Segundo a Direção Geral de Saúde, a depressão é caracterizada por “tristeza, perda de interesse ou prazer, sentimentos de culpa ou de baixa autoestima, perturbações do sono ou do apetite, sensação de cansaço e baixo nível de concentração. A depressão pode ser duradoura ou recorrente, prejudicando substancialmente a capacidade de uma pessoa funcionar no trabalho ou na escola ou lidar com a vida diária. Na sua forma mais grave, a depressão pode levar ao suicídio” (Carvalho, nd).

Este problema pode aumentar o risco de se desenvolver outras patologias como problemas coronários (de coração), Diabetes Mellitus Tipo 2 e cancro , podendo piorar o prognóstico de outras doenças presentes nos indivíduos, promover incapacidade e aumentar a mortalidade (Beydoun, Beydoun, Boueiz, Shrof, & Zonderman, 2013; Carvalho, nd; Niu, et al., 2013).

Esta desordem é a principal causa de incapacidade a nível mundial, afetando cerca 16% da população total (McMartin, Jacka, & Colman, 2013).

Segundo os dados da “Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental”, mais de um quinto dos portugueses apresenta uma perturbação psiquiátrica, sendo Portugal o segundo país da Europa com maior prevalência de perturbações do foro psiquiátrico (Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, s.d.).

Em 2017 registaram-se no país 1061 mortes devido a lesões autoprovocadas intensionalmente e sequelas (suicídios), representando 1% da mortalidade do país, nesse ano (Instituto Nacional de Estatística, 2019).

Existem vários tipos de tratamento para desta desordem, incluindo medicação e apoio psicológico, mas agora a grande questão é:

Em que é que a comida pode ajudar?

Segundo a evidência científica, a formação de radicais livres apresenta um papel importante na fisiopatologia de variadas desordens neuropsiquiátricas como esquizofrenia, desordem bipolar e depressão, abrindo a possibilidade de novas estratégias de tratamento, tais como a utilização de antioxidantes, como terapia adjuvante para estas desordens (Pandya, Howell, & Pillai, 2013).

Mas como é que estes radicais podem estar relacionados com a depressão?

O cérebro é considerado um órgão extremamente vulnerável ao stress oxidativo devido ao facto de necessitar de elevada quantidade de oxigénio para funcionar adequadamente. Mais se acrescenta que a formação de radicais livres pode influenciar o sistema imunitário de forma negativa, assim como alterar a função dos neurónios e a atividade geral do cérebro (Beydoun, Beydoun, Boueiz, Shrof, & Zonderman, 2013).

A depressão tem sido associada a uma nutrição pobre, a uma ingestão inadequada de frutas e vegetais e, consequentemente, uma alimentação baixa em antioxidantes (Payne, Steck, & George, 2012).

O Licopeno, antioxidante carotenoide que promove a cor vermelha nos alimentos é considerado o mais poderoso e não tóxico de todos os carotenoides. Estudos “in vitro” têm demonstrado que este é um antioxidante 100 vezes mais eficaz que a vitamina E. Devido a isto, um estudo decidiu investigar a relação entre o consumo de tomate/alimentos à base de tomate (ricos em licopeno) e sintomas depressivos em indivíduos com idades superiores a 70 anos. A amostra incluiu 986 pessoas sendo que 34.9% sofria de depressão ligeira e severa e 20.2% de depressão profunda. Os seus resultados sugerem que o consumo elevado de tomate/produtos à base de tomate reduz a prevalência de se desenvolverem sintomas depressivos (Niu, et al., 2013).

A quantidade de antioxidantes presentes na corrente sanguínea reflete a quantidade destes químicos que foi ingerida. Vários estudos têm posto a hipótese de haver uma relação entre a quantidade destes químicos no sangue e sintomas depressivos, sendo que quando estes estão presentes em menores quantidades, maior é a probabilidade de desenvolver este problema. Como forma de confirmar esta teoria, investigadores analisaram o sangue de cerca de 1798 indivíduos e concluíram que o aumento da quantidade de antioxidantes no sangue reduz em 37% o risco de se desenvolverem sintomas depressivos (Beydoun, Beydoun, Boueiz, Shrof, & Zonderman, 2013).

Num estudo que teve uma duração de 2 semanas, 39 omnívoros foram divididos em 3 grupos: omnívoro (continuaram a comer peixe, carne e frango), peixe (tinham de evitar comer carne e frango e podiam comer 3-4 porções de peixe por semana. Ovos eram permitidos) e vegetariano (tinham de evitar alimentos de origem animai exceto laticínios). No início e final da investigação todos eles tiveram de completar um questionário validado alimentar e dois questionários validados relacionados com humor, ansiedade, stress e depressão. O grupo vegetariano apresentou melhorias a nível de psicológico em comparação com os outros 2, o que sugere que o consumo de alimentos de origem animal pode influenciar, negativamente a saúde mental (Beezhold & Johnston, 2012).

Uma outra investigação decidiu analisar a possível relação entre o consumo de frutas e vegetais e a saúde mental, através da utilização de um questionário que foi entregue em diferentes anos (2001 entregue a 125.428 indivíduos; 2003 a 47.879; 2005 a 26.841; 2007 a 42.543 e finalmente em 2009 a 53.430 indivíduos). Os resultados indicaram que o aumento do consumo de frutas e vegetais está associado a uma redução de 27% da probabilidade de se desenvolver depressão, assim como contribuem para a redução do risco de se sofrer de angústia e ansiedade. O mesmo se verificou nos participantes de uma investigação intitulada “Let them eat fruit!…”: os que aumentaram a ingestão de frutas/ vegetais apresentaram melhorias a nível de vitalidade e motivação ao fim de 14 dias  (Conner, et al., 2017; McMartin, Jacka, & Colman, 2013).

Outros autores decidiram analisar a relação entre consumo de frutas e vegetais em adultos com idades superiores a 60 anos, diagnosticados com depressão e também chegaram a conclusões idênticas: a ingestão de frutas, vegetais e a ingestão de antioxidantes naturais, especialmente Vitamina C (mais infos sobre esta vitamina aqui) e beta-criptoxantinas foram inversamente associadas com depressão (ou seja quando há um maior consumo de um, há uma redução do outro). O mesmo não se observou aquando da utilização de suplementos de antioxidantes (Payne, Steck, & George, 2012).

Assim, possivelmente outros componentes presentes nestes alimentos, que não se encontram nos suplementos, podem também ajudar na depressão (Payne, Steck, & George, 2012).

E quais são esses componentes?

Tal como os antioxidantes, também existe uma relação entre depressão e quantidade de ácido fólico (vitamina B9) e vitamina B12 no sangue. Mais se acrescenta que baixos níveis de B9 podem contribuir para uma baixa resposta por parte do corpo ao tratamento com antidepressivos (Gilbody, Lightfoot, & Sheldon, 2007; Tolmunen, et al., 2004).

Um estudo confirmou o que acima foi descrito, concluindo que os participantes que ingeriram menores quantidades de ácido fólico tinham um risco 3 vezes superior de desenvolver depressão, comparativamente com o grupo que ingeria maiores quantidades. Note-se que esta vitamina foi obtida através de alimentos e acrescenta-se que não existe evidência científica que os suplementos de ácido fólico reduzem a incidência de distúrbios de humor (L.Sharpley, Hockney, McPeake, Geddes, & Cowen, 2014; Tolmunen, et al., 2004).

Resumidamente:

  • Uma dieta saudável que inclua a ingestão elevada de frutas e vegetais (que são ricos em antioxidantes) pode ajudar a reduzir os efeitos negativos na saúde mental causados pelo stress oxidativo (McMartin, Jacka, & Colman, 2013);
  • Os suplementos/multivitamínicos, mais uma vez, não apresentam ter tantos efeitos positivos comparativamente com a ingestão de alimentos ricos em antioxidantes e ácido fólico.

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • Beezhold, B. L., & Johnston, C. S. (2012). Restriction of meat, fish, and poultry in omnivores improves mood: A pilot randomized controlled trial. Nutrition Journal, 11(9).
  • Beydoun, M. A., Beydoun, H. A., Boueiz, A., Shrof, M. R., & Zonderman, A. B. (2013). Antioxidant status and its association with elevated depressive symptoms among US adults: National Health and Nutrition Examination Surveys 2005–06. Br J Nut, 109(9), 2-26.
  • Carvalho, Á. (nd). Depressão e Ouras Perturbações Mentais Comuns – Enquadramento Global e Nacional e referência de Recurso em Casos Emergentes. Direção Geral de Saúde.
  • Conner, T. S., Brookie, K. L., Carr, A. C., Mainvil, L. A., C., M., & Vissers, M. (2017, February 3). Let them eat fruit! The effect of fruit and vegetable consumption on psychological well-being in young adults: A randomized controlled trial. PLOS ONE, 12(2).
  • Gilbody, S., Lightfoot, T., & Sheldon, T. (2007). Is low folate a risk factor for depression? A meta-analysis and exploration of heterogeneity. J Epidemiol Community Health, 6(1), 631-637.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2019). Causas de morte 2017. Lisboa, Portugal: Instituto Nacional de Estatística.
  • L.Sharpley, A., Hockney, R., McPeake, L., Geddes, J. R., & Cowen, P. J. (2014). Folic acid supplementation for prevention of mood disorders in young people at familial risk: A randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Journal of affective disorders, 167, 306-311.
  • McMartin, S. E., Jacka, F. N., & Colman, I. (2013). The association between fruit and vegetable consumption and mental health disorders: Evidence from five waves of a national survey of Canadians. Preventive Medicine, 56, 225-230.
  • Niu, K., HuiGuo¸MasakoKakizaki, YufeiCui, KaoriOhmori-Matsuda, Guan, L., Hozawa, A., . . . Nagatomi, R. (2013). A tomato-rich diet is related to depressive symptoms among an elderly population aged 70 years and over: A population-based, cross-sectional analysis. JournalofAffectiveDisorders, 144, 165-170.
  • Pandya, C. D., Howell, K. R., & Pillai, A. (2013, October). Antioxidants as potential therapeutics for neuropsychiatric disorders. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry, 46, 214-223.
  • Payne, M. E., Steck, S. E., & George, R. R. (2012, December). Fruit, Vegetable and Antioxidant Intakes are Lower in Older Adults with Depression. J Acad Nutr Diet, 112(12), 2022-2027.
  • Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental. (n.d.). Perturbação Mental em Números. Retrieved from https://www.sppsm.org/informemente/guia-essencial-para-jornalistas/perturbacao-mental-em-numeros/
  • Tolmunen, T., Hintikka, J., Ruusunen, A., Voutilainen, S., Tanskanen, A., Valkonen, V.-P., . . . Salonen, J. T. (2004). Dietary Folate and the Risk of Depression in Finnish Middle-Aged Men – A Prospective Follow-Up Study. Psychotherapy and Psychosomatics, 73, 334-339.

 

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