Será que temos noção como é que os portugueses comem?

Eu, que moro em Inglaterra e vejo como os ingleses se alimentam, consigo perceber perfeitamente uma coisa: eles alimentam-se muito mal! A taxa de obesidade no Reino Unido e Estados Unidos da América é sem dúvida muito superior à portuguesa! Contudo, estaremos nós a fazer tudo correto, ou estaremos a caminhar na mesma direção destes dois países com taxas de obesidade enormes?

O que nos dizem os dados portugueses?

Segundo a Direção Geral de Saúde, existe uma “disponibilidade energética excessiva quando comparado com o aporte calórico diário médio aconselhado para um adulto”, sendo que os produtos alimentares com desvios maiores são as carnes, pescados e ovos comparativamente com as hortaliças e frutas que são menos ingeridas que o suposto. Isto é: os portugueses comem demasiados produtos animais (mais que a dose recomendada), comparativamente com os produtos vegetais. Ainda se acrescenta que “a proporção de proteína de origem animal está acima do desejável” (Graça, et al., 2014).

Portugal é conhecido por ser um país com a famosa “Dieta Mediterrânea”, mas será que sabemos em que consiste esta dieta?

Este tipo de alimentação é caracterizado pelo “consumo abundante de alimentos de origem vegetal… consumo de produtos frescos da região, pouco processados e sazonais, consumo de azeite como principal fonte de gordura, consumo baixo e pouco frequente de carne vermelha, consumo frequente de pescado, consumo baixo a moderado de vinho… e a água como bebida central…” (Graça, et al., 2014).

Mas… será que a alimentação dos portugueses está a deixar de ser tão tradicional e tão mediterrânea como era?

Aparentemente sim! Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) “ A dieta Portuguesa tem-se vindo a afastar progressivamente dos princípios básicos de uma dieta saudável”, uma vez que os desequilíbrios alimentares dos portugueses têm vindo a crescer com o aumento do consumo de produtos animais, óleos e gorduras (Instituto Nacional de Estatística, 2010).

A Organização Mundial de Saúde recomenda um consumo diário de 10% de gorduras e os portugueses excedem este valor em 6% (Graça, et al., 2014)!

“As disponibilidades alimentares em Portugal põem em evidência uma dieta hipercalórica e uma roda dos alimentos distorcida” (Instituto Nacional de Estatística, 2010).

Figura 1 Roda dos alimentos distorcida dos portugueses: à esquerda o que deveria ser e à direita o que era em 2008 (Instituto Nacional de Estatística, 2010)

 

Obesidade em Portugal:

Figura 2 Número de pessoas registadas com obesidade (Graça, et al., 2014)

O número de obesos, em Portugal tem vindo a aumentar ao longo dos anos.

Em 2014, cerca de 52.8%, ou seja mais de metade da população com idades iguais ou superiores a 18 anos apresentava excesso de peso (Instituto Nacional de Estatística, 2015)

Existem atualmente cerca de 1 milhão de adultos obesos e 3.5 milhões de pré-obesos, numa população atual de 10,36 milhões. (Graça, et al., 2014; PORDATA – Base de dados Portugal Comtemporâneo, s.d.).

Figura 3 Estado Nutricional por idade, 2019 (COSI PORTUGAL-2019, 2019)

Obesidade Infantil:

Apesar da obesidade infantil ter vindo a diminuir nos últimos anos, estima-se que em 2019 29.6% das crianças apresentaram excesso de peso e 12% eram obesas. Contudo, a prevalência de obesidade infantil tende a aumentar com a idade (COSI PORTUGAL-2019, 2019).

Como é que isto afeta a nossa saúde?

Muitas vezes as pessoas que sofrem de excesso de peso apercebem-se que não conseguem fazer muitas coisas que gostariam, como brincar com os filhos/netos, caminhar longas distâncias, ter uma vida sexual ativa, participar em desportos e encontrar uma posição confortável para se sentarem devido a desconforto das costas ou de outras articulações. O excesso de peso tanto afeta a parte motora, como a saúde mental e vida social. Para além disso, “Os hábitos alimentares inadequados constituem o primeiro fator de risco de perda de anos de vida.” (Campbell & Campbell, 2016; Graça, et al., 2014)

Um dos principais determinantes de doenças cardiovasculares e alguns tipos de cancros é o consumo inalterado de fruta e hortícolas e os níveis de obesidade também se podem dever à ingestão de alimentos de elevada densidade energética (Graça, et al., 2014).

As notas finais do documento “Alimentação Saudável em números -2014” dizem o seguinte, (passo a citar) (Graça, et al., 2014):

  • O impacto crescente que os doentes obesos (1 milhão de adultos) começam a ter nos serviços de saúde, demonstra a necessidade de se atuar e prevenir cada vez mais cedo;
  • Mais de 50% dos adultos Portugueses sofre de excesso de peso e a alimentação inadequada é a principal responsável pelos anos de vida prematuramente perdidos em Portugal;
  • Desde o nascimento parecem iniciar-se hábitos alimentares não saudáveis que, depois de instalados, parecem prevalecer e condicionar toda a juventude e idade adulta;
  • A alimentação de má qualidade, em particular a excessiva ingestão de energia proveniente de gordura de origem animal e de sal bem como o baixo consumo de substâncias protetoras presentes nos frutos e hortícolas, associada à inatividade física continuam a ser principais determinantes do aparecimento de obesidade e de doença crónica em Portugal;
  • Esta pode ser uma oportunidade de relançar o consumo de leguminosas secas como fontes de proteína alternativa e de qualidade e de fruta como fonte de substâncias protetoras.

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Questiono se tinham noção destes números? Eu, honestamente sabia que a nossa alimentação estava a piorar, mas quando uma pessoa olha para os números é que consegue ter uma perceção do que o povo português come.

Parte das recomendações para reduzir este problema que é a obesidade já foram referidas nos documentos supra citados.

Hoje em dia existem diferentes tipos de dietas: “Low carb”, dieta cetogénica, etc, etc, mas terão estas dietas consequências para a saúde a longo prazo? Hum… esta discussão será feita noutra altura.

De acordo com inúmeros estudos, uma alimentação à base de plantas é uma excelente solução!

Em que consiste uma alimentação à base de plantas – “Whole Foods Plant based Diet”?

“Whole Foods” são alimentos que não apresentam lista de ingredientes, pois são considerados alimentos simples. São também os produtos menos processados e incluem frutas e vegetais.

Seguir uma alimentação à base de plantas é basicamente comer tudo o que o planeta Terra te dá. Este tipo de alimentação inclui produtos integrais, como arroz, massa, pão, quinoa, aveia, fruta, legumes, leguminosas, frutos secos e sementes. Neste tipo de alimentação não há produtos animais, não há lacticínios, óleos ou produtos processados, e como há medida que este blog vai crescendo poderás te aperceber que este é o tipo de alimentação ideal para a tua saúde (Trapp & Barnard, 2010)!

Porque é que a ““whole foods, plant-based diet” é a solução?

Esta é uma dieta relaxada, pois se tu deres ao teu corpo a comida certa ele vai fazer o que tem de fazer, sem teres de contar quantas calorias, quantas gorduras ou hidratos consumiste! O facto de as frutas, leguminosas, vegetais e grãos terem uma densidade energética muito menor e terem muito mais fibra que os produtos animais, indica que, para ingerires a mesma quantidade de calorias, tens de comer maiores porções neste tipo de dieta, ou seja podes comer imenso e mesmo assim perder peso (Campbell & Campbell, 2016)!

Figura 5 Densidade calórica entre óleos, queijos, carne, batatas, arroz, feijão e frutas e vegetais.

Isto é verdade? OH SIM!!!

Um estudo demonstrou que comparativamente com os Americanos, os Chineses das áreas rurais ingeriam muito mais calorias e maiores porções de alimentos e mesmo assim eram mais magros. E porquê? A sua alimentação era uma alimentação à base de plantas, baixa em gorduras e proteínas e alta em fibras (Campbell & Chen, 1999)!

Um outro estudo chegou a conclusões idênticas quando comparou vegetarianos com não vegetarianos (Farmer, Larson, Fulgoni, Rainville, & Liepa, 2011).

Numa investigação de intervenção, foi dito aos participantes (todos com excesso de peso) que poderiam comer a quantidade que quisessem de comida baixa em gorduras e rica em cereais integrais e plantas. Após apenas 3 SEMANAS, houve uma perda média de 7.8kg e a quantidade de calorias ingeridas desceu em média 41% ao longo do estudo, (Shintani, Hughes, Beckham, & ‘Connor, 1991)!

Outro benefício deste tipo de alimentação é o facto de conter doses baixíssimas ou quase nulas de gorduras saturadas e de colesterol e doses elevadas de componentes promotoras de saúde como fibra, carotenoides e antioxidantes (Dewell, Weidner, Sumner, Chi, & Ornish, 2008).

Contudo, há que ter em atenção que perder peso com este tipo de alimentação pode não ocorrer se a dieta for composta por muita quantidade de carbohidratos refinados tais como doces, massas e bolos (Campbell & Campbell, 2016).

Mais acrescento que este tipo de alimentação não é exatamente o mesmo que uma alimentação vegana. Esta última apesar de não conter nenhum alimento animal, inclui óleos como o azeite e comida processada (salsichas, gelados, hambúrgueres vegan). Ter uma alimentação vegana não equivale a ser-se saudável, aliás há muita gente que engorda mesmo sendo vegano.  É como digo tu podes comer batatas fritas e gelado vegan, contudo não me aparenta ser um menu muito saudável…

Resumidamente:

A alimentação portuguesa está a fugir do tradicional! É importante desde a infância adotar bons hábitos alimentares de forma a que num futuro se possam prevenir diferentes patologias!

Assim, a frase “De pequenino se torce o pepino”, tem todo o sentido. Contudo, nunca é tarde para se mudar. Tu escolhes, tu decides, mas ao menos tem noção das consequências das tuas escolhas e de como isso pode te afetar, não só a ti mas também aos que te rodeiam!

 

Bibliografia

  • Campbell, T. C., & Campbell, T. M. (2016). The China Study – revised and expanded edition. BenBella Books, Inc.
  • Campbell, T. C., & Chen, J. (1999). Energy balance: interpretation of data from rural China. . The Journal of Toxicological Science, 87-94.
  • COSI PORTUGAL-2019. (2019). Childhood Obesity Surveillance Initiative. Serviço Nacional de Saúde.
  • Dewell, A., Weidner, G., Sumner, M. D., Chi, C. S., & Ornish, D. (February de 2008). A Very-Low-Fat Vegan Diet Increases Intake of Protective Dietary Factors and Decreases Intake of Pathogenic Dietary Factors. American Dietetic Association, 108, 347-356.
  • Farmer, B., Larson, B. T., Fulgoni, V. L., Rainville, A. J., & Liepa, G. U. (June de 2011). A Vegetarian Dietary Pattern as a Nutrient-Dense Approach to Weight Management: An Analysis of the National Health and Nutrition Examination Survey 1999-2004. American DIetetic Association, 819-827.
  • Graça, P., Nogueira, P. J., Farinha, C. S., Soares, A. P., Alves, M. I., Afonso, D., . . . Oliveira, A. L. (2014). PORTUGAL: Alimentação Saudável em números -2014. Lisboa : Direção Geral da Saúde.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2010). Balança Alimentar Portuguesa 2003-2008. Instituto Nacional de Estatística.
  • Instituto Nacional de Estatística. (2015). Inquérito Nacional de Saúde 2014. Instituto Nacional de Estatística.
  • PORDATA – Base de dados Portugal Comtemporâneo. (s.d.). Obtido de PORDATA – Base de dados Portugal Comtemporâneo: https://www.pordata.pt/Portugal
  • Shintani, T. T., Hughes, C. K., Beckham, S., & ‘Connor, H. K. (1991). Obesity and cardiovascular risk intervention through the ad libitum feeding of traditional Hawaiian diet. The American Journal of Clinical Nutrition, 53, 1647S-1651S.
  • Trapp, C. B., & Barnard, N. D. (2010). Usefulness of Vegetarian and Vegan Diets for Treating Type 2 Diabetes. (Springer, Ed.) Curr Diab Rep, 10, 152-158.

 

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3 Replies to “O destino à porta da tua boca – Como é a alimentação dos portugueses?”

  1. Fantástico artigo! Muito esclarecedor e faz-nos pensar neste assunto e encarar o tema de um modo diferente.
    Vamos lá investir numa mudança de hábitos que pode ser gradual e que poderá ser uma mais-valia no que concerne à nossa saúde!

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