A semana passada falei um bocado do que é a Diabetes, qual a diferença entre Tipo 1 e 2, quais as suas complicações e como as alterações dos estilos de vida podem ajudar a reverter e a prevenir esta patologia (não foste a tempo de ver o artigo? Clica aqui para o leres!).

Agora a grande questão é: Será que apenas o que comemos é suficiente para potenciar/prevenir/reverter este problema e, se sim, qual é a melhor “dieta”?

Tal como outras patologias, a incidência da Diabetes varia de região para região e estas diferenças devem-se a fatores ambientais e dietéticos.

Em 1935, H.P. Himsworth decidiu comparar a prevalência desta patologia em 6 países diferentes. Alguns desses

Figura 1 Prevalência da Diabetes em 6 Países e sua relação com o tipo de alimentação adotada por estes (Campbell & Campbell, 2016; HP, 1935)

consumiam dietas ricas em gordura enquanto que outros consumiam dietas ricas em carbohidratos complexos (presentes em frutas, legumes, leguminosas e sementes). Estes padrões gordura vs hidratos de carbono eram o resultado de dietas à base de produtos animais vs plantas, respetivamente. Os resultados demonstraram que a prevalência da Diabetes diminuía à medida que o consumo de gorduras reduzia e o de carbohidratos aumentava (Campbell & Campbell, 2016; HP, 1935).

Um outro estudo decidiu, também, comparar a prevalência da Diabetes em 4 países (Uruguai, Venezuela, Malásia e Paquistão- zona este) tendo os autores chegado à conclusão que dietas ricas em carbohidratos complexos estavam associados a uma menor prevalência deste problema. O Uruguai, que é caracterizado por uma alimentação alta em proteínas e gorduras animais, apresentou maior prevalência, enquanto o Paquistão, que tinha uma alimentação oposta e rica em carbohidratos complexos, apresentou uma menor prevalência (Campbell & Campbell, 2016; West & Kalbfleisch, 1966).

Uma das recomendações que faz parte do tratamento de indivíduos com esta condição médica é a alteração dos hábitos alimentares. Grande parte das associações ligadas ao problema da Diabetes de diversos países, incluindo a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, apresentam receitas nos seus “websites”. Contudo, para além de sopas e saladas, estas incluem pratos de peixe e carne e sobremesas onde são utilizados adoçantes (Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal , s.d.) .

Será isto o mais indicado?…

Um estudo decidiu comparar os efeitos entre dieta vegana vs dieta convencional para tratamento da Diabetes e

Figura 2 Comparação dos níveis glicémicos no sangue entre dietas vegana vs convencional (Barnard, et al., 2009)

concluiu que a primeira foi mais efetiva a diminuir os níveis glicémicos no sangue que a segunda (figura 2) (Barnard, et al., 2009).

Uma outra investigação também decidiu comparar os efeitos entre uma dieta vegana baixa em gorduras e a dieta recomendada pela “American Diabetes Association” e concluiu, também, que a primeira foi mais eficaz a controlar os níveis glicémicos dos participantes com Diabetes tipo 2, ao fim de 22 semanas. Os níveis glicémicos do grupo da dieta convencional permaneceram inalterados (Turner-McGrievy, et al., 2008).

Os hidratos de carbono refinados podem ser encontrados em alimentos como cereais processados (massa e arroz brancos), refrigerantes, adoçantes e farinhas refinadas. Este tipo de carbohidratos apresentam maior densidade calórica e menores quantidades de fibra e proteína. Tem-se demonstrado uma ligação entre o consumo destes produtos e o aumento da resistência à insulina, o aumento do risco de obesidade, dislipidemia, Diabetes Tipo 2 e intolerância à glicose. (Gross, Li, Ford, & Liu, 2004).

Uma outra investigação chegou à conclusão que o consumo de carne estava positivamente associado ao aumento do risco de desenvolver Diabetes em mulheres e homens. O consumo de carnes vermelhas está associado a um risco de 21%, enquanto que as carnes processadas apresentam um risco de 41% (Snowdon & Phillips, 1985; Trapp & Barnard, 2010). Um estudo mais recente, realizado na China concluiu que para cada 50g/dia de carne vermelha ou peixe, existe um aumento do risco de desenvolver Diabetes tipo 2 de 11% e 6%, respetivamente (Du, et al., 2020).

Então o que se deve comer?

Parte da resposta a esta pergunta está presente nos estudos supra citados, mas vou dar um bocadinho mais de ênfase.

As dietas vegetarianas e veganas têm, desde há muito tempo, sido utilizadas para controlo de peso, aumento da sensibilidade à insulina e reduzir o risco de doença cardíaca (Trapp & Barnard, 2010).

Nos Estados Unidos a prevalência da Diabetes é menor entre vegetarianos comparativamente com omnívoros. Uma investigação demonstrou que os não-vegetarianos, apresentavam um risco maior de desenvolver este problema (1.6-2 vezes mais) em comparação com os vegetarianos ou veganos. À medida que o consumo de produtos animais aumenta, o risco de desenvolver esta condição também aumenta (Trapp & Barnard, 2010).

Figura 3 Prevalência da Diabetes Mellitus em diversos tipos de dietas (Trapp & Barnard, 2010)

Devido a esta evidência científica, em 2009 a “American Diatetic Association” começou a recomendar este tipo de alimentação para tratamento deste problema. Num dos seus artigos é referido (passo a citar e a traduzir): “…dietas vegetarianas, incluindo dietas vegetarianas ou veganas totais, são saudáveis, adequadas nutricionalmente e podem providenciar benefícios para a saúde na prevenção e tratamento de certas doenças. Dietas vegetarianas bem planeadas são apropriadas em todas as fazes da vida, incluindo gravidez, aleitamento, quando se é bebé, na infância e adolescência e em atletas” (American Dietetic Association, 2009).

Em 2010 esta mesma associação alterou as suas “guidelines”, referindo nestas que uma alimentação à base de plantas, quando bem planeada e nutricionalmente adequada, tem demonstrado melhorar o controlo metabólico em diabéticos (American Diabetes Association, 2010).

Os resultados de um estudo publicado em 2020, que analisou outras 3 investigações revelou que existe uma redução de 29% do risco de se desenvolver Diabetes tipo 2 aquando o aumento do consumo de cereais integrais. Os autores concluem que o consumo destes alimentos deve fazer parte dos hábitos alimentares para prevenção da Diabetes (Hu, et al., 2020).

Resumidamente:

T Colin Campbell faz uma conclusão muito engraçada sobre esta doença, com a qual eu concordo a 100%. Ele diz (Campbell & Campbell, 2016):

“Eu questiono-me o quão prático é ter uma condição para a vida toda que não pode ser curada com drogas e cirurgias; uma condição que pode levar a problemas cardíacos, AVC´s, cegueira ou amputações; uma condição que te pode levar a injetar insulina no teu corpo todos os dias para o resto da tua vida.

Radicalmente mudares a tua dieta pode ser “imprático”, mas pode ser que valha a pena!”

Nota: se gostaste do artigo podes avaliá-lo após referências bibliográficas.

Bibliografia

  • American Diabetes Association. (2010, January). Standards of Medical Care in Diabetes—2010. Diabetes Care, 33, S11-S61.
  • American Dietetic Association. (2009, July). Position of the American Dietetic Association: Vegetarian Diets. Journal of the American Dietetic Association, 109, 1266-1282.
  • Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal . (n.d.). Receitas. Retrieved from Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal : https://apdp.pt/nutricao/receitas/
  • Barnard, N. D., Cohen, J., Jenkins, D. J., Turner-McGrievy, G., Gloede, L., Green, A., & Ferdowsian, H. (2009). A low-fat vegan diet and a conventional diabetes diet in the treatment of type 2 diabetes: a randomized, controlled, 74-wk clinical trial. Am J Clin Nutr, 89, 1588s-1596s.
  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Du, H., Guo, Y., Bennett, D. A., Bragg, F., Yu, Z. B., Chadni, M., . . . Chen, J. (2020, Jan 22). Redmeat, poultry and fish consumption and risk of diabetes: a 9 year prospective cohort study of the China Kadoorie Biobank. Diabetologia.
  • Gross, L. S., Li, L., Ford, E. S., & Liu, S. (2004, June). Increased consumption of refined carbohydrates and the epidemic of type 2 diabetes in the United States: an ecologic assessment1-3. American Journal of Clinical Nutrition, 79, 774-9.
  • HP, H. (1935). Diet and the incidence of diabetes mellitus. Diabetes Care, 2, 117-148.
  • Hu, Y., Ding, M., Sampson, L., Willett, W. C., Manson, J. E., Wang, M., . . . Sun, Q. (2020). Intake of whole grain foods and risk of type 2 diabetes: results from three prospective cohort studies. BMJ.
  • Snowdon, D. A., & Phillips, R. L. (1985). Does a Vegetarian Diet Reduce the Occurrence of Diabetes? American Journal of Public Health, 75, 507-512.
  • Trapp, C. B., & Barnard, N. D. (2010). Usefulness of Vegetarian and Vegan Diets for Treating Type 2 Diabetes. (Springer, Ed.) Curr Diab Rep, 10, 152-158.
  • Turner-McGrievy, G. M., Barnard, N. D., Cohen, J., Jenkins, D. J., Gloede, L., & Green, A. A. (2008, October). Changes in Nutrient Intake and Dietary Quality among Participants with Type 2 Diabetes Following a Low-Fat Vegan Diet or a Conventional Diabetes Diet for 22 Weeks. Journal of the AMERICAN DIETETIC ASSOCIATION, 108, 1636-45.
  • West, K. M., & Kalbfleisch, J. M. (1966, January). Glucose Tolerance, Nutrition, and Diabetes in Uruguay, Venezuela, Malaya, and East Pakistan. Diabetes, 15, 9-18.

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