7), 773-779.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Krikorian, R., Shidler, M. D., Nash, T. A., Kalt, W., Vinqvisit-Tymchuk, M. R., Shukitt-Hales, B., & Joseph, J. A. (April de 2010). Blueberry Supplementation Improves Memory in Older Adults. J Agric Food Chem, 58(7), 3996-4000.
  • Miller, M. G., Hamilton, D. A., Joseph, J. A., & Shukitt‑Hale, B. (10 de March de 2017). Dietary blueberry improves cognition among older adults in a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Eur J Nutr.

Achas-te a informação útil?

Carrega na estrela para avaliares este artigo

Média de estrelas dadas 5 / 5. Avaliações 14

Sem avaliações. Sê o primeiro!

Ajuda a espalhar a informação desta página! 🙂

One Reply to “Podem os Mirtilos Ajudar a Melhorar a Cognição?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *