Nas últimas semanas os antioxidantes têm sido o centro das atenções das minha publicações. Eles ajudam a atrasar o processo de envelhecimento (clica aqui) e a melhorar a imunidade (clica aqui). Será que também podem ajudar a melhorar problemas respiratórios como, por exemplo a asma?

A asma é uma reação alérgica crónica onde ocorre, inflamação e hiperreatividade das vias respiratórias, assim como restrições na entrada de ar para os pulmões, devido a  contrações da musculatura lisa destas vias. Em 2013, 300 milhões de pessoas a nível mundial apresentaram esta patologia e sua prevalência tem vindo a aumentar nas últimas décadas, sendo mais frequente nos países ocidentais (Tanaka & Takahashi, 2013).

Apesar de a maioria dos portadores desta patologia a apresentarem de forma ligeira a moderada, cerca de 5-10% dos pacientes apresentam asma grave, implicando custos significativos e perda da qualidade de vida (Arrobas, 2016).

Acredita-se que a interação entre fatores genéticos e ambientais faça com que os indivíduos fiquem mais sensíveis aos alergénios presentes no ambiente. Não só os alergénios podem desencadear ataques de asma, mas também a inalação de fumo proveniente do tabaco, ingestão de álcool, realização de exercício físico e o uso de anti-inflamatórios não-esteróides. Alguns destes levam ao aumento da inflamação das vias respiratórias, causando o aumento de radicais livres e, consequentemente, o aumento do stress oxidativo (Iikura, et al., 2013; Kim, Ellwood, & Asher, 2009; Tanaka & Takahashi, 2013; Wood L. G., Garg, Blake, Garcia-Caraballo, & Gibson, 2005).

Apesar de Portugal integrar o grupo dos países com menor mortalidade e menor quantidade de internamentos por

Figura 1 Número de utentes ativos com diagnóstico de Asma e Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica em Portugal continental desde 2011-2017 (Sistema Nacional de Saúde, 2018)

asma, a sua prevalência tem vindo a aumentar de ano para ano (figura 1). Estima-se que apenas 57% dos asmáticos tenham a sua doença controlada e, segundo o Inquérito Nacional de Controlo da Asma de 2010, 88% dos asmáticos não controlados consideraram a sua doença estável (Arrobas, 2016; Sistema Nacional de Saúde, 2018).

Tanto a “The Global Initiative for Asthma Guidelines”,  como o Serviço Nacional de Saúde Português recomendam a prática de uma dieta saudável como prevenção primária da asma. Mas… Em que consiste uma dieta “saudável”? Esta recomendação é sem, dúvida pouco ou nada esclarecedora pelo que é importante saber quais os alimentos ou hábitos alimentares que devem ser implementados para controlo desta patologia (Direção Geral de Saúde, 2018; Garcia-Larsen, et al., 2016).

A inflamação e o stress oxidativo são os principais processos que levam ao desenvolvimento deste problema de saúde, tal como supra referido. De facto, este último potencia a produção de muco, a contração da musculatura lisa e a alterações das células epiteliais presentes nas vias respiratórias, induzindo a sua hiperreatividade e consequente obstrução (Wood L. G., et al., 2012; Wood L. G., Garg, Blake, Garcia-Caraballo, & Gibson, 2005).

Os pulmões são revestidos por duas camadas designadas pleuras, existindo entre elas um líquido que contém uma variedade de antioxidantes, enzimas e proteínas. Para além de este líquido lubrificar o pulmão e potenciar a sua mobilidade, também é a primeira linha de defesa contra agentes provenientes do ambiente que potenciam o stress oxidativo (Wood L. G., Garg, Blake, Garcia-Caraballo, & Gibson, 2005).

Devido a isto, a alimentação pode ter um papel importantíssimo na manifestação deste problema respiratório. Uma vez que os antioxidantes protegem contra o stress oxidativo, se aumentarmos o consumo de alimentos ricos em antioxidantes, podemos melhorar bastante a função pulmonar (Garcia-Larsen, et al., 2016; Wood, et al., 2012).

Alimentos ricos em vitaminas A, C, D e E e em antioxidantes como carotenoides, flavonoides, selenium, magnésio e zinco aparentam ser protetores face a este problema respiratório. Todos estes podem ser encontrados em alimentos como frutas, vegetais, frutos secos, sementes, chá, café, vinho e chocolate preto (Garcia-Larsen, et al., 2016; Kim, Ellwood, & Asher, 2009; Tanaka & Takahashi, 2013; Wood, et al., 2012).

É interessante saber que um estudo realizado em 1985 demonstrou que uma alimentação vegana ajudou imenso a controlar a asma. Engraçado que não fazia a mínima ideia que o veganismo existia nessa altura. Penso que a primeira vez que ouvi falar disto foi há cerca de 3 anos atrás! De facto, os participantes deste estudo, todos com bronquite asmática grave, com duração média de 12 anos, a tomar em média 4.5 medicamentos a longo-prazo, adotaram uma alimentação vegana durante um ano. Eis os resultados (Lindahl, Lindwall, Spångberg, Stenram, & Öckerman, 1985):

Figura 2 Resultados subjetivos após 4 meses e 1 ano de estudo onde os participantes adotaram uma alimentação vegana (Lindahl, Lindwall, Spångberg, Stenram, & Öckerman, 1985)

Após 4 meses, 71% deles reportaram melhorias e esta percentagem aumentou para 92% ao fim de um ano. Houve uma redução da frequência e da severidade dos ataques de asma e um aumento da capacidade de realizar atividade física. Alguns participantes relataram que desde que adotaram este tipo de alimentação tiveram “uma vida nova” (Lindahl, Lindwall, Spångberg, Stenram, & Öckerman, 1985).

Após 1 ano, 4 pacientes deixaram de tomar medicação para controlo dos ataques de asma e a grande maioria reduziu a quantidade de medicação entre 10-50% (média 4.5 medicamentos reduziu para 1.2). Óbvio que estes resultados foram devidos à adesão a esta forma de comer: os que melhor aderiram apresentaram melhores resultados (Lindahl, Lindwall, Spångberg, Stenram, & Öckerman, 1985)

Apesar de este estudo não ter tido grupo controlo, os resultados são muito bons para serem ignorados! Mais uma vez quero salientar que estes indivíduos apresentavam asma grave!

Estudos epidemiológicos têm demonstrado que o aumento do consumo de frutas e vegetais podem ser protetores face à asma em adultos, adultos-jovens e crianças (Tanaka & Takahashi, 2013; Wood L. G., Garg, Blake, Garcia-Caraballo, & Gibson, 2005)

Interessante verificar que estudos realizados de forma a testar os efeitos de suplementos de antioxidantes no risco de asma têm demonstrado resultados dececionantes e inconclusivos (Garcia-Larsen, et al., 2016; Kim, Ellwood, & Asher, 2009; Wood, et al., 2012).

Um estudo intitulado “Manipulating antioxidant intake in asthma” dividiu 137 asmáticos em 3 grupos: um a ingerir uma alimentação rica em antioxidantes (ARA) (5 porções de vegetais e 2 de fruta por dia) e os outros 2 a ingerir uma alimentação baixa em antioxidantes (ABA) (≤2 porções de vegetais e 1 de fruta por dia) durante 14 dias. Ao fim deste tempo o grupo ARA e um dos grupos de ABA iniciaram a toma de cápsulas sem efeito terapêutico (placebo) e o outro grupo ABA iniciou a toma de cápsulas de licopeno (antioxidante presente nos tomates e que lhes dá cor vermelha). Estas tiveram de ser tomadas 3 vezes/dia. Todos tiveram de manter este protocolo até apresentarem um ataque asmático ou até 14 semanas após o início do estudo (Wood, et al., 2012).

O número total de participantes a completar esta investigação foram 33 do grupo ARA, 23 ABA-placebo e 23 ABA-suplemento. Ao fim de 14 dias, o grupo ARA apresentou maiores quantidades de antioxidantes no sangue em comparação com os grupos ABA. Já estes, apresentaram uma redução da função dos pulmões e um aumento da quantidade de proteína C- reativa no sangue, o que é indicador de um aumento da inflamação. O grupo que ingeriu o suplemento à base de licopeno apresentou resultados similares ao grupo ABA a ingerir cápsulas placebo (Wood, et al., 2012).

Ao fim de 14 semanas, apenas 8 indivíduos do grupo ARA apresentaram uma exacerbação da asma, em comparação com 12 e 9 participantes dos grupos ABA suplemento e placebo respetivamente (engraçado que o grupo do suplemento apresentou maior número de ataques asmático em comparação com os outros 2) (Wood, et al., 2012).

Assim, o estudo concluiu que suplementos de antioxidantes não foram efetivos no controlo desta patologia e que uma alimentação à base de plantas aparenta ser mais efetiva. Interessante será dizer que a ingestão de 1 peça de fruta e cerca de 2 porções de vegetais (que era o que os grupos ABA estavam a ingerir) representa o consumo médio destes alimentos nos países ocidentais. Assim, esta investigação explica o porquê de estes países apresentarem maior prevalência desta patologia respiratória: adoção de uma alimentação baixa em frutas e vegetais (Wood, et al., 2012).

Assim sendo, de que estás à espera? Se sofres de asma, nada melhor do que controlares os teus sintomas de forma natural através de ingestão destes alimentos!

Bibliografia

  • Arrobas, A. (2016). Asma. Direção Geral da Saúde. Programa Nacional para as Doenças Respiratórias.
  • Direção Geral de Saúde. (2018). Norma nº 006/2018: Monitorização e Tratamento Para o Controlo da Asma na Criança, no Adolescente e no Adulto. República Portuguesa.
  • Garcia-Larsen, V., Giacco, S. R., Moreira, A., Bonini, M., Charles, D., T. Reeves6, K.-H. C., . . . Delgado, L. (2016). Asthma and dietary intake: an overview of systematic reviews. Allergy, 71, 433–442.
  • Iikura, M., Yi, S., Ichimura, Y., Hori, A., Izumi, S., Sugiyama, H., . . . Kobayashi, N. (July de 2013). Effect of Lifestyle on Asthma Control in Japanese Patients: Importance of Periodical Exercise and Raw Vegetable Diet. PLOS ONE, 8(7).
  • Kim, J.-H., Ellwood, P. E., & Asher, M. I. (2009). Diet and asthma: looking back, moving forward. Respiratory Research, 10(49).
  • Lindahl, O., Lindwall, L., Spångberg, A., Stenram, Å., & Öckerman, P. A. (1985). Vegan Regimen with Reduced Medication in the Treatment of Bronchial Asthma. Journal of Asthma, 22(1), 45-55.
  • Sistema Nacional de Saúde. (2018). Retrato da Saúde 2018. Lisboa: Ministério da Saúde.
  • Tanaka, T., & Takahashi, R. (2013). Flavonoids and Asthma. Nutrients, 5, 2128-2143.
  • Wood, L. G., Garg, M. L., Blake, R. J., Garcia-Caraballo, S., & Gibson, P. G. (2005). Airway and Circulating Levels of Carotenoids in Asthma and Healthy Controls. Journal of the American College of Nutrition, 24(6), 448–455.
  • Wood, L. G., Garg, M. L., Smart, J. M., Scott, H. A., Barker, D., & Gibson, P. G. (2012). Manipulating antioxidant intake in asthma: a randomized controlled trial. Am J Clin Nutr, 96, 534–43.

 

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